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Quem desce a Major Diogo, na Bela Vista, e se depara com a porta dupla de madeira que fica localizada entre salões de cabelereiro, prédios antigos e em frente a outros bares, desses que dão para a calçada, onde se come torresmo e caldo de mocotó, não imagina que ali, pra dentro daquelas ripas, mora um reduto de música, petiscos e boa gente.

A placa entalhada em madeira, com os dizeres “Toca da Capivara”, é pouco para expressar o porquê deste ser um dos lugares mais queridos do Bixiga.

FOTOS | GABRIEL ALEXANDRE

Como fosse um portal para outra dimensão, no momento mesmo em que você adentra o recinto do aconchegante salão, tem-se a impressão de coexistir numa nova ambiência, talvez noutro espaço-tempo, algo que foge à realidade da correria de São Paulo, por exemplo. A tonalidade amarelada da tinta que cobre as paredes em conformidade com as prateleiras de madeira que abrigam miudezas, bonecas, instrumentos e artigos de um passado possível, conferem àquele espaço ares de casa no campo, nas montanhas ou interiores do Brasil.

A Toca da Capivara é obra da cabeça de Victor Balint, 29 anos, Cientista Social pela FFLCH — USP, Professor de Sociologia e, por último, mas não menos importante, Barista. Ele remonta o seu passado recente, lembrando de quando dava aulas na rede de escolas do Estado, onde atuou por 4 anos consecutivos. Refazendo este retrato, ele acaba por evidenciar as dificuldades enfrentadas pela classe dos professores, desde os baixos salários à falta de investimento e incentivo que se dá aos alunos.

“Eu dava 20 aulas por semana e ganhava R$1400,00. Os alunos acabam, ao longo do tempo, não prestando tanta atenção nas aulas e isso, com o passar dos anos, acaba ficando meio depressivo.”

Por conta disso, enfrentou uma pequena luta interna, por se ver como um amante das relações interpessoais, da convivência com as pessoas, do fato de sempre gostar de “lidar com gente” mas acabar vendo que “as coisas não funcionavam”. A respeito disso, durante uma conversa que teve com seu pai, onde este o perguntou se ele não teria vontade de fazer nenhuma outra coisa além de lecionar, ele, de pronto, respondeu que gostaria de abrir um bar. “Tinha certeza que se eu abrisse um boteco isso daria certo. Fiquei com isso na cabeça, depois dessa conversa.”

Este fato se deu, pelas memórias de Victor, há 5 ou 6 anos. E foi justamente neste meio tempo que um dia, ao descer essa mesma Rua Major Diogo, neste mesmo bairro da Bela Vista, citados anteriormente, que ele se deparou com uma garagem que estava alugada e sendo usada por uma costureira. A garagem, no caso, hoje abriga a Toca da Capivara. Conta que o espaço era de seu avô, e que essa costureira deixaria a locação no final do ano em questão.

“Eu perguntei pro meu pai se meu avô deixaria eu montar um bar ali (aqui). Ele disse que talvez não teria problema.”

Victor Balint, 29, responsável pela Toca da Capivara

INÍCIO DO INÍCIO

Sem mais delongas, ele conta que conversou com seu avô, que prontamente liberou o espaço para ele dar vida ao que hoje se conhece por Toca da Capivara, nascida no mês de setembro do ano de 2015. Victor nos diz que, no começo, o espaço era muito menor, quase que exatamente a metade do que é hoje. Num exercício de abstração, imagine que o balcão era no lugar exato onde hoje é o salão, na metade da casa. A entrada era ampla, pois, no estilo de garagem mesmo, era protegida apenas por uma dessas portas de aço de enrolar, e “a galera ficava na rua”, conforme lembra. Mas não era só isso o que evidenciava o amadorismo de todo e qualquer começo. O Barista comenta que, no começo, não tinha a menor experiência com a rotina de um bar, a não ser pelo fato de ter organizado alguns eventos quando ainda era universitário.

