fbpx

Crianças adoram filmes, adultos também. Crianças adoram filmes para crianças, adultos adoram filmes para adultos, mas adultos também gostam de filmes sobre crianças e que não têm nada de infantil. O cinema já produziu filmes sobre crianças como Lolita (Kubrick), Pixote ‘A lei do mais fraco’(Babenco), O labirinto do Fauno (del Toro), Vá e Veja (Klimov), Fanny e Alexander (Bergman), Os incompreendidos (Truffaut), e tantos outros que valeriam outra lista. Esta aqui, fiz para trazer alguns filmes menos conhecidos, que trazem a infância sob diversas óticas, percepções, sentimentos, incorporando tradições familiares, momentos históricos, ou mera ocasião, onde são desvendados os mais profundos desejos e descobertas.  Todos os filmes aqui podem ser encontrados em locadoras, e os mais difíceis, pela internet. E valem a pena.

 

 

Cría Cuervos  (1976)

Cria Cuervos é um filme espanhol do diretor Carlos Saura e conta a história de Ana que presencia sem saber a morte do pai militar enquanto está na cama com uma amante e de sua mãe, uma mulher que deixa a carreira artística para se desgastar até à morte pelo casamento. Vivendo sob a tutela de uma tia durona e com uma avó inválida, Ana e suas duas irmãs tentam viver após esses acontecimentos. Um filme de lembranças e de complexidade, principalmente ao penetrarmos na mente de Ana, que carrega melancolia nos gestos e olhares, mas que tenta entender sua infância com a “presença espectral” dos pais, que ela revive. Um filme bastante feminino e extremamente sensível, quase um contraponto ao regime militar (masculino) na Espanha à época.

 

 

O espírito da colmeia (1973)

Filme espanhol dirigido por Victor Erice e que trás a pequena atriz Ana Torrent, a mesma de Cría Cuervos onde também interpreta uma Ana, que vive no interior da Espanha com sua família após o fim da Guerra Civil Espanhola. O pai já velho só tem preocupação com as suas colméias de abelhas, a mãe, bem mais jovem, passa seus dias pensando num amante distante. A menina, num dia, assiste ao filme Frankestein (1931) num cinema itinerante em sua cidade e tenta entender a razão pela qual o monstro mata a menina e depois as pessoas matam o monstro, já que ele não fez de propósito. A irmã diz que nada daquilo é verdade, e que o monstro é um tipo de espírito. Ana passa a conviver com a realidade da família, da escola e dos resquícios da guerra, temendo pela morte que se parece com um espírito ou o Frankestein. O filme tem sua carga de crítica ao período da ditadura do general Franco.

 

 

Ninguém pode saber (2004)

Hirokazu Koreeda dirige este filme baseado numa história real. Histórias esta absolutamente incrível quando quatro crianças são abandonadas por sua mãe num apartamento. Ela começa a namorar um cara, casam-se e aos poucos ela vai deixando as crianças por períodos maiores de abandono, até o dia que ela não aparece mais, deixando-os sem dinheiro. Todos as crianças são meio-irmãos e sem a presença da mãe, que já os havia levado para o apartamento escondidos, terão que se virar e sobreviver. Akira, o irmão mais velho assume a responsabilidade de cuidar dos irmãos, mas não é nada fácil, o sofrimento constante e a degradação das personagens mostra o quanto é importante a presença de um adulto na vida de uma criança e como sem ela, tudo pode se tornar um caos.

 

 

Alice nas cidades (1974)

Philip Winter é um escritor alemão que está viajando de carro por cidades americanas para escrever um artigo sobre o país, tira fotos dos lugares, mas ele perde o prazo final estipulado pelo seu editor e decide voltar para a Alemanha. Antes de partir, conhece uma alemã que está com sua filha Alice para voltar para seu país. Eles decidem ficar num hotel, mas no outro dia, a mãe da menina pede que Philip cuide da menina para que ela possa resolver uns problemas. A questão é que logo ele percebe que a mãe da menina não vai voltar e se vê obrigado a levar Alice consigo para a Alemanha e entregá-la a uma avó. Só que a única pista que tem é uma foto com a casa da senhora, que Alice não sabe o endereço, nem a cidade. Wim Wenders faz um filme muito bonito, em preto-e-branco, onde explora o contraste das paisagens e cidades americanas e alemãs, claro, numa crítica ao modo de vida de cada país.

 

 

Warrendale (1967)

Dirigido por Allan King, Warrendale é um documentário perturbador e encantador. Produzido para a rede CBS e nunca exibido, ele mostra, durante sete semanas, uma casa onde doze crianças e adolescentes são submetidos a tratamentos psicológicos para tratarem de sua agressividade (na maioria dos casos, não sabem lidar com suas emoções). O método experimental de tratamento tem o apoio de jovens psicólogos que lidam com as crianças de uma maneira muito efetiva, têm reeducá-los, fazê-los entender seus sentimentos sem partir para agressividade que no fundo acaba minando as crianças por se sentirem culpadas por se verem excluídas do convívio social, e lá tem que respeitar um ao outro, descobrem o amor, a amizade, o companheirismo, e até o luto, quando uma empregada da casa falece, provocando uma comoção geral. Socos, pontapés, gritaria, paredes quebradas, mentiras, choros, e muita, mas muita paciência dos psicólogos fazem deste filme uma pequena obra-prima dos sentimentos humanos levados ao extremo e nos leva a perguntar se nós mesmos, aqui fora, somos tão sãos assim.

