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Conto: Robson Alkmim | Ilustração: Filipe Rocha

O ato de estranhar é como o início de um incêndio. Começa a queimar aqui e ali em nossa consciência para logo espalhar suas chamas por todos os nossos pensamentos, desejos e imaginação.

Este brevíssimo prólogo não poderia ser mais apropriado para introduzir a história sobre a garota mais esquisita e fascinante que já conheci; uma Distraída que tocou fogo em meu coração.

O ano era 2000. A humanidade havia sobrevivido ao pânico do Bug do Milênio. As pessoas voltavam a falar sobre assuntos costumeiros. Eu, que nem computador tinha, esperava que, por causa do Bug, meu banco depositasse alguns milhares de reais na minha conta (a imprensa cogitava esse tipo de problema). Como nada disso aconteceu, vítima da imprensa, tive que arranjar um emprego. Fui praticar uma vidinha de estágio num escritório de publicidade, aproveitando meu segundo ano na faculdade.

Todos os anos, em qualquer faculdade, é tradição pegar os bichos/novatos para participarem de trotes. Aconteceu comigo em 1999, e no ano seguinte eu queria descontar em alguém os malditos rolos de papel que me enrolaram enquanto pedia dinheiro num semáforo. Garotos e garotas apavorados foram pegos naquela primeira semana. Foi divertido e pacífico. Consegui brincar com muitas pessoas, menos uma.

Como estudava à noite e não enxergava direito por causa da iluminação ruim no pátio da faculdade, vi um borrão multicolorido fumando um cigarro sentado nos degraus da entrada. Ao me aproximar, com a embriaguez da curiosidade e a animação do momento, vi uma garota com cabelo colorido: raspadinho em azul e um enorme topete vermelho que lhe encobria parcialmente o rosto. Não tinha visto aquela figura antes, só podia ser uma novata. Quanto mais me aproximava percebia suas roupas brilhantes de couro, que envolviam um corpo magro e alto. Ela se encolhera num cantinho, como se quisesse escapar das brincadeiras dos veteranos. Tal ideia se tornou verdadeira quando ela me percebeu, e levemente inclinou a cabeça em minha direção dizendo com uma voz tímida, mas definida:

– Se me tocar eu te jogo escada abaixo.

Ela voltou a fumar soltando nuvens espirais. Olhei para a longa escadaria e reagi: sumi dali.

Naquela noite não dormi. Não sabia se por culpa ou raiva. Pensava que aquela mina tinha sido horrível comigo. Suas palavras me incomodavam; mas sua linda imagem começava a inflamar meu cérebro.

Nos outros dias não a vi. Fiquei rondando as salas bisbilhotando por uma cabeça colorida. Sentava na escadinha na esperança de que ela pudesse passar por ali. Cheguei mesmo a pensar que eu havia feito algo muito ruim, a ponto de fazer uma novata abandonar os estudos no primeiro dia. Que atitude monstruosa! Pensava.

Mas, num dia chuvoso, eu esperava meu pai na entrada da faculdade para ir embora, porque ele insistia em me buscar em datas úmidas. Nada de pegar gripe! Você tem muito trabalho para fazer, ele me dizia, eu acatava. Havia poucas pessoas embaixo da cobertura, a maioria já havia ido embora. Então, senti um cheiro de cigarro que me fez espirrar. Eu me virei e vi a garota escorada na parede com uma cara distraída de foda-se a humanidade e o Universo todo. Ela vestia uma outra roupa: tênis, saia e jaqueta em tons azulados. Reparei em seu rosto traços orientais. Esta segunda impressão foi constrangedora: não percebi, mas fiquei olhando para ela um tempão, até que nossos olhares se cruzaram e acordei do transe. Meu rosto ardia quando me virei e vi o carro do meu pai; desci e fui embora palpitando no peito algo como um formigueiro. Meu pai reparou aquela vermelhidão no meu rosto; especulou uma febre, eu neguei.

Aquela garota era muito bonita e diferente. Ela poderia ter saído de algum lugar no futuro, quem sabe de um filme como Blade Runner; eu viajava. Minha curiosidade se alastrava, tornando-se obsessão. Num dia (15 de abril, sim, eu decorei a data), ela estava numa sala de computadores fazendo um trabalho, pelo menos foi o que imaginei. Eu a espionava pela janelinha da porta; resolvi entrar. Sentei-me ao seu lado. Não tive coragem de encarar aquele rosto que se mexia lento como uma lagarta preguiçosa. Fiquei no meu computador, fingia fazer qualquer coisa. Resolvi dar uma olhadinha para a tela ao lado e vi que ela visitava um site pornô. Tive vergonha: eu a julguei concentrada no trabalho, não distraída com sacanagem. Tive vontade de sair, a bunda não deixava. Até que senti um cutucar quase carinhoso em meu ombro.

– Você já fez isso? – Ela me perguntou apontando a tela com desdém.

