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Conto: Robson Alkmim | Ilustração: Filipe Rocha

Um senhor de cabelos brancos sentado em frente a um computador num escritório, cercado por livros, fotos, dois gatos pardos e uma caneca de chá fumegante. Pega um microfone e aciona o botão de gravar na tela:

Testando, testando, ok…

Bem, disseram-me que escrever um livro de memórias seria o caminho natural pelas experiências que tive em fotojornalismo. “O senhor precisa contar tudo!”,  foi o que mais ouvi, quase num tom de clemência de amigos, parentes e de gente desconhecida fascinada pelo meu trabalho. Estando vivo após cobrir manifestações políticas, zonas de conflito armado, desastres naturais, tiroteios entre bandidos e polícia (confesso que nem sempre ficara claro quem era quem) e, com estes 70 anos no corpo que só me permite hoje tirar fotos de passarinhos, por que não contar para as novas gerações minhas peripécias? Aceitei. O livro foi publicado e é um sucesso.

Dentre tantas histórias e fotos colocadas no livro, acabei deixando de fora a que mais me marcou. Como todos sabem, cobri aqueles anos loucos no Leste Europeu após a dissolução da União Soviética, da queda do muro de Berlim, e os sucessivos conflitos naqueles países, ou melhor, territórios que lutavam por sua independência. Diversas etnias conviviam no mesmo país, e naquele momento cada um procurava sua identidade e liberdade para terem seu próprio governo. Mas isso teve um preço fatal e presenciei muitas aberrações: gente ferida, mutilada, mulheres estupradas por soldados inimigos, cabeças decepadas, enfim, o inferno sob minha lente e também dentro de meu coração.

Mas no comecinho dos anos 90, precisamente em julho de 1991, entre os territórios da Sérvia e a Bósnia-Herzegóvina atuais, na época ainda sob o nome de Iugoslávia, vivi o tal episódio não revelado por mim. Mas não me peçam para lembrar de detalhes maiores, porque tudo aconteceu num único dia, e todas as minhas anotações dentro de uma mochila se perderam num assalto sofrido na mesma cidade e não pude reavê-la. Por sorte, a câmera continuou dentro de outra mochila, e a foto está nos meus arquivos pessoais.

Voltando à história, e antes que meus gatos desejem pisotear meu teclado, cheguei a uma região muito bonita, ainda sem conflitos, pois todo o jogo político parecia distante dali.  E, pela estrada, dentro de carro velho e sujo que usamos, eu e meus colegas, para atravessar do norte ao sul da Bósnia, avistei um rio que cortava dois vilarejo acanhados e que se ligavam por meio de uma ponte. Meus colegas disseram que ali seria um bom lugar para descansar, viajávamos há horas sob um calor terrível de verão. Um guia iugoslavo, que sempre viajava conosco, conseguiu achar uma cabana que servia de hotel, um pouco bagunçada, mas serviu. Todos ficaram contentes conosco por sermos estrangeiros, sempre se podia tirar um pouco mais de gente de fora, imaginavam. Passamos uma noite atacados por mosquitos e de manhã acordei bem cedo, e todo picado, para andar e matar a curiosidade sobre o outro vilarejo, sozinho, enquanto os meus colegas dormiam. Apesar de andarmos juntos, cada fotógrafo gosta de ser mais exclusivo que o outro, fazia parte da boa competição entre nós.

O sol brilhava bonito, alguns cidadãos conduziam animais para pastar em algum lugar ali próximo. Ninguém reparava muito em mim, sendo turista, deixe o moço sossegado, era o que eu interpretava de seus olhares. Fui em direção à ponte, levando em meu pescoço a máquina fotográfica e tirando algumas fotos da paisagem. Avistei um rapaz que pescava à beira do rio, ele me olhava fixo, pensei em tirar uma foto, mas o seu rosto não me agradou. Não era o momento para tirar sua privacidade.

Atravessei a ponte, um pouco bamba e de madeira, e que na verdade, sua extensão era muito maior do que eu imaginara. E o outro vilarejo mais distante do que havia medido da estrada. Não gostava desse tipo de situação, dependia do meu olhar, da minha precisão e ter me confundido na distância me deixava intranquilo. Logo me desculpei, pode ter sido o cansaço.

Chegando ao outro lado, um rapaz, que capinava mato com um facão em frente ao que pensei ser sua casa, veio me interpelar, não entendia o que dizia, tive medo do facão, então ele começou a me responder algumas palavras em inglês, algumas não, eu o compreendia bem, e sua voz tranquila foi me acalmando.

