Ela é uma jovem que busca realizar seus sonhos dentro das possibilidades que um governo autoritário estimula em sua sociedade, impondo toques de recolher e tramitando censuras em todos os meios de comunicação. Ele é professor de uma escola cujos princípios de uma de suas classes, com jovens que não tiveram contato nenhum com o holocausto, mas que acreditam que jamais haverá princípios políticos e sociais iguais aos que reinaram a Alemanha entre os anos 1930 e 40. Eis a premissa do fascismo em dois excelentes filmes.

Cena do Filme V de Vingança

Cena do Filme V de Vingança

 

V de Vingança, escrito e dirigido pelas irmãs Wachowski, baseado nas histórias em quadrinhos de Alan Moore, cujo original criticava o fascismo da Era Tatcher, foi levado aos cinemas em 2006 com o propósito não só de atualizar o discurso de Moore, como também de aproveitar a era pós-Bush como um dos períodos mais impactantes em que o autoritarismo e militarismo estiveram em pauta nos Estados Unidos, surtindo efeitos em todo o mundo.

Na obra, Evey (Natalie Portman, de “Cisne Negro”) é uma jovem cuja vida é destruída após ser encontrada pelos inspetores do governo da Bretanha, estado fictício que substituiu o Reino Unido em um futuro utópico e que tornou o fascismo sua forma de poder. Porém, prestes a ser violentada em um beco qualquer de Londres, ela é salva por uma figura imponente, encapuzada e mascarada, com discurso forte a respeito da anarquia que protegia as minorias em épocas passadas, cujas ideologias são defendidas por tal figura e que não poupa esforços em deixar sua marca para o governo daquele país.

Mas a protagonista se vê cercada por suas imagens em todas as notícias londrinas, o que indica ao governo a suspeita de cumplicidade junto da figura mascarada. Desta forma, Evey é sequestrada e obrigada a conviver com o mártir em questão.

A partir deste ponto, somos levados às raízes do fascismo que, nesta obra, são exploradas através da ficção, mas impondo exemplos bastante próximos à realidade de qualquer sociedade, culminando na ditadura que exterminou as raízes da sociedade bretã.

V de Vingança

V de Vingança

Por outro lado, A Onda, dirigido com maestria por Dennis Gansel, finca os pés na sociedade atual alemã, na qual jovens que não tiveram contato algum com o holocausto acreditam que não há possibilidade de um país tão democrático como a Alemanha do século XXI cair em outra onda de terror político. É então que o prof. Rainer inicia um teste em sua sala de aula após debate com seus alunos, sutilmente impondo ideologias ligadas ao fascismo até que a própria sucumbe ao teste falhando miseravelmente.

A Onda é um daqueles filmes cujo propósito é o de levantar debates por onde passa, pois se a história apresenta um teste em que a ideologia se torna maior do que sua função social, o que dirá o reflexo em uma sociedade em que o presidente do país economicamente mais poderoso do mundo apresentou a mesma faceta de outrora e, ainda assim, foi colocado no poder. Pois o fascismo não se esconde atrás apenas de golpes escondidos sob as asas da mídia, mas sobretudo em ações implícitas ao comportamento de uma sociedade doente com crises econômicas e governantes leais ao povo.

Enquanto o nascimento do fascismo está prestes a completar 100 anos no próximo mês de março, é fundamental enxergar que o cinema o visitou algumas vezes, ora aproveitando-o como estímulo a uma população carente de ideais, ora evidenciando suas raízes de exclusão. Como a poderosa forma de comunicação que é, o cinema atinge a diferentes públicos e traduz, em muitos casos, seus anseios e vontades de forma deturpada, criando oportunidades perigosas de ação e reação, de conclusões populares acerca de uma figura carismática.

O Brasil, por sua vez, tem uma forte cultura fascista enraizada em história, que em boa parte repudia tudo o que o recente passado do país representa, mas que, ainda assim, possui parcela ínfima e poderosa apoiando ações relacionadas ao ideal fascista. Dentro deste conceito, é crível que as ações ocorridas em A Onda representem parte do que está em discussão dentro do atual cenário político brasileiro, pois muitos defendem conscientemente os ideais maquiavélicos representando o retorno do estado político de ditadura, enquanto outros o defendem sem sequer compreendê-lo – mesmo indo contra a maré de opiniões misóginas ou homofóbicas que bombardeiam a mídia o tempo inteiro. Não acreditam em tal “retorno do mal”.

Eis o poder de um filme que joga no espectador a discussão, levantando questões enquanto acompanhamos jovens gradativamente sem rumo, se perdendo em meio ao que acreditavam ser um regime anti-fascista; por sua vez, V de Vingança é mais direto ao que tal ideal político representa para o fim da sociedade democrática, criando exemplos bastante lúdicos sobre extermínio e militarismo. Ambos filmes poderosos, não somente pela excepcional qualidade técnica, mas sobretudo pela oportunidade criada por suas mensagens, criando discussões ao longo dos anos, extremamente necessárias em tempos tão difíceis para os sonhadores.

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