A Distraída me mostrou uma foto onde quatro mulheres à beira duma piscina (devo tentar uma metáfora neste momento) coletavam com seus laboriosos lábios os néctares agridoces umas das outras. Sacudi a cabeça enquanto meus olhos ficavam turvos e a bunda descolou da cadeira. O nervosismo me expulsou da sala. Não dormi bem por vários dias. Tentava decifrar aquele enigma malandro: o que eu realmente sentia por ela?

O estranhamento foi passando quando começamos a nos encontrar. Em nossos intervalos das aulas floresceu uma conversação crescente, quer dizer, ela falava pouco. Achava genial cada frase que ela proferia com aquela mão no queixo e o olhar grave para o infinito:

– Você é um peixe nadando no esgoto. – Enigmática: – O pato não tem inveja da águia porque ela não sabe nadar. – Entediada: – A cada reclamação você mata bilhões de átomos no meu ouvido. – Confessional: – Sou a gari da minha própria vida.

Tínhamos os mesmos 22 anos, mas ela tinha mais experiências de vida que eu: uma pessoa normal, que se vestia normal, falava sobre coisas normais e que não tinha coragem para mudanças. Eu lhe contava sobre o relacionamento com meus pais, meu trabalho e a faculdade. Descobri que ela trabalhava numa loja de roupas de uma marca famosa e morava sozinha. Uma flor tímida, não se abre completamente, eu pensava,  lamentando estar um ano adiante nos estudos e por não estudarmos na mesma classe.

Acostumei-me demais com toda a experiência. Ela não tinha amizade com outras pessoas. Fui até as profundezas daquela água turva encontrar alguma pérola que me tornasse uma preciosidade maior diante da Distraída. Havia algo de perigoso que eu sentia no coração e não queria admitir. Não sabia como ela reagiria se eu divulgasse a minha perturbação. Mas o fogo havia dominado e comprometia minhas estruturas.

Até que, em junho, ela me disse que pensava em mudança.

– De que tipo? – Perguntei-lhe com a mão no peito.

– Fazer moda.

– Você quer dizer, sair daqui?

– Isso. Aqui eu me sinto deitada, preciso andar.

Ela havia jogado uma piscina de água geladíssima nos meus sentimentos calorosos. A declaração não me pareceu uma dúvida. Senti muito medo, e quando isso acontece perdemos a noção do limite, uma loucura se apossa, simulamos coragem e ousadia, rejeitando a realidade.

Resolvi convidá-la para sair (11 de junho). Ela aceitou. Fomos a uma balada. Meu coração saia pela boca de felicidade e ansiedade por estar a sós com ela. As luzes iluminavam seu rosto lindo que ela maquiara especialmente para a ocasião; os grandes olhos castanhos pareciam me seduzir toda a vez que eu os procurava. Precisava tomar coragem, e aquele era o dia.

Nós nos sentamos para descansar após uma longa sequência de músicas onde nossas mãos e corpos se tocaram por várias vezes. Eu incandescia. Ela ria com qualquer bobagem que eu falava. Nunca a vira assim. Seus olhos se tornaram ternos e atenciosos. Pensei violentamente que ela me desejava. Num momento de silêncio mútuo a observei como uma verdadeira esfinge que aguardava a minha resposta. Minha mente rodopiava.

A Distraída pegou na minha mão, queria que fôssemos ao banheiro, eu concordei. Lá dentro, subitamente avancei nela e lhe dei um beijo encaixando seu rosto em minhas mãos para que não me escapasse. Ela me empurrou aos poucos.

– Não.

– O que há?

– Eu tenho uma namorada.

– Mas…

– Não quero me envolver com outra mulher. – Ela me disse apontando para a porta.

Eu fiquei perplexa e sai. Minha tontura aumentou e voltei para o lugar onde estávamos. Ela retornou depois de vários minutos. Disse que não nos veríamos mais, apesar de gostar de mim. Contou-me que namorava há um ano e estava presa a um destino que eu não poderia compreender. Tudo muito complicado, finalizou.

Ela se levantou e foi embora. Fiquei só. Devo ter ouvido uns três caras me xavecando, mas não me lembro de suas injúrias. Revivi todas as cenas e palavras. Senti-me profundamente feia, pois nunca quis mudar meu estilo por causa dela, pensava que este fora meu erro. Fui chorar somente em casa. Passei mal durante toda a semana, não fui estudar, nem trabalhar. Minha consciência e meu pai me obrigaram a voltar para as aulas e ao trabalho. Não queria me ferrar triplamente no mesmo semestre. A Distraída havia sumido da faculdade. Deve ter cumprido com seu desejo. Com o tempo fui recolhendo minhas cinzas para soprá-las ao ar.

Dois meses depois conheci um novato no meu trabalho, um Distraído que, ao invés de trabalhar, ficava navegando por sites de turismo. Ele amava viajar. Nem preciso dizer que fiz muitas viagens naquela época.

Até que numa delas (em 30 de julho de 2002), encontrei a Distraída numa praia. Ela estava acompanhada, pelo que pude deduzir, com um namorado, já que se beijavam ardentemente. Ela não me viu, e meu coração distraído, nada percebeu.

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