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Essa é a história da vida de dois meninos oriundos das periferias de São Paulo que têm um sonho em comum: se expressarem — e serem ouvidos — através do Funk. Arthur, o MCIFRÃO, e Lucas, o MC MAIOR, cada qual num extremo da cidade, identificam-se pela persistência de quem vive uma vida sem amaciante.

TEXTO | TABATHA MAIA E YURI DINALLI

FOTO/REPRODUÇÃO | Vila Pirajussara – Taboão da Serra

Quem vem das periferias da cidade não leva vida fácil, isso é irrefutável. A falta de acesso, investimento, assistência, saneamento e moradia, preceitos básicos para a sobrevivência, se contrastam com o baixo incentivo à cultura e ao entretenimento, elevando os números de crimes e homicídios. Onde não se tem arte, a violência vira espetáculo.

A pesquisa Cultura nas Capitais de 2018, por exemplo, aponta que, em São Paulo, 83% das pessoas que se declararam como pertencentes da classe A mantiveram o hábito de ler periodicamente nos últimos 12 meses, enquanto, das pessoas pertencentes às classes D e E, apenas 49% apresentaram o mesmo costume. Mas, apesar desses abismos sociais, a busca por fugir à regra dá o gás necessário para jovens periféricos escolherem a arte e, mais precisamente, o funk, como trilha sonora de suas vidas. E tudo começa na quebrada, como uma brincadeira.

MCIFRÃO, DE TABOÃO

Nossa trajetória se inicia 20 quilômetros distante do marco zero da capital paulista, o Pátio do Colégio. Uma hora de carro, duas de transporte público e quatro horas de caminhada separam Taboão da Serra da zona central da Cidade de São Paulo. Localizada no sudoeste do mapa, Taboão, que fica bem ao lado do município de Embu das Artes, não obstante a proximidade com o trocadilho, revela artistas premiados como a atriz Naruna Costa, o bailarino Rubens Oliveira e tantos outros nomes da música, como o rapper Rico Dalasam.

É justamente de lá, desse cantão paulista, que vem o artista Arthur Julio de Lima, conhecido na quebrada como MCifrão. Ainda na infância, Arthur, hoje no ague dos seus 18 anos de idade, já se sentia totalmente abraçado pelos batuques e levadas e a proximidade com a música era algo inevitável. Seu pai atuava como intérprete de escola de samba e suas irmãs, passistas. Além disso, seu tio escrevia letras de samba de enredo, o que fez com que ele, desde moleque, se sentisse atraído pelo universo mágico das artes de cantar, tocar e compor. “Eu tocava na bateria e acabei me interessando por essa área da música […] sempre gostei muito da questão do ‘criar’, escrever”, relembra ele, como sonhasse um sonho real.

O MAIOR, DE OSASCO

São vinte e oito quilômetros e um metro que separam nossas personagens. Apesar da distância, há muito mais proximidade que afastamento. No município emancipado de Osasco, zona Oeste, coincidentemente — ou não — também há 20 quilômetros do centro histórico, entre os quase 700 mil habitantes que se acomodam, bem ou mal, em 64 mil quilômetros de terra reside Lucas, o Mc Maior. Essa mesma Osasco também é palco para nomes como LAY, rapper militante das causas feministas, e Caio Prado, um dos fundadores do extinto Nosso Samba, um encontro de sambistas que no início dos anos 2000 se reuniam para cantar suas composições e acabaram por originar diversas outras comunidades, como o Samba da Vela, por exemplo.

Tão emancipado quanto o município em que reside, e tão talentoso quanto as figuras artísticas que nele se criaram, Mc Maior, um garoto de 24 anos que conheceu o ritmo funk através de seu irmão, numa época em que o Black Charm e o Axé tomavam conta dos bailes nas favelas, acredita que a liberdade de expressão é a maior marca do ritmo. “A gente fala o que muitos não têm coragem de falar e defende o nosso povo. Não fazemos música pra mídia e isso, pra muitos, é um problema.

