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Cronicas SOULART Andre Vicentini

Foto: Andre Vicentini | Texto: Robson Alkmim

 

Num dia belo azul de setembro,

Reclinada ao pé duma caduca árvore,

Mirava displicente um vasto campo,

Quase entediada de tanta Natureza.

 

Entre bichos invisíveis que

Estalavam sob um sol absoluto,

E jovens alegres abundantes flores,

Ali, de várias lutas perdidas, descansava-me.

 

Mas apesar da claridade circundante,

Notável foi sentir-me anoitecer

Abruptamente como o apagar de uma lâmpada e, clique!

Afundei-me num caos de lembranças, assim:

 

No vacilo dos meus olhos fatigados,

Uma figura masculina pela estradinha andava.

Não me inquietava a distância até lá embaixo,

Era meu pai; nítido e forte, e com uma criança

 

No colo, que brincava com seus paternos cabelos.

Uma menina com vestido de laço e brilho, que

Descia do pai e corria, desafiando o vento,

Beijando o ar em júbilo pleno.

 

Eu os ouvia. O homem sorria e alertava:

Cuidado, não corra, não suba, não caia!

Ela não o ouvia, e corria, e subia e caía.

O pai falava num amor e ela com dois lhe retribuía.

 

Parece bonito e perfeito e irretocável. Mas

Meu coração, como um saco rasgado de farinha,

Despejava pequenas ruínas de uma mulher

Que se tornara a antítese de sua meninice.

 

Colecionei muitos temores na vastidão dos dias…

Ali, com papai, eu ria do tombo, troçando com meus

Cambitos e sussurrando ao ouvido mais velho:

Quero ser cantora! Ele ria, eu cantava uma marchinha.

 

Para mamãe, não. Dizia-lhe que, se quisesse,

Algum dia um disco com minha foto ela compraria.

O tempo passou. A mãe foi-se embora montada num amante e,

Descontente, o pai enlouqueceu, perdeu sua fraternidade,

 

Morrendo desperto, num sanatório, em melancólica solidão.

O epílogo doeu-me naquilo que não podia: o futuro, a continuação.

Dali, fiz de tudo sem importância,

Tornei-me resto de vida; Crescida e vencida…

 

Mas por qual razão tive lembranças tais,

Como alguém que em casa chega sem avisar?

O campo da infância era o mesmo de agora,

Revelando o assunto do qual mortalmente me esquivara.

 

A imagem invocada trouxe a mim, desfalecida

Sob a sombra perene do cacheado das folhas,

Lágrimas que me intrigaram. Mas como?

Fui arrebatada de improvável euforia!

 

Ao meu inventor gritei seu nome quase esquecido,

Levantei-me em corpo de menina e cantei sua melodia preferida,

De pulmões dilatados às nuvens, ao sol e às flores.

De longe, papai sorriu para cima.

 

E, para sempre, dormi no colo da árvore, como uma herança secreta.

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