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Conto: Robson Alkmim | Ilustração: Filipe Rocha

Um gosto de morte se espalhou pela boca de Francisco no meio do dia. Hora do almoço, o escritório vazio, a garganta seca, as palavras estiadas. Levantou-se da cadeira e se aproximou de uma janela entreaberta. Sugou o ar para compreender. O sol forte queimava-lhe a fronte indecisa. Seu corpo amoleceu e uma tontura lhe turvou a visão da cidade incandescente. Temeu por um desmaio que ameaçava. Sair foi a solução. Cambaleou pelos degraus abaixo segurando e deslizando a mão como um idoso precoce. Surgiu à rua pisando sem sentir seus ladrilhos caóticos. Suava frio.

Tirou um cigarro do bolso da calça e tremeu até levá-lo aos lábios. Uma, duas, três vezes o isqueiro falhou. Desistiu. Começou a andar entre as pessoas que o observavam como se avistassem um vulto perdido. Pensou em esconder seu rosto, não daria margem a impressões que nem ele mesmo compreendia. Tudo estava bem até pouco tempo. Era um jovem de trinta e oito anos, responsável e precavido. O que daria errado num dia tão normal e rotineiro? Não havia feito nada de diferente que se encaixasse naquele desespero: beijara a mulher logo cedo ouvindo dela saudades adocicadas e cuidados amorosos; levara os filhos pequenos ao colégio prometendo a eles brinquedos conforme seus comportamentos na aula; ligara para a mãe no dia anterior desejando-lhe feliz aniversário; a semana seguinte seria de férias planejadas, viajaria para as Bahamas. Tudo em perfeito estado como um diamante polido e valioso. Então, o que daria errado num dia tão normal e rotineiro?

Angústia: aquele ponto cego da vida, mas, como? Lembrou-se da irmã que havia tentado se matar por causa de um namorado. Mas ela não sabia expressar sentimentos, como uma certa vez na infância onde, ao invés de pedir a Francisco que desse a ela um pouco do sorvete que ele chupava, transtornada, deu-lhe um soco na cara. Rememorar o soco da irmã lhe doeu o rosto, pois ele, que andava como quem não tem certeza do próximo passo, não aceitava que poderia desabar numa rua cheia de desconhecidos e nunca mais acordar.

Andou algum tempo pelo bairro. Isolou-se à beira de uma árvore numa praça que não conhecia. A sombra da árvore acolhedora lhe protegia do sol que rebentava no céu. Sentou-se escorregando suas costas no tronco para se sentir vivo sem se importar com o paletó que havia ganhado da esposa no último aniversário. Que rasgue, não me importa, rosnava entre os dentes para si mesmo. O pânico transformava Francisco num animal acuado, vermelho e bafejante. Prendeu as pernas com os braços para se proteger de invisíveis sentimentos. Sob a grama rala, um grupo de formigas tracejava seu trabalho de carregar folhinhas. O homem teve a impressão de que elas riam de sua forma grotesca. Ao longe, um congestionamento de carros com suas buzinas discutindo prioridades.

Pensou que ficaria ali o dia todo, até à noite. Não se importava com que fofocariam no escritório, não ligava para as opiniões de seu chefe a respeito de suas tarefas por vezes insatisfatórias e com baixo resultado nas vendas. Descobriu com uma dor estomacal a íntima aversão pela competição (secreta) com um colega todo cheio de empáfia que lhe dava náuseas de ciúme por ser mais competente. Fechava vendas imobiliárias com extrema agilidade, um exemplo para todos vocês, segundo o mesmo chefe. Pensou nas crianças na escola, aquelas pestes barulhentas que lhe deixavam maluco, principalmente nos finais de semana, quando o que queria era comer sua mulher como forma de garantia de que ela não sairia com as amigas e lhe deixaria sozinho como tantas vezes aconteceu. Pensou se ela já havia lhe traído, ideia recorrente mas deixada de lado pelo absurdo. Mulher tão bonita, vistosa, cheia de papo com todos. E ele um introvertido miserável caído no mundo como um erro fetal. Odiou a esposa em meio a balburdia de seu colapso.

O turbilhão de pensamentos criava ilusões desconcertantes. Começou a rir baixinho, para dentro de si. Ria do coração, do fígado, do estômago, da coluna cervical, da barba e de todos os seus pelos que começavam a descorar. Sentia que seu corpo lhe traía pela máscara social que se encaixava tão bem em seu rosto, mas que agora rachava sozinha. O corpo é uma caixa que não aguenta tantas explosões interiores. Teve medo redobrado e o ódio triplicado, se pelo menos fosse como o sol ou uma bomba real…

De vez em quando alguém passava pela calçada e observava Francisco de longe; talvez o achassem louco, mas ninguém lhe perguntava nada. Todos têm seus medos submersos num oceano de peixes mortos que, por precaução, não os pescam.

