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Existem livros que captam com precisão a mentalidade jovem. Tanto na maneira de expressar a linguagem coloquial desta faixa etária, quanto às suas excitações e angústias. Foram estes elementos que renderam ao livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, o status de clássico. E é neste formato que o autor inglês Julian Barnes, 66 anos, inicia seu livro O sentido de um fim, premiado com o Man Booker de 2011.

sentido

Como no romance de Salinger, o protagonista de O sentido de um fim tem na juventude a sensação de não se encaixar na sociedade em que vive. Prova disso é o fato de Anthony – nome dado ao protagonista de Barnes – passar sua juventude na Inglaterra dos anos 1960 e de certa maneira não experimentar a liberdade clamada por muitos de seus contemporâneos: ele não se drogava ouvindo Rolling Stones e suas experiências sexuais eram limitadas. Tais lembranças deste protagonista ocorrem na maturidade e permeiam toda a obra. Assim, Anthony, aposentado e com tempo livre, reflete a respeito da memória. Que, para ele, é fugaz e ao mesmo tempo desperta sentimentos profundos.

Como quando recorda dos tempos de faculdade, em que teve um conturbado relacionamento com Veronica. Jovem de personalidade enigmática, por quem Anthony se sentia inferiorizado – sentimento que aumentou quando Veronica o trocou por seu melhor amigo, Adrian.  Além de ser o melhor amigo, Adrian era quem Anthony considerava o mais inteligente da turma e, mesmo após a traição, sentia pelo amigo uma espécie de devoção. Não por acaso o suicídio deste personagem foi outro acontecimento marcante para o protagonista.

Ate certo ponto do livro, Anthony reflete sobre estes acontecimentos de forma equilibrada. Segundo afirma, a história é feita “das lembranças dos sobreviventes, que, geralmente, não são nem vitoriosos nem derrotados”. Porém, este equilíbrio é quebrado quando recebe uma herança da mãe de Veronica, a jovem com quem namorou no período da faculdade. Na tentativa de desvendar os motivos de ter recebido esta herança, Anthony retoma contato com Veronica, após 40 anos. A partir deste ponto, revelações perturbam o personagem central, que passa a duvidar de sua própria história de vida.

Anthony se depara com a fragilidade existente nas lembranças, já que o contato com a ex-namorada revela que foi traído por sua memória e, desta forma, tem suas certezas destruídas. Assim, ele se coloca na obrigação de reavaliar todas as relações que possui na maturidade e as que teve no passado. Tenta compreender quem foi como amante, amigo, pai.

E faz isso de maneira quase punitiva, com severas críticas a si mesmo. De certa forma os principais acontecimentos da juventude do personagem central, como o namoro com Veronica e o suicídio de seu melhor amigo, Adrian, foram tão impactantes que ajudaram a moldar sua personalidade. Quando novas descobertas sobre estes acontecimentos ocorrem, Anthony tem que rever questões como memória e responsabilidade. E, para ele, este novo cenário não é animador.

julian

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