Artistas de rua além dos clichês – Parte II: Fernando Machado, Luiz Ficco e Bagunçarte

E hoje inicio meu segundo texto aqui no SOUL ART, com o primeiro capítulo do meu livro “Artistas de rua além dos clichês”. Nesse texto, coloco alguns trechos que considerei mais importantes desse capítulo, que trata dos artistas da Região Metropolitana de São Paulo.

“São Bernardo do Campo é um município pertencente à Região do Grande ABCD e fica a aproximadamente 22 km de São Paulo. Como qualquer outra cidade, também possui artistas de rua. Porém, em São Bernardo, os artistas não têm nenhum apoio da prefeitura, muito menos leis ou decretos que regularizem a profissão e, por conta disso, os que moram na região são obrigados a vir com sua arte e trabalho para as ruas de São Paulo. Um desses artistas é o músico Fernando Machado, de 39 anos e mais de dez de carreira, conhecido como Chapéu WaveHarmônica. Fernando nasceu em São Bernardo, onde mora atualmente, mas, por não ter oportunidades para exercer sua profissão nas ruas da cidade, se apresentava na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona Oeste de São Paulo (…).

— Eu sofri, sofro até hoje, posso dizer que eu vivo entre o céu e o inferno. Acredito que é assim com todo artista de rua. Um dia você ganha aplausos fantásticos, você é querido, todo mundo quer te pagar um almoço, é tratado como um rei; no outro dia você toca às vezes para ninguém e nem 10 centavos faz no seu chapéu. É muito delicada a situação. O artista só quer se apresentar e passar seu chapéu, viver da sua arte, e aqui em São Bernardo nós não temos espaço para isso. (…)

Conheci Fernando por meio do site Artistas na Rua, dedicado ao mapeamento dos artistas de rua da cidade de São Paulo. O site foi criado em 2012 por Celso Reeks, em parceria com a SPTuris (São Paulo Turismo).

Fernando Machado. Foto: Daniel Fávero

Após conversarmos brevemente, recebi o convite de Fernando para uma reunião de artistas de rua que ocorreria em São Bernardo na mesma semana do meu contato, em setembro de 2016. A reunião era a primeira organizada pela Comissão de Cultura e Arte de São Bernardo do Campo, criada pelos próprios artistas de rua (…).

No dia da reunião, após uma viagem de duas horas, desço do trólebus na mesma rua onde aconteceria a assembleia e começo a procurar o local. Era noite de uma sexta-feira muito fria (…). Fernando iniciou a reunião e se apresentou, contando sua trajetória e a luta de todo artista de rua para ser reconhecido profissionalmente. O cantor conduziu toda a reunião, dando voz também a outros artistas que quiseram se manifestar. Aos poucos, foram relatadas as dificuldades: não recebem nenhum incentivo ou apoio da prefeitura, tampouco do governo; quando tentam conversar com o secretário de Cultura, mal são ouvidos e não têm sequer a chance de tocar em festivais locais como o aniversário da cidade, uma vez que a prefeitura
contrata músicos de fora (…).

Depois de mais alguns discursos, a reunião acabou, mas meu trabalho de reportagem estava só começando. Nas minhas andanças pela Região Metropolitana, também estive em Suzano, onde encontrei problemas semelhantes quanto à desvalorização e falta de reconhecimento dos artistas, tanto por parte da prefeitura quanto dos moradores.

— O que a gente quer é um espaço para fazer nosso trabalho. A prefeitura tem como ceder esse espaço, mas falta boa vontade. Nós só queremos isso.

O autor da declaração é o malabarista Luiz Ficco, 21 anos, que me encontrou na Praça João Pessoa, a poucos metros da estação de trem de Suzano com sua bicicleta (…). Ficco costuma se apresentar no farol sobre um monociclo criado por ele. O artista é malabarista, palhaço e artesão há cerca de três anos. Nasceu e mora em Suzano, onde trabalha nos faróis com seus amigos do grupo Somos 13.

Luiz Ficco. Foto: Antônio Carlos

Andamos até chegar à prefeitura da cidade (…). Numa praça que serve de estacionamento e local de encontro dos moradores, sentamos no famoso escadão para que Ficco pudesse arrumar seus instrumentos de trabalho. Enquanto conversávamos, Vitor Alves, outro integrante do Somos 13, chegou para encontrá-lo, pronto para mais uma tarde nos faróis (…). Os dois jovens disseram não receber nenhum incentivo ou apoio por parte da prefeitura, que se nega a atendê-los, alegando falta de verba, alguém responsável ou espaço.

— Eles recusaram todos os projetos que enviei, sem ler. Eu colocava o projeto e o cara falava que não tinha verba para isso, e eu dizia: “mas você nem leu, eu não estou pedindo verba, eu preciso de um espaço, qualquer espaço”. Aí diziam que a prefeitura de Suzano não tem espaço. Toda vez é assim. Sempre vão arrumar alguma desculpa. Se a gente falar que quer conversar com o prefeito, a primeira coisa que vão dizer é que a gente não pode subir lá.

A ideia dos malabaristas é ter qualquer espaço onde possam executar suas atividades artísticas, dar aulas, reunir mais artistas, enfim, promover arte e cultura, principalmente para crianças e jovens (…). Um dos eventos que são realizados em Suzano é o Bagunçarte: os malabaristas se reúnem na Praça dos Expedicionários, com outros artistas de rua, e fazem um espetáculo circense a céu aberto. Todas as sextas-feiras, uma grande faixa com o nome do evento é pendurada na praça onde o espetáculo começa sempre às 19 horas. Ficco é o idealizador e organizador do evento. Os artistas arrecadam verba através do chapéu ou por meio de rifas onde são sorteados quadros de pintores amigos e latas recicladas com grafites para decoração, por exemplo. Tudo é improvisado (…).