Já havia passado a hora do almoço e Francisco teve sono. Deitou na grama ao lado das formigas. O mundo parou durante duas horas. Sonhou com uma baleia que o engolia. Acordou sobressaltado com as formigas sobre ele, reconfiguravam o caminho obstruído por aquele corpo desleixado. Não sentia mais a tontura, nem o frio, nem mesmo tremia. Mas havia um vazio no peito interrogativo. Fora roubado, não materialmente, pois, naquele instante, poderiam lhe roubar a carteira, pouco se importaria. Sua vida precária feita naquele frágil alicerce arenoso em que sua personalidade havia se solidificado desabava. Levantou-se sem perceber que algumas crianças a alguns metros o observavam com olhos recriminadores. Mesmo assim, ninguém interferira em seu declínio moral. Ninguém havia aberto qualquer porta e perguntado se ele precisava de uma mão, um braço, uma bala, um tijolo, um cacetete, um espancamento, um ferimento mortal, nada. Talvez se transformara um monstro que assustava as pessoas.

Caminhou novamente na direção em que chegara à praça. Sentiu suas costas úmidas e a garganta ainda mais desértica. Tirou o paletó o carregou como um garçom. Parou num quiosque, pediu um refrigerante para a vendedora que piscou um olho negro e lambeu os lábios rosados ao lhe entregar uma garrafa gelada. Francisco quis dar um tapa rosto da moça pela petulância. Virou metade refrigerante para dentro e arrotou mudo. Desistiu da agressão, naquele estado de não passar pior impressão foi se sentar num banquinho e observou seu relógio marcando quase o final do expediente. O céu se avermelhava em gradações. Levaria uma bronca do chefe, apesar de saber que sua presença só importava como um objeto funcional e não como ser humano. Se tivesse acontecido algo de ruim, ele seria somente motivo de comentários e lamentações vazias durante alguns dias, depois tudo se apagaria no escritório, um outro o substituiria, talvez mais habilitado e destacado. Pensou nos filhos e na mulher: entristeceu-se por causa de tais pensamentos. Eles sentiriam sua falta de verdade como ele sentira a sede que lhe secara a existência antes.

O que precisava abandonar? Não tinha ideias além do escritório. Havia estudado para ser dono de uma empresa, mas viveu como empregado. De uma luz difusa na memória, lembrou-se de seu pai… Júnior – dizia o senhor para o pequeno Francisco – você não pode ser pintor ou artista, isso não é uma vida estável, vai ser pobre, ninguém vai te levar a sério, nem talento você tem… esqueça tal coisa, vou te colocar num colégio para que você estude com afinco e se torne um homem direito. – Após cinco anos, o pai de Francisco morreria num acidente aéreo quando viajava para fechar um negócio no nordeste para sua madeireira quase falida. Francisco levou sua vida como seu pai queria, mas não pode contemplá-la, não pode se orgulhar do filho quando ele se formou em Administração. Que orgulho poderia meu pai ter se eu não sou feliz, pensava, esfregando o rosto em lágrimas, não é justo!

Como um trem, que segue em uma direção conforme os trilhos lhe guiam, Francisco voltou para o escritório com o sol nas costas, fazendo sua sombra tomar dimensões de um grande homem simulado que ele não era. Ao entrar no escritório, somente encontrou a empregada discreta que limpava o chão. Suas coisas intactas o esperavam sobre sua mesa. Havia, num papel amarelo, um recado assinado pelo seu chefe: Não estou satisfeito, vamos conversar amanhã sobre a sua demissão. Francisco suspirou e juntou alguns papéis, uma foto de sua família, algumas canetas, colocando tudo em sua maleta. Não precisaria de conversa alguma, já previra, e não se importava.

Ao chegar em frente à sua casa, lembrou-se das crianças na escola. Seu celular tocou: era sua mulher lhe dizendo que chegaria mais tarde e que já havia passado na escola e que visitaria a sua mãe um pouco adoecida e que… Francisco nada respondeu e entrou na casa.

Abandonou sua maleta sobre o sofá da sala e foi tirando a roupa até chegar ao banheiro, onde ligou o chuveiro e se encarou no espelho ouvindo a água lhe hipnotizar. Não se reconhecia, perdera a máscara. O vapor subia depressa invadindo sua respiração. O que seria dali para a frente? Só um frio na barriga lhe respondia, suficiente para não concluir coisa alguma. Apertou os olhos e entrou sob o chuveiro para retirar as camadas de tristeza. Francisco pensou nas Bahamas e sorriu.

 

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