Farei aqui um exercício de futurologia. Como não depende de sorte, e sim, de constatação, talvez, venha a acertar. No cinema sempre houve, em muitas ocasiões, o encontro entre as químicas de um diretor e de um ator que geraram vários filhos fílmicos. Exemplos não faltam: Akira Kurosawa e Toshiro Mifune; Martin Scorcese e Robert De Niro; Alfred Hitchcock e James Stewart; John Ford e John Wayne; Ingmar Bergman e Liv Ullman; e por aí vai. Muitas destas parcerias já ficaram para a história e outras já tiveram seu auge. Mas algo acontece na atualidade que pode significar mais uma rica experiência cinematográfica que estaremos lembrando no futuro: O diretor Steve McQueen e o ator Michael Fassbender.

Fassbender & McQueen

McQueen e Fassbender têm dois filmes em parceria: Hunger de 2008 e Shame de 2011. O primeiro dos filmes que vi foi Shame, que trata de um homem (Brandon Sullivan, publicitário) que tem compulsão por sexo e que sua vida gira em torno disto como uma necessidade fisiológica, e doentia, já que ele não é feliz, por não conseguir manter qualquer tipo de relacionamento amoroso e não de admitir que tem um problema.

Impressionei-me com a ousadia do filme e fiquei, ao final, com a impressão de que havia visto algo diferente, além do comum. Por diversas vezes, McQueen “explora” o corpo de Fassbender, é necessário entrar na intimidade da personagem, tentar entendê-la e lamentar sua ausência de uma vida normal. Natural é a forma como o diretor consegue transmitir um tema polêmico (e a polêmica sempre anda de mãos dadas com os moralistas) não como um fetiche, um voyeurismo que cause prazer, mas, pelo contrário, como um incômodo de ver a personagem desabando e tendo vergonha de sua conduta, comprovada pela intensiva pesquisa com pacientes com o mesmo problema, e que deram grande suporte para a criação da personagem interpretada por Fassbender. Em Shame, há muita coisa acontecendo fora do enquadramento, o não-dito, o que se tenta esconder, o desenquadramento nos leva a diversas interpretações dos fatos. Ao mesmo tempo, o sexo está em todo o lugar, é a tensão principal, o consumo a todo momento, a dois cliques, na esquina, no escritório, no banheiro, uma tortura como uma prisão num símbolo de liberdade como a cidade de Nova York.

A questão é que Shame tem recebido muitos prêmios pelo mundo, mas os velhos do Oscar, rejeitaram o filme, a direção de McQueen, a soberba atuação de Fassbender e até mesmo a brilhante participação de Carey Mulligan, em seu provavelmente melhor papel até agora interpretando a irmã de Brandon (Ela, num determinado momento do filme, canta New York, New York lindamente).

Mchael Fassbender & Carey Mulligan

O corpo também é tema em Hunger, que trata da greve de fome liderada por Bobby Sands, integrante do IRA (Exército Republicano Irlandês), exigindo mais direitos aos presos. McQueen faz um retrato cruel da prisão de Maze, lugar onde havia muitos dos militantes do IRA, que depois apoiaram a greve de fome iniciada por Sands.


O diretor, em seu primeiro filme, já explora a questão do incômodo do ambiente em que vivem os prisioneiros e a constante tensão ocasionada pelos confrontos com os policiais. A primeira parte do filme mostra o tratamento dado aos presos, as formas de sobrevivência, o contato com o mundo exterior e a rigidez de não perder sua ideologia em face a repressão constante do governo e do sistema. McQueen aproxima-nos dos encarcerados, num teste de paciência pelo longos dias de sofrimento pelos quais passaram.


Na segunda parte do filme, e aí devo fazer uma observação, quando a personagem Bobby Sands se encontra com um padre, e é travado um diálogo de 17 minutos sobre a decisão da greve. Todo o contexto daquele momento histórico é exposto com maestria pelo diretor, que optou por uma câmera fixa, distante, focando a mesa e os atores (que ensaiaram juntos por semanas só para a cena). A partir desse momento, o foco do filme é a greve de fome de Sands.

O corpo, neste filme, encontra-se preso, num estado de protesto, de superação do limite físico e mental para a preservação dos ideais. McQueen, agora, nos coloca junto a Fassbender para presenciarmos o seu corpo definhar, adoecer, pele e ossos. Como em Shame, não há vangloriação do corpo, ilumina-o sem glorificar, tudo é incômodo, a descida é ao inferno, e ficamos nos perguntando a que ponto alguém pode chegar por seus ideais.

Steve McQueen, atualmente com 43 anos, é um artista multimídia desde a década de 90. Não é à toa que em Hunger e Shame, apareçam aspectos de experimentações na forma de filmar vistos somente no cinema independente. Seu primeiro encontro com Michael Fassbender foi justamente nos testes para o papel de Bobby Sands. A primeira impressão do diretor foi a de que o ator não estava muito interessado, de certa maneira ficou com muita dúvida. Mas no segundo teste, Fassbender se transformou e foi inevitável a entrega do papel a ele.

Shame (2011)

O ator Michael Fassbender, de 35 anos, nascido na Alemanha, mas com sangue irlandês, é considerado um dos melhores atores de sua geração. Já atuou em vários filmes como Fish Tank (2009), Inglourious Basterds, (2009), A Dangerous Mind (2011), Jane Eyre (2011). Ele diz que a química com McQueen é surpreendente, existe uma compreensão mútua e a vontade de fazer coisas novas e que possam levar a quebrar barreiras e tabus. A combinação é tão boa que sobrou para Fassbender, que hoje namora a atriz Nicole Beharie, ótima atriz que contracena com ele em Shame.

Fassbender & Nicole Beharie

Em 2013 haverá nova parceria entre os dois num filme que falará sobre a escravidão nos Estados Unidos no século XIX por meio de uma personagem que se tornará escrava com vários donos, mesmo tendo educação. Fassbender terá um papel importante, mas não será o ator principal. Mesmo assim, espera-se que McQueen aborde um tema difícil como a escravidão, já que é um dos raros diretores negros em atividade, onde em quase todas as áreas é dominadas por brancos e sua visão de mundo. Pessoalmente acho que sua interpretação daqueles fatos poderá ser mais fiel aos sentimentos da personagem.

E que venha mais um filme ousado desses dois brilhantes profissionais.

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