A questão era, que daquele lado, ninguém gostava de estrangeiros bisbilhotando, claramente tinham receio de alguma coisa. Perguntei sobre como era a vida naquelas cidades, e ele me explicou que não se comunicava com as pessoas do outro lado. Em seu vilarejo praticamente só moravam bósnios mulçumanos, e do outro lado, de onde eu vinha, sérvios cristãos. Reparei no rapaz, devia ter 20 e poucos anos, cabelo escuro e usava uns óculos vermelhos, juro que achei estranho, mas deixei pra lá.

Já pensava que não conseguiria mais nada, quando ele me perguntou de onde eu viera. Sou brasileiro, eu lhe respondi. Ele sorriu e disse que adorava nosso futebol, falou o nome de vários jogadores. Sorri amarelo, pois odiava futebol. Olhei para o vilarejo, olhei para a mata que o cercava, olhei para trás para a ponte e tive uma ideia encantadora, caso desse certo.

Eu o pedi para que esperasse ali, e que já já voltaria. Ele concordou e corri pela ponte de volta ao outro vilarejo. Encontrei o rapaz sérvio ainda pescando. Loiro e de bigode, me pareceu mais velho do que o rapaz bósnio. Comecei a perguntar a ele algumas coisas em inglês e ele me respondeu, geralmente mais acendo com a cabeça entre sim e não. Perguntei se queria tirar uma foto, eu a levaria ao Brasil. A palavra Brasil surtiu novo efeito e ele começou a falar vários nomes de jogadores de futebol. Sinceramente não compreendia que tal efeito pudesse romper com tantas barreiras culturais. Eu, num fim de mundo, encantando garotos sobre um assunto que eu não dominava, mas que era a mais perfeita identidade que tinha para mostrar a eles. Imagine se eu tivesse sambado? Bobagem, sou doente do pé.

Eu o levei até ao meio da ponte que fazia um nhéco-nhéco horrível. O bósnio, com o facão na mão, me pareceu preocupado quando eu acenei para ele vir, e ele não vinha. Pedi ao sérvio para me esperar, era preciso ser rápido, o povo das duas cidades poderia reparar na minha petulância. Sabia que havia muita coisa em jogo, e sabia que seria um grande feito juntar aqueles jovens na mesma foto. Conversei com o bósnio, ele largou o facão quando lhe disse que o outro rapaz conhecia os mesmos jogadores, ele duvidou de olhos arregalados e nós nos encaminhamos ao centro da ponte. Durante o trajeto, percebi que os dois se encaravam, “e se desse merda?”, eu pensava.

Ao nos aproximarmos, eles não se cumprimentaram, olhavam para os bigodes e a roupa do outro. Joguei alguns nomes brasileiros para descontrair: Romário, eles riam, Careca, eles sorriam, Zico, urraram, aproveitei e taquei um Maradona, e eles também gostaram. Perguntei os seus nomes para aproveitar o momento, e eles me disseram e se entreolharam embasbacados. O sérvio e o bósnio tinham o mesmo sobrenome. Não podiam acreditar e foram relatando seus antepassados, pelo menos foi o que entendi daquela conferência estranha a mim. O bósnio me disse que suas famílias descendiam da mesma árvore genealógica, mas que, por questões obscuras, cada uma seguiu uma religião. Até para eles entenderem seus sangues se tornava complicado, não queriam mais tocar nesse assunto. O país logo sofreria uma ruptura que somente quem vivia ali sabia dos riscos que corriam por pertencerem a uma etnia diferente do governo principal.

Seus semblantes murcharam. Pedi então que pudesse tirar uma foto, “ficará só para mim”, eu lhes disse. O bósnio ficou com receio, o sérvio disse que jamais deveria fazer o que eu pedia, mas que se fosse rápido, tudo bem. Eles se abraçaram, tirei a foto e cada um voltou para seu vilarejo, não os vi mais. Não dá pra refletir sobre aquele instante sem pensar na guerra que se seguiu logo após. Suas cidades não foram mais encontradas por mim em qualquer mapa. Durante anos quis localizar aquele lugar e nada. Não havia como saber, meus companheiros morreram num ataque dois anos depois onde somente eu sobrevivi, e que me faz arrastar minha perna direita. Aquelas guerras poderiam ter transformado aqueles jovens em inimigos mortais, cada um defendendo sua liberdade com crueldade.

A foto que tirei me fez pensar tantas vezes se não havia sido uma ilusão, a paz que poderia ter sido. Quero levá-la comigo até a morte, depois, quando alguém descobrir esta gravação, provavelmente deixarei para o meu filho cuidar disso, e depois, pode fazer o que quiser com meu segredo.

Eu sempre amarei esses dois garotos do leste europeu.

Zé Hermelino…

O velho para a gravação, seus gatos dormem, o chá esfriou. Ele puxa a gaveta da mesa e tira a fotografia do bósnio e do sérvio. Os cantos vão amarelando. Os rostos parecem observar o fotógrafo por trás do papel, com reverência e gratidão. Uma lágrima molha o retrato.

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