Os mortos estão de volta. The Walking Dead estreou há uns dias sua 2a. temporada nos EUA (o que não significa nada para quem usa Torrent), e já tem garantida uma terceira. Veio, literalmente, enterrar a saudade de Lost, do qual todos ficamos um tanto órfãos. Série baseada em quadrinhos, sobre um mundo dominado por mortos-vivos gerados por um vírus letal. Mundo pós-apocalíptico, fazendo coro a vários filmes que seguem destruindo o mundo e convertendo essa gente humana em predadores sanguinários, seja para amedrontar ou fazer rir. Poderia listar uma sequencia de filmes com a mesma lógica, mas alguém iria me dizer que no filme do Will Smith aquilo não eram zumbis. Acho mera diferença técnica.

O fato é que os zumbis lá do passado, criados por George Romero no já clássico “A noite dos mortos-vivos” (Night Of The Living Dead, 1966), ressuscitaram, estão por aí, vivíssimos, nos lares americanos e mundiais, devorando cérebros, ameaçando a civilização (não tão civilizada assim), e ainda mais, a vida inteligente (não tão inteligente assim), na Terra. Ok, nada de novo. E não me interessa falar da trama, o que me interessa é saber o porquê do sucesso dessa horda bizarra que os dias de hoje vieram somar a outra praga: a dos vampiros andrógenos, assexuados e ambíguos. E adolescentes.

Zumbis se prestaram para um número enorme de metáforas: do pavor ao comunismo, passando pelos movimentos negros (as violentas manifestações nos guetos do Bronx), crítica à febre de consumo à chegada do vírus da Aids. E é isto me interessa, a que sensibilidade fala – ao inconsciente coletivo do mundo – a febre de zumbis e vampiros.

Gosto de pensar. Toda matéria artística (sim, é entretenimento, é televisão, é consumo, mas é arte também) que reverbera, constrói-se sobre certa sensibilidade que é reflexo imediato de seu tempo, da sociedade, etc. Vamos ao que interessa.

VAMPIROS

Não precisa ser muito inteligente para entender que o fenômeno vampiresco, em diversos filmes, seriados etc, deve-se ao papel central que tem o JOVEM/ADOLESCENTE (mesmo aos 40 anos) nos dias atuais. O universo jovem determina quais músicas passarão no rádio, qual filme dará bilheteria no cinema, qual arte (interativa: jovens odeiam passividade) será dada à exposição. Por isso quadrinhos, games, heróis, bruxinhos, material adolescente infantil ocupam todas as esferas da comunicação, de televisão à televisão, dominando bilheterias, determinando audiência, merchandising e produtos.

Por isso já não “se denominam obras de” filmes clássicos, e sim “filmes ANTIGOS”. Filmes Cults são os da semana passada, flertam com o picote, com a edição em ritmo de videoclipe, com tudo que for mixado, repartido, replicado, colado e embalado com NOVO. Não é uma crítica à ascensão do gosto do público jovem, é apenas constatação do fato de que a sensibilidade contemporânea está à serviço deste segmento. É ele que dita moda, posto que é quem mais consome e que melhor está instrumentalizado para se jogar às mudanças galopantes do presente, de tecnologias mil que proliferam, para as quais o velho é inábil. Falamos de um mundo carnal, hedonista, espaço de consumo e pouca reflexão. O culto ao JOVEM leva-nos hoje, obviamente, ao pavor de envelhecer, da decrepitude, de tornar-se obsoleto. Daí o desespero dos VELHOS, das academias lotadas, dos consultórios de plástica, dos silicones, hormônios do crescimento, aparelhos/implantes/clareamento dos dentes, produtos de beleza, coloração, maquiagem; pílulas azuis contra as brochadas; antidepressivos para anestesiar a consciência da passagem, as drogas/pílulas/álcools para intensificar a curtição sincopada nas raves hypes e baladas. Um mundo de música intermitente. Engodos, já que envelhecer dói. Envelhecer mata. E pior: num mundo onde a JUVENTUDE é o paradigma, o JOVEM é o objeto máximo do desejo, o que se reflete, claramente, no aumento da pedofilia no mundo.

