Não há maior estereótipo do que a ideia de que a juventude é necessariamente uma curtição, um momento da vida onde experimenta-se todo tipo de loucura livre dos tabus. Há muito mais entre os 15 e os 30 anos do que imaginam as vãs filosofias. Ser jovem é também sofrer com todo tipo de conflito, enfrentar o peso das decisões e do porvir, e aprender a lidar com a vida enquanto nossas defesas amadurecem.

Por mais melancólica que tal afirmação possa parecer, encontramos no cinema recente uma série de obras que usam de belos adolescentes para discutir temáticas realistas e importantes para os jovens, como sexo, aborto, primeiras experiências, maturidade e a descoberta de si.

Tudo isso permeia muito bem a trama do novo filme de François OzonJovem e Bela (Jeune & Jolie), no qual é retratada em diversas facetas uma das principais descobertas da idade: a vida sexual. Quem procurar o sentimentalismo da primeira vez, ou as cenas românticas e fofas de um casal, pode esquecer, pois o filme de Ozon fala de forma desinteressada da perda da virgindade da protagonista Isabelle (Marine Vacth), para a transformação de uma vida dupla aos 17 anos: jovem, bela e prostituta.

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Diretor de Dentro da Casa (Dans la Maison) e Piscina (Swimming pool), Ozon continua na temática jovem, com adolescentes libertários e donos de seus narizes. Porém, Isabelle, o nome já diz tudo, é perigosamente bela, mas melancólica. Os lindos olhos tristes não se deixam enganar, ela está evidentemente entediada, o namorico de verão europeu não serviu para nada. A primeira vez com o namoradinho alemão, que poderia ser romântica na praia, é mais encarada como a perda de um fardo para esta personagem.

Como todo bom adolescente, Isabelle é mal-humorada. Normal, são os hormônios, um projeto de mulher com 17 anos não seria normal se não estivesse entediada ou desiludida da vida. O lance do filme é a questão da maturidade, e Ozon explora isso muito bem em sua Isabelle. Prostituta para comprar roupas de marca? Ou um iPhone? Ou ir para altas baladas? Não, a vida de Isabelle é marcada pela juventude francesa despudorada, festinhas com drogas e aulas de Rimbaud. Os 300 ou 500 Euros que ganha nos programas, ela apenas esconde no armário, nada de compras ou de passeios em pequenas galerias de Paris.

O motivo da escolha de se prostituir com homens muito mais velhos se mistura com a atitude da personagem diante de seu cotidiano. O que ela realmente busca? Será que as descobertas já não são o suficiente e para isso ela precisa levar essa vida dupla? Para os pais é a menina mimada do ensino médio, para os clientes, uma mulher madura, dona de suas escolhas.

Isabelle retrata a perspectiva de muitos jovens de diversas culturas. Ela não age por impulso, muito pelo contrário, tudo é friamente calculado e planejado. Se ela imagina o perigo de se encontrar com desconhecidos, não parece ser a preocupação do diretor, mas que ela está em busca de um algo para a vida, ou a resposta de um sentido, isso sim é possível notar em suas falas e na maneira que interage com os outros personagens.

Ela é mais uma daquelas personagens que demonstram força e desejo por aquilo que acreditam como verdade, mesmo que as escolhas não sejam tão comuns e as descobertas não sejam feitas em pequenos passos. Isabelle, apesar da pouca idade, demonstra mais coragem do que aqueles que tiveram milhares de experiências ao longo da vida. Uma inocência forjada, uma beleza natural e uma busca insaciável para dar à melancolia do seu dia a dia algum sentido.

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Jovem e Bela

Quando? Em cartaz nos cinemas

Onde? Verifique o local mais próximo à sua residência

Quanto? Preços variados (inteira/meia)

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