— Às vezes, eu levo a Bagunçarte para outras cidades também, como Jundiaí e Praia Grande, com a mesma proposta de um cabaré circense, um espetáculo feito a chapéu. O tempo todo eu deixo bem claro para a galera que a contribuição é o que me mantém e mantém o projeto vivo. A gente é uma resistência, porque a gente é o que não tem. Suzano não tem nenhum ponto cultural, e nós somos o ponto cultural. Onde a gente está, acontece. Se nós pararmos, tudo isso acaba (…).

Bagunçarte em Suzano. Foto: Antônio Carlos

Após Vitor, Ficco e eu conversarmos um pouco na pracinha onde ficava localizada a prefeitura enquanto eles arrumavam suas claves, nós nos dirigimos para o farol de uma rua ao lado. Ali é o lugar onde os malabaristas costumam trabalhar e onde encontramos os outros integrantes do Somos 13, Lucas Lopes e David Goes, que começaram a treinar, jogando as claves e bolinhas para o alto. A imagem despertava curiosidade nas pessoas que passavam dentro dos carros e ônibus e de crianças que, do banco de trás, espiavam os malabaristas. Elas são as que mais se encantam, segundo Ficco.

— Uma vez estávamos fazendo farol e quando fomos passar o chapéu, uma mulher contribuiu com nossa arte e disse: “obrigada por fazer meu filho sorrir”. Aquilo me marcou. Tem criança que admira muito o artista, elas passam dando tchau, sorrindo, e isso é recompensador demais. Às vezes, a gente escuta uns comentários desagradáveis do tipo: “ah, vai trabalhar”, e ao mesmo tempo a gente escuta uns comentários como “nossa,obrigado”, “que show legal”, “sucesso”, “parabéns” etc. Então, uma palavra de vez em quando vale muito mais a pena do que um real, porque a pessoa dá um real achando que você é pedinte, com má vontade, e o outro não te dá um real, mas olha no seu olho e fala: “Deus te abençoe”.

Enquanto os outros treinam, Ficco se prepara para se apresentar. Assim que o sinal fica vermelho para os carros, ele corre para o semáforo e várias claves são jogadas com maestria para o alto. As tochas são acesas, e algumas vezes ele enche a boca com querosene ou óleo diesel para cuspir no fogo, formando uma grande labareda. O querosene acaba machucando a gengiva e, em algumas ocasiões, ele cospe um pouco de sangue logo depois da apresentação. Os movimentos são precisos e ele tem que ser rápido para que dê tempo de passar o chapéu entre os automóveis. Volta para a calçada já com algumas moedas (…).

(…) Os malabaristas também enfrentam a truculência de guardas e policiais, muitas vezes causada por má informação e desconhecimento de leis que asseguram o direito da liberdade de expressão artística, como a Constituição Federal. Ficco conta que quando o grupo está em algum lugar treinando, a polícia ou os guardas chegam e pedem para que se retirem.

— Rola muita opressão, o policial vai vir aqui e não vai perguntar se você sabe da lei, porque ele acha que ele é a lei, então ele vai chegar com uma arma na mão e dizer: “vão embora” (…). Há uns dias nós montamos um Slackline (fita de equilíbrio) entre as árvores, porque eu tenho um número em que eu a uso, e estava treinando. De repente, chegou a GCM [Guarda Civil Metropolitana] falando para eu desmontar. Ai eu perguntei quem tinha dado essa ordem, e ele não soube responder (…)

Vitor arremata:

— Se a gente se une para fazer malabares aqui na praça eles não deixam, falam que a gente tem que procurar outro lugar, mas qual lugar se todos esses são públicos? Eles não deixam a
gente ficar em lugar nenhum, é uma perseguição…

São Bernardo e Suzano enfrentam o mesmo problema que São Paulo enfrentava há alguns anos. Os artistas não têm apoio nenhum, tampouco incentivo, são ignorados e não são reconhecidos por seu trabalho. Em meio às reclamações, a principal, pelo que notei, é o direito de exercer a arte nas ruas, de forma organizada e regularizada…

Próximo texto: Priscila, a artesã: pé na estrada desde os 15 anos de idade.

Até chegar aos artistas que se apresentam nas regiões centrais de São Paulo, retratados nos dois capítulos finais do livro-reportagem, ainda andarei bastante. Os próximos caminhos serão percorridos na capital paulista em locais onde artistas ralam durante a semana sem o glamour das apresentações domingueiras na Paulista. No próximo capítulo narrarei a história de uma artesã que mora, por enquanto, na capital paulista, mas vive em um bairro distante do centro, no Jabaquara.

Paulistana, 25 anos, jornalista, apaixonada por livros, teologia e medievalismo, pisciana louca dos cristais e neopagã. Funcionária pública durante o dia e escritora nas horas vagas em seu blog pessoal Condado Encantado, onde aborda temas como paganismo, mitologia, simbologia, esoterismo, oráculos, teorias conspiratórias, entre outros. Em 2016 escreveu seu primeiro livro, resultado de um Trabalho de Conclusão de Curso, sobre artistas de rua. Gostou tanto da experiência que já está pensando nos próximos.

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