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Temporada 1 - Episo_dio 2
Conto: Robson Alkmim | Ilustração: Filipe Rocha

T. observa o céu noturno da janela de sua casa no meio de uma cidade cinzenta. Suspira angustiada para as estrelas que iluminam seu corpo nu. O marido ronca na cama do casal. As crianças, num outro quarto, dormem há horas. O calor é intenso e o ventilador no teto gira incessante.

O que faz T. acordada tão tarde já que logo pela manhã tem que ir para o trabalho na secretaria do governo da cidade? Nem ela sabe ao certo a dimensão daquele seu estado. Mas há um bom tempo uma colega-nerd-fofoqueira lhe confidenciou sobre uma descoberta astronômica revolucionária!

– Qual? – Quis saber T., enquanto terminava um relatório para um político.

– Menina, você não viu, descobriram um planeta azulado, parece que tem três quartos de água em sua superfície, que emite luz e sinais de rádio?

– Como assim? Onde?

– Hum, aí é que está, criatura. O tal planeta fica há uns vinte mil anos de distância daqui.

– Não é tão longe.

Ambas imaginaram a distância em silêncio. Então, T. olhando para a colega lhe diz que bom seria morar num lugar onde o tempo fosse menor. A colega ri e responde que não adiantava viajar, nos dois sentidos, para tal mundo: – É impossível chegar lá, e mesmo que seja possível daqui uns mil anos, que tipo de monstros poderia encontrar?

T. sentia-se sozinha em sua rotina de trabalho e família para uma jovem de 120 anos em seu planeta. Repetia constantemente para si o mesmo monólogo: “As mulheres aqui sofrem demais, tem muito preconceito em todo lugar, ganham menos do que os homens. Briguei com meu marido para trabalhar e não ficar em casa cuidando de coisas mortas esperando os vivos chegarem.” Além disso, somava-se o que ela tinha que ouvir: – Querida, o café da manhã já está pronto, não posso me atrasar para a reunião, aliás você deu uma engordadinha, não?… Mamãe, cadê meu uniforme?… Senhora, seu cartão estourou o limite… Minha filha, você anda tão pálida e magra, tão murcha, devia se preocupar só com a família… E a T. hoje, tão blasé que nem me deu bom dia, veio de bad hair day, uó, um caco, né menina? Coitada…

Inevitável que T. pensasse compulsivamente no tal planeta distante e possivelmente habitado por outros seres. Insatisfeita com a vida, carente num relacionamento tedioso e trabalhando em algo que odiava, começou a pesquisar tudo sobre o assunto que havia saído na imprensa e descobriu que os cientistas deram o nome de P140-B-C2 ao planeta descoberto. – É bonitinho, nem é feio e esquisito como esse – observou. Não havia muito mais informação concreta, logo, sobrava-lhe a imaginação.

Começou a fazer paralelos entre a história de seu planeta, que considerava um fracasso, e a projeção de uma vida diferente no outro mundo: “sem hierarquia ou dinheiro; sem deuses e fanáticos; sem políticos e corrupção; sem poluição ou pobreza; talvez nem patrões para atazanar a vida. Um mundo sem mortes, violência, guerras, preconceitos, tristezas infinitas, que coisa linda!”

T. regozijava-se em seus sonhos. Começou a não se importar muito com as crianças e o marido, por vezes nem se levantava cedo para preparar os lanches matutinos. Chegava atrasada ao trabalho e ganhava de brinde broncas calorosas do chefe, alimentando as fofocas das colegas. Passava horas lendo histórias de ficção científica.

As Ciências penetraram naquele espírito feminino até então subserviente às regras de sua sociedade. T. quis ir além. Estudava Física, Química, Matemática, Astronomia, ao ponto de se envolver com um professor da faculdade onde iniciara um curso sobre Ciências Generalizadas Universais Infinitas. Ela o amava, entregava-se completamente; ele a achava gostosa, só queria comê-la. Ela se sentia livre por não sentir culpa; ele ficava melindrado, era casado. Um dia ele mudou de faculdade e T. ficou só. Abandonou o curso e tentou curar seu amor irremediável num tratamento elétrico cerebral (tratamento muito moderno). O coração lhe doía, mas sabia que o problema ficava na cabeça. O marido, cuja prioridade era seu trabalho como médico, nunca soube de nada e apesar de estranhar a mudança repentina da mulher, preocupou-se somente em contratar uma empregada para dar conta da limpeza da casa e uma babá para as crianças.

Com as lembranças do amante apagadas (tratamento bastante eficaz), as Ciências continuaram a despertar em T. a esperança de que pudesse, por conta própria, inventar uma nave que pudesse ter combustível “para ir longe, por anos, durante vidas, ultrapassar gerações e talvez nunca chegar…”, desanimou, e logo chegou a uma conclusão: “Nem robôs suportariam. Não há atalhos no Universo. Nunca ganharei um prêmio nem reconhecimento às minhas descobertas para a comunidade científica.” T. suspirou e desistiu, entre o delírio e a realidade, tentou conviver sem muito sucesso com a verdade da segunda.

– Planetinha azul tão bonitinho. Pecinha preciosa em meio a essas bilhões de estrelas, por que moro aqui, por que nasci aqui, me leve para ti, Nova Civilização… – E na janela T. suplica desejo, acaricia o ar com as mãos, recosta seu corpo no parapeito abrindo os braços, com os seios ao mundo, não se importa que a vejam, quer seduzir o Universo, ser um vulto a voar para onde bem entender, ser outra.

O marido ronca alto e acorda. T. se assusta, volta-se para o quarto com ódio. Olha para o marido que a observa sonolento. Também nu, o homem se senta na cama, faz um gesto para a mulher se aproximar; T. fica manhosa, senta-se junto ao marido. Ele acaricia a coxa da esposa. – Eu não sei para onde você ia, mas eu já desaprovo. – Diz ele sorrindo e abraçando T. que tenta resistir, falar algo, transmitir sua agonia, contar sobre a traição, qualquer coisa, qualquer coisa! Mas acaba deitando com ele na cama. Enquanto simula prazer por todo o corpo, T. imagina seu marido com outra cor, outra textura de pele, outra cor de olhos, outro tamanho, outra voz, outra virilidade. Viaja sem fim para dentro de si a grande velocidade, por milhares de anos-luz. T. deseja ser um cometa rompendo no planeta azul, seu único amor.

 

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