cronicas urbanas_andre vicentini

Foto: Andre Vicentini | Texto: Robson Alkmim

 

Novamente eu sonhei que te perdia. Não foi qualquer nova cena que fizesse com que o final fosse modificado, e que em mim cessasse a náusea concreta desses últimos tempos.

Não acredito em sonhos premonitórios, não consigo sustentar uma ideia que vá além de uma realidade palpável, não creio que se possa adivinhar o futuro pelo passado, quanta negação! Você vai discordar de mim, porque é astrológica e tem o Universo pulsando em sua mente.

Gostaria de saber onde fica esse lugar que tanto me impressiona por tão pouco me revelar.

E é sempre assim: eu nunca chego, já estou, sem inícios. Dentro desse local escuro, que não consigo dimensionar seu espaço, vejo somente uma luz transbordando e nela você se multiplica indefinida. Você está sempre ali, nebulosa e distante, dizendo-me coisas e coisas, sem perceber a sua maneira de manejar, com habilidade, as palavras perfurando as minhas lembranças e aumentando a minha agonia. Sua voz ecoa e reverbera, não parece você, mas sei que é, como quando acordo ao seu lado, e, sem abrir os olhos, toco sua pele para identificar sua existência para minha tranquilidade.

Mas o sonho é inquietante, quase constrangedor. Não me movo por não conseguir me aproximar de você. Nesse tempo estático, mas finito pelo despertar, eu procuro dizer mentalmente, pois a paralisia se estende por todo o meu corpo e meus lábios parecem estar costurados, que nada daquilo que você me diz é verdade. Não me pergunte que palavras são essas, elas se movem em minha direção como o vento, que não vemos mas sentimos.

Nesse momento contraditório, entre o meu desejo e sua repulsa, você some em direção à luz, e sua voz desaparece, e eu acordo.

Em qualquer um dos nossos dias juntos eu jamais tive receio de que nossa relação pudesse se extinguir. Ainda não tenho, mas confesso que nos últimos dias um brotinho saído da terra começou a crescer, mas não posso afirmar que isso se transformará numa planta carnívora ou numa roseira.

Sinto muito, e você sabe bem disso, a sua falta, como se eu fosse um maldito faminto numa época de guerra. Nesta ausência de meses, meu corpo que se nutria do seu, parece que, às vezes, acostumou-se a te esquecer. Nossas conversas amorosas pela internet acabam se tornando tão virtuais como a rede que nos propicia o deleite para nossos sentidos.

Não sei se você… enfim, sente o mesmo. Isso me assusta um pouco. É uma dúvida sobre a real necessidade que temos com as outras pessoas quando elas não são parte física de nossa rotina.

Pode parecer estúpido, mas quando digo que ainda te amo, levemente um sinal em algum lugar do meu coração é interrompido. Tenho medo disso, e somente quando meus dedos roçarem sua carne e cabelos, meu nariz sentir seu cheiro perfumado, meus ouvidos escutarem sua voz um pouco rouca, e meus lábios descobrirem novamente as delícias de seu sabor, saberei, se tudo que tenho pensado e sonhado é real.

Não vou me despedir com as mesmas frases, isso não é uma reza. Dentro de três dias estarei aí, na sua cidade, e almoçaremos nalgum dos restaurantes que você tanto se gaba por jantar, como conhecerei seu apartamento onde você dá suas festinhas, seus amigos mais próximos, os lugares que frequenta, as ruas por onde você anda e tira tantas fotos lindas, sempre acompanhada por alguém que você jamais me conta quem é. Talvez não será um sonho.

Aliás, quero que você me leve naquele lugar cheio de esculturas que brilham ao sol, logo após uma passagem de um túnel, onde você me disse que teve a impressão de já ter estado e que não fora um mero “Déjà vu”.

Você sabe que não acredito nessas coisas, não é?

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