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Entro no ônibus que me transporta por quase 20 quilômetros de casa ao serviço no ponto do terminal. Ele sai vazio e posso escolher um bom lugar para me sentar. Os passageiros se conhecem. A enfermeira, o professor e o padeiro são os mais antigos a usar a linha naquele horário. Pouco depois das 6h, estão comentando os planos para o futuro dos filhos, o atraso e mau humor do motorista de óculos com lentes grossas, as últimas notícias assustadoras da política.

Quando um deles perde a hora e o motor do veículo anuncia sua partida, os outros olham pelas janelas e pedem para esperar mais um pouco. Quem atrasou agradece a gentileza. Uns dias, o despertador deixa na mão, em outros, a opção soneca é uma arapuca. Os coletivos da linha saem a cada meia hora e um deslize causa descontos na folha de pagamento.

Sento no mesmo banco próximo à porta. Raramente puxo assunto além de um educado bom dia com o trio entrosado. Nas últimas semanas, porém, o padeiro tem se interessado em conversar comigo sobre assuntos mais interessantes que a previsão do tempo.

Isso depois de um silêncio diante das perguntas feitas pelo professor sobre um livro que eu lia, concentrado. Era seu último dia antes das férias e ele queria boas dicas de leitura e riu do padeiro, que dizia sentir sono com letrinhas miúdas. No dia seguinte, a ausência do professor fez com que o fazedor de pães de olhos cansados comentasse comigo sobre a rotina difícil de dois empregos para pagar a faculdade de um dos filhos. Diariamente, vai de uma padaria à outra para complementar a renda de divorciado. Abriu mão da vida social pelo objetivo maior de ver o filho formado em medicina. Vale o sacrifício pelas crianças, disse a enfermeira com voz cúmplice.

Desço alguns pontos antes deles. E me fiquei desconcertado ao ouvir a despedida.

— Até amanhã, Fábio.

No dia seguinte, quando o mesmo nome foi usado como vocativo após o bom dia, percebi que ouvi direito, sim. Ele não me chamou de “sábio”, tampouco usou outra palavra como “brother”, “amigo” ou “camarada”. Tive meu nome confundido por um sem nenhuma relação com o qual fui batizado. E não havia o menor motivo para o uso dessas cinco letras com acento agudo na primeira sílaba.

E não tive coragem de corrigi-lo. A cordialidade nas primeiras horas antes de bater meu cartão correria riscos. Disfarcei bem meu desconforto até um dia de atraso. Corri e fui visto pela janela. O padeiro e a enfermeira avisaram ao motorista e não tive prejuízos no holerite.

— Não precisa agradecer, Fábio. Estamos no mesmo barco.

No primeiro semáforo vermelho, o padeiro pediu minha opinião. Ele e a enfermeira discordavam em um assunto da política, mas não entendiam bem do assunto. O Fábio é um cara mais inteligente e deve saber dessas coisas, disse.  Sem poder pular pela janela, dei um sorriso sem graça e tentei me esquivar. Pensei nas vezes em que não damos o nome correto às anormalidades que nos cercam e mesmo assim não avisei meu nome correto. Eu era um canalha por manter aquela mentira por tantos meses.

Somos canalhas quando deixamos legitimar mentiras por meses, anos, vidas inteiras. Ainda que sejamos todos julgados por nos parecermos com Fábio, seja lá quem for, só alguns de nós se chamam Fábio. Quando subo as escadas diárias do ônibus, perco minha identidade para algum Fábio.

Nos últimos meses, tenho receio de conhecer pessoas novas. O medo de me decepcionar com quem insista em me chamar de Fábio é um muro do qual não tenho impulso para saltar e me socializar mais. É um sentimento estranho esse em que nada possa voltar a ser como um dia já foi.

Na semana passada, minha indicação levou um ex-colega de faculdade a fazer uma entrevista de emprego. Ele falava alto. Ria ao lembrar fatos de velhos tempos, talvez para conseguir minha simpatia e pontos a mais no teste para o novo emprego. Me chamou de Leandro e bateu no meu ombro.

O padeiro olhou com as sobrancelhas erguidas, como se achasse estranho. Fez um gesto com a cabeça, perguntando se eu o conhecia. Estava tudo tranquilo, tranquilizei. Não sei como será pegar o ônibus amanhã, mas sei meu nome, sei de que lado fica o banco que me leva ao trabalho.

Nem todos sabem.

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