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Podia ser uma reinterpretação de 1984, do George Orwell, mas era a manchete do jornal The Washington Post: “NSA busca construir computador quântico capaz de quebrar todo tipo de encriptação”. No texto, baseado em documentos fornecidos pelo Robin Hood da nova geração, Edward Snowden, os jornalistas afirmam que a existência de um computador com essa capacidade ainda é lenda. Mas só de existir a ideia de criar uma supermáquina que possa ver absolutamente tudo, uma gota de suor nervoso pinga da testa. Pior do que isso só se a Agência de Segurança Nacional americana quisesse ler nossos pensamentos.

“A ironia da computação quântica é que, se você pode imaginar alguém construindo um computador quântico que possa quebrar encriptação no futuro, então você precisa começar a se preocupar agora”, afirma, na reportagem do Post, Daniel Lidar, professor de engenharia eléctrica da Universidade da Carolina do Sul. Ou seja, CORRÃO para as montanhas — ou para algum lugar em que não pegue o wi-fi, a menos que você seja um cliente da TIM.

Foram com esses pedaços assustadores da realidade do século XXI que o escritor americano Dave Eggers criou uma paródia da nossa sociedade, com a obra The Circle.

No livro, o autor traz a história de Mae Holland, uma jovem que é indicada pela amiga a um emprego em uma grande empresa de tecnologia. Não é o Google. Mas é igualzinho, considerando o ambiente descrito. A companhia se chama The Circle e seu lema é: “Tudo o que acontece deve ser conhecido”. Os benefícios que a empresa fornece vão além do VR + VT. São gadgets de ponta, o melhor plano de saúde e produtos que outras empresas enviam para os funcionários, porque, afinal, eles trabalham na The Circle e são formadores de opinião. É tanta coisa que dá vontade de morar lá. E, de fato, alguns moram, porque a empresa tem dormitórios. Esse é o paraíso para a jovem que até então trabalhava na companhia careta de gás e luz da sua cidadezinha.

A coisa começa a complicar quando Mae passa a ser cobrada por uma presença mais constante nas redes sociais. Ela é uma ótima funcionária, mas se mantém tão ocupada com o trabalho que não compartilha nada na rede, não posta fotos, não participa dos grupos de discussão online… Para uma empresa de tecnologia, isso é uma ameaça ao emprego.

Um dia, Mae é chamada pelo chefe para explicar por que não foi a um jantar que ela nem sabia que tinha sido convidada — provavelmente porque o convite se perdeu no entulho de notificações. Mesmo assim o organizador do evento ficou profundamente magoado. Que nem aquele amigo que mendiga curtidas ou aquele pessoal que troca likes e segue de volta no Instagram. É esse tipo de narcisismo técnologico que The Circle expõe, mas vai além.

Para mostrar que está ~antenada~ a personagem começa a interagir em todas as redes possíveis. E, com um produto novo, a empresa só aumenta sua influência. É uma câmera que as pessoas podem usar no pescoço, fazer transmissões online ao vivo e, assim, mostrar a todos que não escondem nada.

Não dá pra julgar. Postar cada respiro no Instagram, cada linha de pensamento no Twitter e cada opinião no Facebook é quase a mesma coisa que usar uma câmera no pescoço. Quase. A diferença é que a câmera mostra quem você realmente é, e não uma versão Kate Moss de você.

Emitir quase 24 horas da vida, na obra, não parece ser absurdo. Afinal, você esconde alguma coisa? Se não esconde, então prova. Por isso, a ferramenta começa a ser usada em massa por políticos e pela própria Mae, como uma forma de mostrar transparência. Três importantes argumentos difundidos pela empresa logo se tornam recorrentes: “segredos são mentiras”, “compartilhar é se importar” e “privacidade é roubo”.

Na obra, isso faz sentido. E, com esses argumentos, a empresa ganha espaço para fazer coisas que parecem absurdas para qualquer pessoa. Mas, hey, nós já estamos acabando com o resto de privacidade que nos resta na vida real e, como os personagens do livro, parecemos não notar. Até porque nós somos cada vez mais direcionados a isso.

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Os Malvados, André Dahmer

No livro The New Digital Age, Eric Schmidt, presidente do conselho admistrativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da companhia, fizeram algumas previsões sobre o futuro da internet. Uma delas afirma que com apenas uma busca será possível encontrar TODAS as informações sobre uma pessoa na rede. Qualquer um que stalkeou um flerte sabe que já dá para achar muita coisa. Mas TUDO? SIM, TUDO, NÃO PRECISA GRITAR. As informações vão ser direcionadas a um único banco de dados e aí vai ser fácil.

Viver recluso, jogando futebol de botão com o seu avô não vai adiantar. Ainda segundo os caras do Google, o governo vai criar uma lista de pessoas offline, que não interagem em rede, que não curtem fotos de gatinhos e nem compartilham versões de “Beijinho no Ombro”. Afinal, se não posta nada é porque tem alguma coisa para esconder. “Elas poderão ser submetidas a um conjunto de regras diferentes, como revista mais rigorosa no aeroporto ou até não poder viajar para determinados lugares”, afirmam no livro.

Claro que os escritores podem ser acusados de ter fumado maconha demais antes de escrever isso. Mas o que é o futuro senão uma grande brisa na qual qualquer coisa pode acontecer? De qualquer forma, esse é mesmo um futuro para o qual a realidade parece apontar. É só lembrar dos documentos que o Snowden vazou para o The Washington Post sobre a PRISM, aquela operação que permite ao governo dos EUA ter acesso aos dados de qualquer usuário do Facebook, Google, Yahoo, Apple, Microsoft… Enfim, de todos, menos do Bol, ao que parece.

É obvio que o Obama tem coisa mais importante para fazer do que ver fotos do pênis que você enviou pelo Snapchat, depois de chegar bêbado em casa e entrar no Tinder em busca de alguém para amar. Mas ele pode, se quiser. E é isso que assusta: a possibilidade de não poder se esconder em lugar nenhum.

Ou como bem lembrou o jornalista Steven Levy, em reportagem da Wired: “Os vazamentos de Snowden põem em causa o papel da internet como símbolo de liberdade e poder. Se ela é vista como um meio de vigilância generalizada, a paranoia que resulta disso deve afetar o modo como as pessoas a usam”.

E é isso o que The Circle nos faz enxergar.     

O livro foi lançado no final do ano passado, nos EUA, e fez barulho. O autor, Dave Eggers, é dono da editora McSweeney’s e criador da revista literária The Believer. Não é estranho, portanto, que uma crítica tão corrosiva sobre a tecnologia venha dele. O livro é uma espécie de 1984 moderno, como aponta quase todo texto sobre a obra, inclusive esse. A diferença é que o cenário da história de George Orwell é um futuro distante e utópico. Enquanto o que se vê no trabalho de Eggers é uma versão exagerada da realidade. Como se a sociedade pegasse um espelho e visse o reflexo da Donatella Versace. O horror, o horror.

Antes do livro virar um filme ruim com o Nicolas Cage, a Companhia das Letras já anunciou que vai lançá-lo no Brasil, no segundo semestre de 2014, com o título… O Círculo.

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