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Travesti e doutoranda da Unicamp, Amara Moira lança seu primeiro livro ‘E se eu fosse puta’ para colocar o debate da prostituição e da transfobia no centro dos movimentos sociais

Acompanhamos o lançamento do livro ‘E se eu fosse puta’ (Hoo Editora) da travesti Amara Moira, que aconteceu semana passada em uma livraria em São Paulo. Plateia lotada e animada com o super bate-papo comandado pela própria Amara em conjunto com a cartunista Laerte Coutinho, a escritora Clara Averbuck, a MC Linn da Quebrada e com a prostituta e ativista, Monique Prada. Agora a gente conta qual a  nossa persepção sobre o livro, um pouco do que rolou no lançamento e  aproveitamos para destacar alguns trechos do que foi falado pela Amara no lançamento. Enjoy!

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Amara Moira, Laerte Coutinho, Clara Averbuck, Monique Prada e MC Linn da Quebrada durante o lançamento do livro ‘E se eu fosse puta’ – Foto: Carina Cristofoli

Sento no chão do auditório e folheio o livro enquanto meus amigos arrumam as câmeras. Leio as primeiras páginas consumida por um curiosidade imensa e me deparo com um trecho que não sai da minha cabeça até agora e, se me permitem um pequeno spoiler, é o seguinte: “`[…]De repente descubro que isso é talvez a única profissão que, enquanto travesti, terei fácil pela frente. Sou tratada como puta bem antes de me assumir puta, quase uma tatuagem na testa: bastou me verem travesti e já começa o assédio[…]”.

Fechei o livro, o evento ia começar, mas antes de apertar o REC da câmera, pensei: A sociedade não reconhece o valor de uma mulher trans ou travesti, mas consegue, sem qualquer parcimônia, lhe dar um preço.

Amara promove uma íntima reflexão e nos faz pensar na condição precária que muitas mulheres trans e travestis vivem. Em sua maioria, expostas o tempo todo à violência, intolerância religiosa e ao preconceito.Também escancara o lado obscuro da natureza masculina, aquilo que “fica por trás da máscara”. Vai desde o homem que discretamente pergunta o preço do programa porque é casado a até como ele age depois de gozar.

A narrativa é pulsante, poética e obscena. Às vezes choca, às vezes nos faz rir e às vezes nos envolve em uma nuvem de melancolia. Um livro singular escrito por uma mulher feita de plurais, tem um pouco de tudo e é repleto de verdades.

“As prostitutas vos precederão no reino de Deus” diz Mateus 21:31 e foi o que a religiosa e escritora Maria Valéria Rezende disse à Amara quando lhe conheceu. A passagem ganhou um destaque carinhoso nas primeiras páginas do livro. O prefácio foi escrito pela travesti  Indianara Alves Siqueira, atual candidata a vereadora no Rio de Janeiro, e o posfácio por Monique Prada. Laerte também contribui com tirinhas exclusivas.

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“Eu vou estar lá [na prostituição], mas eu vou também contar para todo mundo. Quero que todo mundo participe desse processo, eu quero que todo mundo saiba como é um dia na rua, como é [estar] no quarto com o cliente. Como ele se comporta quando ele paga, quando deixa de pagar, depois de gozar. Eu quero saber como é tudo isso antes de simplesmente ouvir falar  ou imaginar. Eu quero saber, quero contar e conseguir colocar isso no papel.”

Amara não parece ter  tido uma vida tão complicada, no sentido de ‘sofrida’, extrema pobreza, como as travestis retratadas na obra de Don Kulick, por exemplo. Ela reconhece isso e,  longe de se colocar numa posição de vítima, é franca ao afirmar que a prostituição aconteceu tanto por vontade de se sentir desejada, mas também como uma espécie de escola para entender de forma  literal  o que essas mulheres enfrentam nas ruas.

“Teve um pouco de desejo meu de estar nesse lugar proibido e de peitar um pouco o quanto isso era absurdo[…] O que mais me dava medo era me colocar nesse lugar de prostituta, eu pensava: aí perco minha família, amigos, direito de continuar estudando, o direito de ter outras profissões. Eu gosto de pensar na ideia de me ver como professora, mas na sociedade na qual a gente vive, parece que uma vez puta, nunca mais professora.”

A baixa auto estima também foi um desafio que Amara precisou enfrentar no começo da transição. Ela relata as angústias das primeiras transas, as dificuldades de sua transição e como a escrita lhe ajudou a liberar as frustrações que enfrentava.

“Minhas amigas falavam para mim: – Vem pra rua com a gente, faz seu dinheiro para você colocar seu peito, comprar suas roupas, sua maquiagem pra você apressar sua transição. E eu gostava dessa ideia! As vezes em que ia trabalhar, por mais que fosse violento, eu voltava para casa com raiva, escrevia sobre aquilo, a raiva passava e eu voltava lá outra vez.”

Toda essa experiência deu mais fôlego para o ativismo de Amara que, militante já há alguns anos em uma frente LGBT da Unicamp, agora se prepara para as eleições, na qual concorrerá ao cargo de vereadora em Campinas pelo PSOL.

 

“A minha expectativa é que agora [a partir da publicação do livro] a gente sinta vontade de conhecer as histórias delas. Eu quero que junto comigo agora venham as outras histórias. Eu quero que venham cada vez mais histórias e não histórias simplesmente da gente chorar as pitangas ou falar como a gente sofre…”

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