Quando mais velho, Lucas conheceu a música de Mc Zoio de Gato, que fez com que ele se reconhecesse enquanto artista e o inspirou a mais e mais apostar na carreira musical. Em 2009, após o falecimento de Zoio de Gato num acidente de carro, além de todas as dificuldades que Maior já enfrentada por conhecer de perto os problemas sociais inoculados no coração da periferia, ele conviveu com a tristeza de perder um ídolo. Mas foi justamente desta inquietação, deste desconforto, que surgiu a inspiração necessária para se tornar um Mc.

DE OSASCO A TABOÃO, caminhos que se cruzam

Arthur e Lucas, além de jovens, moradores da periferia, compositores, MC’s e amantes do Funk, têm mais uma coisa em comum: a vontade como força criadora. Quando Arthur tinha 10 anos, na escola, em uma apresentação do Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e a Violência), ele foi desafiado a criar pela primeira vez. “A professora perguntou se eu conseguia escrever uma música relatando algumas coisas”. A música, rebento caçula do ainda nem nascido Mc Frão, falava sobre os malefícios das drogas, de maneira a conscientizar quem a ouvisse. O que parecia apenas uma brincadeira foi o pontapé inicial para que, de maneira completamente amadora, ele desse início na carreira. O acontecimento lhe rendeu a primeira aparição enquanto artista na imprensa local, quando saiu no jornal de Taboão.

Já Lucas, depois de lamentar o falecimento de sua maior referência, Zoio de Gato, de sentiu desafiado também, mas de uma outra maneira. Por que não seguir os passos de seu ídolo? Isto posto, Mc Maior começou a compor e, rapidamente, fazer os primeiros shows; seu sonho estava começando a se tornar realidade. E essa alegria imensurável começou justamente de onde ele se descobriu: na quebrada. Nos shows, ele sentia uma energia inexplicável, algo que o contagiava, era um público que o apoiava e o fez ter mais certeza que ele estava no caminho certo. Mais uma vez, a comunidade sendo o empurrão necessário para seguir em frente.

Para ambos, o funk se tornou uma forma de expressão, um meio de defender a comunidade que os acolheu desde o nascimento, de reivindicar os desejos dos menos favorecidos e mostrar ao mundo que o Funk é um ritmo que, para além das batidas envolventes, é um ritmo de reinvindicação, uma cultura de empoderamento.

NEM TUDO SÃO FLORES, mas seguimos firmes

A arte na periferia não é bolinha de gude no chão acarpetado da sala de estar. Esses artistas vivem uma vida sem amaciante, se equilibrando numa tenra corda bamba que os faz, constantemente, vacilar entre as escolhas. Ambos, tanto Mc Frão quanto Mc Maior, além de todas as semelhanças já expostas anteriormente, têm seus problemas pessoais e familiares, acontecimentos que interferem diretamente na forma com que trabalham sua arte. Muitas vezes, aquilo que você deveria priorizar, não é necessariamente a prioridade da sua realidade.

Lucas, muito cedo, em decorrência de uma doença renal que acometera seu pai, foi trabalhar. Fez de um tudo: De feirante a ajudante em construções. Mais tarde e melhor organizado, encabeçou um movimento de ventos na sua região e conseguiu, a partir da renda arrecadada nessas atividades, comprar o seu primeiro carro, que hoje utiliza para trabalhar como motorista particular, vida que concilia, a duras penas, com a carreira de Mc. Para ele, o carinho de seus fãs é que ele precisa pra seguir em frente. Ao se sentir abraçado por sua comunidade, se sente forte para continuar a trabalhar em seu propósito de vida.

Arthur, por sua vez, também muito cedo foi pegar no batente e, até hoje, apesar da vontade de crescer como artista, tem que se desdobrar em mil facetas para conseguir se sustentar e ajudar sua família em casa. Vivendo de bicos que vão de ajudante de pedreiro a copeiro, passando por garçom em festas e lavador de louças, ele não hesita em dizer que faz de tudo e não tem medo do trabalho. Perguntado sobre o seu maior sonho, ele não titubeia:

“Meu sonho é deixar de ser local. Expandir. Primeiro para São Paulo e, quem sabe, pro mundo. Busco cada vez mais ter mais conhecimento pra passar para as pessoas, mas busco também a fama e que, com ela, venha também o dinheiro para que eu possa ajudar minha família”.

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