 

 

Paisagem na neblina (1988)

Um garotinho e sua irmã mais velha decidem sair da Grécia para encontrar um suposto pai na Alemanha. Todos os dias vão à estação de trem para tomar coragem de entrar num dos vagões. Um dia o fazem, mas logo são colocados para fora por serem clandestinos. De trem em trem vão conhecendo pessoas pelas cidades onde passam e acalentam o sonho de encontrar o pai que nunca viram. O diretor grego Theo Angelopoulos cria um filme onde a poética mística é reinante com lindas imagens e personagens, mas a vida real exige das crianças que elas cresçam e assumam posturas mais fortes para não voltarem para trás em sua viagem pelas dificuldades que aparecem. Filmado num momento de crise na Grécia (de longa data pelo jeito), e na Europa, as crianças parecem representar um novo futuro naquele caos político e social do final dos 80.

 

 

Sempre aos domingos (1962)

Pierre é um ex-combatente que sofrera amnésia após matar uma jovem acidentalmente durante um pouso com seu avião avariado. Ele tem uma namorada que também faz o trabalho de enfermeira por Pierre ainda sofrer com os fatos do passado. Um dia ele encontra Cybèle, que é uma menina deixada por seu pai num orfanato. O rapaz se interessa e consegue se passar por pai da menina, conseguindo assim com que a menina passe os domingos com ele. Os dois adquirem uma grande amizade; passeiam, conversam, parecem duas crianças da mesma idade. Mas as pessoas em volta começam a interpretar mal tudo aquilo, e o perigo se torna iminente quando a namorada de Pierre recorre a um médico, o que gerará tragédia na vida de Pierre e Cybèle. Este é um dos grandes filmes franceses de todos os tempos, dirigido por Serge Bourguignon, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1962.

 

 

Nascidos em bordéis (2004)

Mais um filme vencedor de um Oscar, agora como documentário, dirigido por Zara Briski e Ross Kauffman que mostra as crianças na região denominada Distrito da Luz Vermelha, em Calcutá, na Índia. Briski vai a este lugar para fotografar as prostitutas, mas acaba fazendo amizade com as crianças, filhos dessas mulheres, dando-lhe câmeras fotográficas e as instruindo para fazer as fotos. As crianças começam a mostrar sua visão do lugar pobre em que vivem, de suas famílias e amigos. Montam exposições e uma delas chega a ir para a Holanda expor suas fotos. O filme é ambíguo em relação aos sentimentos despertados em relação a ele; para nós do ocidente fica a descoberta mais profunda da cultura de um lugar tão específico quanto este distrito, que se distingue da população pobre do resto da Índia. Mas diversas entidades indianas, incluindo as das prostitutas do distrito, dizem que o filme só aumentou ainda mais o preconceito e estimulou uma visão distorcida do Ocidente em relação à Índia, onde há uma complexidade muito maior em sua cultura do que aquela transmitida no documentário. O certo é que muitas crianças que participaram do filme não melhoraram de vida, seja por suas famílias não permitirem (muitas das meninas nem estudar podiam, pois deviam ser treinadas para a prostituição, como uma herança de família), ou seja pela razão de que é muito difícil achar que um filme possa mudar a vida de um grupo de pessoas nessas condições. Não dá pra julgar qual o lado tem razão, a questão verdadeira é que lugar existe, e é triste ver o nível de vida que muitas pessoas levam ao redor do mundo, por todas as razões sociais, econômicas e políticas já conhecidas.

 

 

A infância de Ivan (1962)

Neste poderoso primeiro longa de Andrei Tarkovski, temos a história de Ivan, um órfão que, em plena Segunda Guerra, vai para o campo de batalha, atravessando um rio cercado por nazistas para se encontrar com combatentes russos e trabalhar ao lado deles. Participa de missões que são vistas como impossíveis de ser cumpridas, mas o valente garoto consegue ser peça-chave em levar comunicação ao campo de batalha. Carregado de lembranças da família e dos amigos, Ivan vai rememorando os bons tempos e outras situações dramáticas que os envolveram. Tarkovski, neste filme, já trabalha com algumas características que lhe tornariam respeitado, como a fotografia lindíssima. Uma história tensa, cruel, mas com belos momentos em meio à implacável guerra e o sofrimento do povo russo, onde Ivan representa algo além de um herói.

 

 

Tempo de embebedar cavalos (2000)

Já vou logo avisando, este é um filme triste. E um dos mais belos que o Oriente Médio já produziu. A história se passa no Irã onde Ayoub e Ameneh tem um irmão mais novo, Madi, que tem deficiência física e que precisa de cuidados constantes. Após a morte do pai, Ayoub decide trabalhar com contrabandistas, formada por aldeõs curdos, que carregam pneus para a fronteira com o Iraque. A coisa não vai bem para Madi, e o médico diz que ele precisa de uma cirurgia para não morrer, então as coisas se complicam para uma família que praticamente não tem dinheiro algum, muito menos para uma cirurgia a ser feita no Iraque. Bahman Ghobadi é o diretor deste precioso filme que mostra como as pessoas vivem, ou melhor, sobrevivem, naquela região fronteiriça entre Irã e Iraque. Os sentimentos e as necessidades são sempre iguais em qualquer lugar do mundo, mas certas questões étnicas e suas características particulares que as pessoas impõem umas as outras não nos cabe julgar, mas aprender e reconhecê-las dentro de um processo que está totalmente incorporado há séculos nessas comunidades.

Quer receber nosso conteúdo?
Receba a nossa newsletter

Receba todas as atualizações da SOUL ART!