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João Gilberto materializou o que era a ideia para a Bossa Nova, transformando o samba jazzístico em algo único e novo e dividindo a história da música em antes e depois de Chega de Saudade (1959).

Talvez hoje seja difícil mensurar o quão profunda foi a mudança estabelecida por ele, mas precisamos dizer mil vezes o quão profunda ela foi pois não era apenas uma maneira nova de se tocar violão; era uma maneira brasileira de se fazer música que elevava o improviso à condição de estética e trazia em seu gene o traço marcante da nossa identidade brasileira.

Não havia nada que se podia prever; ao soarem os acordes de João Gilberto, uma janela se abria para o infinito, onde tudo poderia acontecer.

Até um ano antes a seleção brasileira se resumia ao pitoresco nas disputas internacionais, o futebol era bonito, mas nunca competitivo. Em 1958 fomos os primeiros americanos a ganhar uma copa em solo europeu, superando o estigma de time nunca vencedor. Como disse Nelson Rodrigues, vencemos a nossa “humildade deprimente” para nos tornarmos “insolentes e vencedores”. Mané, Pelé, Djalma e Nilton Santos garantiram que o fizéssemos sem abrir mão das características: o drible, o improviso, a técnica. Não havia nada que se podia prever; quando o time brasileiro entrava em campo com Mané e Pelé uma janela se abria para o infinito, onde tudo poderia acontecer.

Fizemos isto de várias maneiras diferentes no Brasil: no cinema com Glauber Rocha, na Poesia com Drummond, na prosa com Guimarães Rosa, no ar com Santos Dummont, na passarela com Gisele etc e etc…

O time brasileiro não entrou em campo no último domingo para a final da Copa América para vencer o estigma de perdedor como em 58, pelo contrário, entramos com o peso da obrigação de vencer a fraquíssima seleção do Peru, de fazer aquilo que se espera de nós da mesma maneira como se espera do padeiro o pão e do ferreiro o ferro, por mais que o ufanismo da CBF e o Sofisma de Tite queiram nos fazer crer que fizemos algo extraordinário, é preciso que se diga: não foi mais do que a obrigação.

Mané Garrincha / Foto | Revista El Gráfico, 1962

Por outro lado, se em 1958 selamos de vez o futebol belo como paradigma do estilo brasileiro de jogar, no domingo colocamos sobre ele a nossa última pá de cal, não havia, aliás, nenhum vestígio de que algum dia este futebol brasileiro do qual se fala existiu. Entramos em campo, seguimos o roteiro seguro de Tite, sofremos diante de uma seleção brutalmente inferior, vencemos com muito mais dificuldade do que se esperava.

“Não existe mais bobo no futebol” é a desculpa recorrente para justificar o nosso péssimo desempenho, como se antes existisse, como se toda a jornada vitoriosa do Brasil em campo durante todo o século só fosse possível pela inferioridade de adversários como Itália, Alemanha e a própria Argentina. Passamos como tratores pelos maiores, servimos grama aos seus zagueiros por 50 anos, e hoje nos contentamos em vencer o Peru sem apresentar o mínimo de talento e justificamos a humilhante derrota para a Bélgica sobre o argumento de que “o futebol se modernizou” e nós não acompanhamos.

Me recuso a acreditar que falta talento, é impossível, jogar futebol é uma capacidade quase genética do brasileiro, não precisamos ir longe, os próprios terrões estão cheios de potenciais jogadores com talentos. O que ocorre, na verdade, é que a seleção brasileira é quem dita o parâmetro do futebol, e a CBF há muito tempo vem transformando este parâmetro, vem substituindo o futebol de qualidade técnica pelo futebol de força física e depois da derrota de 2006 assumiu de vez o novo paradigma, este fato se reflete também nas peneiras e nas categorias de base onde os jogadores de preparo físico são privilegiados em detrimento dos talentos individuais.

É como se  a os garotos do condomínio fechado, que eram constantemente humilhados nos campinhos de terra, promovessem uma vingança contra os talentos natos no futebol.

Ganhar feio também revela o novo público das arquibancadas: quem desembolsaria meio salario mínimo para ver uma partida monótona se não a nova classe média? Um público que não se importa com o que foi apresentado em campo, a selfie na arena moderna usando a camiseta oficial que custa a outra metade do salário mínimo vale o ingresso, o jogo não pode ser mais interessante do que o próprio desempenho das postagens no Instagram.

Antes do início da partida, Anitta se apresentou ao lado do porto riquenho Pedro Capó, os dois interpretaram o playback de duas canções que os estadunidenses chamariam de “ritmo latino” incorporados a música pop, para selar a artificialidade da cerimônia, a celebridade brasileira menciona João Gilberto e o deseja luz. Sem entrar no mérito da qualidade da música e do quão longe isto possa estar de João Gilberto, outra questão é que em qualquer nação do mundo um João seria celebrado com mais dignidade, a menção modesta e constrangida de Anitta é mais um sinal de que o viralatismo que havia sido curado pelo título de 58, segundo Nelson Rodrigues, voltou a contaminar os brasileiros.

O título sobre o Peru não foi suficiente para fazer-nos reconhecer as virtudes, pelo contrário, mesmo com o ufanismo da CBF e a forte propaganda fascista do amor histérico ao que chamam de pátria, o impacto da vitória da vida quotidiana de um povo prestes a ter a sua seguridade social aniquilada foi igual ou menor que zero.

“O que nós procuramos nos clássicos e nas peladas é a poesia, insuspeita e absoluta” , dizia Nelson Rodrigues.

Sem dúvida foi o maior entusiasta do que chamamos de futebol arte, do drible, da criatividade. Para o dramaturgo e cronista, o futebol, assim como a arte, não era regido pelas leis da objetividade, mas sim pela mágica do imprevisível, foi ele, muito antes do título de 58 que defendeu o futebol malandro jogado pelo Brasil, e acreditou que este futebol triunfaria, como triunfou o quanto pode. Algumas décadas antes, o escritor Lima Barreto tinha uma outra visão a respeito do futebol, acusava o “jogo de elite praticado por moços ricos onde não se permitem negros”. Ambos tinham razão, cada qual com seu tempo.

O futebol nos anos 50 estava popularizado e era praticado e prestigiado pela massa de maneira a reunir as nossas maiores virtudes enquanto povo, como constata Nelson Rodrigues. Já no final do século XIX e início do século XX, a prática era elitizada e excludente, como denuncia Lima Barreto, reunindo os nossos maiores e mais banais equívocos enquanto povo.

A questão é: o futebol atual, em todos os seus aspectos, dentro e fora de campo, resgata o que era no início do século e sepulta de vez a utopia de 1958 de Mané, com a triste coincidência de enterrar junto com João, a sua utopia de 1959.

 

 

 

 

 

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