Neste contexto de horror e morte, todos aspiram a ser Vampiros, pois esses já estão para além da morte, a venceram. Ocupam um outro patamar, sem dependência de Deus/deuses, sem moral a seguir e sem culpa. Além disso, vampiros apresentam uma sexualidade latente, por vezes incontrolável. Nosso inconsciente cruel, precisa contudo botar freio mesmo em nossos desejos de eternidade e autonomia. Tal energia, por isso mesmo, deve ser contida, enterrada, represada, castrada com decapitação ou com estacas fálicas, direto no coração, onde pulsa energia, desejo, amor. Vampiros são eternos, mas imaturos, insatisfeitos e insaciáveis; acumulam e ressaltam sempre as “deficiências emocionais” humanas. A primeira coisa a abdicar é a alma, o espírito, a consciência moral – a transcendência, que para além do carnal, converteria individualismo em totalidade (Deus). Por isso também, vampiros são falhos, devem ser perecíveis, sujeitos a uma lei implacável que impõe ordem, que cobra com violência e sangue a ambição de ser algo próximo dos deuses. Já lobisomens não são tão diferentes, talvez mais animalizados e eróticos. Poderíamos ir mais fundo, mas isso aqui é internet, passemos ao próximo.

ZUMBIS OU ZUMBIES

Zumbis respondem ao mesmo princípio simbólico, refletem o horror à decrepitude, à falência do corpo, à paranoia em relação às doenças. Ou seja, ambos mostram que o HORROR está na perspectiva da MORTE, na consciência de que somos perecíveis, e que caminhamos para um fim. Isto por que vivemos numa época em que velhos, doentes e mortos precisam ser confinados, causam repulsa e aversão, pois nos lembram o destino fatal do que é humano e vive. Hoje, a boa morte é asséptica, faz-se em asilos, clínicas, hospitais; e são sempre tidas como fatalidades, não um destino natural. Por isso os mortos não são mais velados, chorados por uma família inteira reunida, na presença da criança. O cadáver sai do leito hospitalar direto para o necrotério, depois de um velório cronometrado pelo “Plano Funerário”, hoje mais imprescindível do que Seguro de Saúde e de Furto. Já não se faz velar, nem missa, nem se se cobre de preto a gente familiar em choro convulso. Já não pega bem. Tudo é visto como um fato vergonhoso, constrangedor; manifestações sentimentais são vistas com tolerância ou cinismo. Posteriormente, a dor é calada à antidepressivos, e a memória do morto enterrada ou cremada com ele.

Zumbis são o corpo sem transcendência, sem alma. É a morte que precisa ser abatida justamente na cabeça, suprimindo o pensar/pesar. Há claramente algo de negação nos atos violentos contra os mortos, sempre uma ameaça, famintos também de nossas cabeças. Como num video-game, matar torna-se divertido, e num filme de zumbi justifica-se pois o ato de violência é um ato de sobrevivência. É um novo Darwinismo, um nova forma de perversão.

Mas The Walking Dead avança também para questão sócio-política e econômica. É metáfora da crise financeira mundial que converte desempregados em ameaça, e os sobreviventes em desgarrados sem casa, famintos atrás de bens de consumo. A série é mais sobre que “valores preservar em meio ao caos” do que exatamente sobre zumbis. Eles estão lá para serem abatidos, para serem mortos, para atravancarem o caminho, interromper as indagações dos sobreviventes. O que pesa mesmo é a questão da “crença na ciência” (para um cura), na ausência de Deus (que permitiu o apocalipse), nos valores que podem restar quando a barbárie se instaura: amizade, laços familiares, honra, integridade, solidariedade, heroísmo, etc. Nesta terra devastada, terra de ninguém, o que faz do humano, humano. Acho engraçado surge a questão de que cedo ou tarde os zumbis estarão inevitavelmente mortos, e caberá aos sobreviventes iniciar uma nova civilização. Estranho que estão todos preocupados em pensar numa cura (a ciência já se mostrou incapaz) e mesmo o Sistema (político/militar) mais que agônico, está morto, mais morto que os zumbis. Prova da descrença também nas altas instituições. The Walking Dead é sobre valores, é um “conto” moral, um discurso “moral” sobre a perspectiva estadunidense.

No final, claro, sobre o drama sobressai o grotesco, a violência escamoteada e que os jogos eletrônicos nos anestesiaram a percepção, e já não o vemos. E rimos. Uma série que nos ajuda a esquecer que todos nós sim, somos um tanto zumbis diante da televisão.

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