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“— O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.

— Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo.”

Quem dialoga sobre o infinito desse jeito é o escritor de ficção científica Isaac Asimov. No conto A Última Questão, ele narra o futuro do universo, que acaba com o homem dominando tudo e fundindo todas as consciências em uma só. É aquela história do “ponto ômega” do francês Pierre Teilhard de Chardin, que diz que quando todas as consciências se fundirem a evolução humana vai alcançar o ponto máximo.

É, sim, uma viagem. Na verdade, uma bad trip, se pensarmos que nossa consciência se fundiria à da Raquel Sherazade. Mas o problema real é que muita gente sequer tem noção da sua própria consciência, que dirá sair por aí fundindo ela…

Consciência não é aquilo que pesa na cabeça quando se deita na cama. Isso é safadeza. E não é lendo este texto que você vai encontrar uma definição wikipédica, mas assistir ao filme Enter the Void, de 2009, pode ajudar.

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Isso porque o ponto de vista principal do longa é a consciência de um traficante que mora em Tóquio. E, como toda consciência, ela é selvagem, delirante, não para em lugar nenhum e pode sobrevoar qualquer ambiente. É como uma mente em estado de sonho. Só que, no caso, o traficante está morto. Foi abatido a tiros no banheiro de um bar pela polícia.

A história é toda fragmentada. Só é possível juntá-la no final, com todos os pedaços de presente e passado que são dados. Parece confuso, mas em poucos minutos já é possível perceber que se trata da vida de um rapaz que foi para Tóquio com a irmã. Ele começa a traficar drogas e ela vira uma stripper. É, a vida não tá fácil no Japão. Quando eram crianças, os dois fizeram um pacto de permanecerem unidos e, por isso, ele se recusa a abandonar a irmã mesmo quando morre. Certamente, se a irmã soubesse que o pacto dava direito ao irmão assisti-la fazendo sexo, na forma de um espectro invisível, ela não teria concordado.

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Mas não foi só isso que fez o filme ser escolhido pelo Tarantino como um dos melhores. Além do ponto de vista, o que chama atenção para o filme é a beleza decadente, colorida e que pode provocar um aumento de 3 graus no astigmatismo. Logo na abertura, o espectador corre o risco de sofrer um ataque epiléptico com as cores fortes dos créditos que piscam sem parar. Fãs de Pokémon já sofreram por menos. E o filme segue assim, com luzes estroboscópicas, fluorescentes e psicodélicas.

É como se o diretor argentino Gaspar Noé tivesse colocado a câmera dentro do cérebro de alguém que usou LSD. “Noé quis fazer com o seu público o mesmo que os desprogramadores fizeram com Alex, em Laranja Mecânica: levar para casa o moralismo, nos fazendo vomitar”, diz uma crítica do site Vulture. E é bem por aí…

Assim, a obra nos coloca em contato com a nossa própria consciência. Ou, pelo menos, nos faz pensar nela. Que talvez essa caixa de carne e osso que nós habitamos seja só um lugar onde ela passe as férias. Que ao sabermos como controlá-la podemos nos guiar para realidades mais amplas do que essa bolha que chamamos de vida. Que não somos o Eike Batista e não precisamos estar presos a nenhum bem material.

São teorias do Livro Tibetano dos Mortos, que, não por acaso, é o livro que o traficante está lendo antes de morrer. Logo no começo, um dos personagens explica que o livro é como um guia para a mente depois da morte. É uma ideia budista essa de que, se soubermos como, podemos fazer a mente passar ilesa por todos os estágios da morte até renascermos de novo.

Aliás, o budismo considera que, diferente de quando a mente se separa temporariamente do corpo, ou seja, quando estamos meditando, dormindo ou escutando Venus in Furs, a morte é o momento em que mente e corpo se separam de vez. O mestre budista Geshe Kelsang Gyatso escreveu no livro Novo Coração de Sabedoria: “Na morte, a nossa mente separa-se permanetemente do nosso corpo. O nosso corpo permanece no local de sua vida, mas a nossa mente vai para os diversos lugares das nossas vidas futuras, como um pássaro deixando um ninho e voando para o outro”.

Segundo a lógica budista, é com a mente, portanto, que deveríamos nos preocupar, não com o corpo. Gracyane Barbosa, estamos de olho.

Tudo isso pode fazer parecer que o diretor, responsável também pelo roteiro, seja budista. Mas não. “Eu não acredito em vida após a morte. Mas eu curto a ideia de fazer um filme que represente esse sonho coletivo, essa necessidade coletiva”, explicou Noé, na revista Interview. “Budistas não são tão hardcore quanto os católicos ou outros religiosos, mas, ainda assim, acho que eles fazem parte de uma grande mentira que é assustadora.”

É como aquela cena do seriado Overdose, da finada MTV, em que o cara fala que se toda religião fizesse as pessoas ficarem meditando caladas, sem encher o saco de ninguém, o mundo seria bem melhor. “Religião esquisita rocks!”, ele diz. E, de fato, compaixão, generosidade e controle da própria mente não podem fazer mal a ninguém. O professor Xavier que o diga.

E, segundo os budistas, ter um controle da mente (o que se consegue através da meditação) não é só importante para fazer sua consciência chegar bem no camarote vip da eternidade, mas também para controlar suas ações no dia a dia, sabendo identificar maus sentimentos e se livrando deles. É um ajuste de foco na lente da realidade.

Se tivesse a mente domada e focada, Bentinho jamais faria #aloca com a Capitu, Otelo estaria vivo até hoje e Sauron teria coisa mais importante para se preocupar do que um anel. Isso porque nossa mente fabrica realidades. Ou nas palavras de Geshe Kelsang Gyatso, “a natureza da nossa mente é um vazio semelhante ao espaço, e ela atua percebendo ou entendendo objetos”. É por isso que, como os personagens de Asimov, podemos dar uma dimensão para o nosso universo, uma vez que, talvez, ele possa ser tão infinito quanto a nossa mente permita que ele seja.

*Um spoiler para fazer a cabeça de quem já assistiu ao filme entrar em colapso. Em entrevista à revista Interview, o diretor Gaspar Noé revelou: “Se você viu o filme só uma vez, talvez você não tenha lembrado da cara da mulher que dá a luz no final. Não é a irmã do Oscar, é a mãe dele. E também, o filme inteiro é sobre alguém que leu o Livro Tibetano dos Mortos, e ouviu falar dele antes de morrer. Não é a história de alguém que morre, voa e é reencarnado, é a história de alguém que ficou paralisado depois de levar um tiro e teve uma visão do próprio sonho… No fim, você não sabe se ele morreu ou se vai acordar no hospital.”

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