“No começo, eu gelava a cerveja em baú com gelo (risos). Calculava os preços errados, por que achava que era só colocar 3 reais em cada cerveja que eu estaria lucrando, mas não pensava em água, luz, funcionários etc”

Para a empreitada, ele convocou seu amigo Daniel Perez afim de estabelecerem sociedade na casa e, juntos, deram vida ao botequim. Durante a concepção da Toca, Victor lembra que buscou um pouco de inspiração em dois bares que gosta muito, A Juriti, que fica localizado no bairro do Cambuci, e o Bar do Luiz Nozoie, na Cursino, ambos tradicionalíssimos em São Paulo. E isso, principalmente, pensando no que seria servido no bar. Assim sendo, se inspirou no padrão de petiscos frios que estão a disposição nestes botequins. “Tentativa e erro”, como nos disse. O nome, que chama a atenção, “não tem nada de muito especial”, de acordo com o próprio Victor, e, segundo ele, é fruto da junção da extinta “Toca da Onça“, bar muito comentado por seu falecido avô Adhemar e do fato de, nas suas idas à FFLCH, na USP, ver muitas capivaras às margens do Rio Pinheiros, animal que sempre achou “muito simpático”. Assim, o nome “Toca da Capivara” lhe soou bem, e ficou.

Uma vez aberto o bar, era hora de arranjar um motivo para as pessoas irem até ele, além da bebida, petiscos e boa gente. E não há motivo melhor senão o samba, claro. Por meio de uma amiga, a Isabel Seki, apelidada “Brisa”, que Victor conhecera nas rodas de samba de São Paulo por volta de 2007, como relembra, é que eles pensaram numa roda de samba para a Toca. Ela, percussionista, tratou logo de armar o time. Deste encontro, surge o grupo “Bixiga Não é Só Arranha-Céu”.

O SAMBA PEDE PASSAGEM

À época, para a formação da roda, Brisa convocou os músicos Douglas, cavaquinista, Rodrigo Alves, violonista e os percussionistas Parrera de Jesus e Wilsão. Os encontros aconteciam, impreterivelmente, aos sábados, indo de meados da tarde até o cair da noite, onde diversas figuras do samba de São Paulo se aninhavam à roda para tocarem, cantarem e beberem a vida. Rapidamente o movimento caiu no gosto popular, e os sábados na Bela Vista nunca mais seriam os mesmos. A casa, que já era pequena, foi ficando cada vez menor para comportar o tanto de gente que ia até lá em busca de boa música, encontros casuais e, claro, a boemia inveterada.

“A roda começou, assim, a funcionar. Acho que como a cidade estava muito carente de espaços abertos de rodas de samba onde a galera pode chegar, aquilo começou a pegar, aquela roda de samba democrática, onde todo mundo podia vir”, ressalta.

O Samba do Surdo Manco

Dali a pouco o samba, que só acontecia aos sábados, após seis meses de Bixiga Não é Só Arranha-Céu, passou a acontecer também às sextas, com a galera do Samba do Surdo Manco, que por acaso do destino estava se apresentando no dia em que o #BaresDaCidade visitou a Toca da Capivara. “Eles começaram junto com a Toca”, enaltece Victor, com orgulho. Quando questionado sobre o porque do samba e não outro ritmo musical, o Cientista Social rememora a catarse que viveu ao conhecer o extinto [mas não por muito tempo!] Bar Pau Brasil, na Vila Madalena e, posteriormente, o Samba do Ouro Verde, em Santos-SP. Comemora uma de suas maiores alegrias enaltecendo que, no aniversário de um ano do bar, foi o Ouro Verde quem comandou a festa.

Provocado a respeito da importância da cultura popular como um todo, Victor reflete sobre o tempo em que nos encontramos, onde “a gente vive uma ausência de significado das coisas”, trazendo, justamente, a cultura popular como sendo a “questão de ter uma coisa emotiva, que vai além do mero entretenimento”. Sobre a boa convivência na Toca, ele se regozija do fato de, numa cidade grande, onde muitos buscam o anonimato, todos acabarem se conhecendo e vivenciando experiências de proximidade.

“Você vem num bar onde todo mundo te conhece pelo nome, vê rostos conhecidos, todo mundo te cumprimenta com um sorriso… isso faz as pessoas se sentirem em uma comunidade. Essa é uma das principais missões do bar. Trazer esse tato humano que vai muito além de ir num bar, beber, pagar e ir embora. Aqui é uma grande suruba social”, brinca. “Todo mundo se conhece e conversa com todo mundo. A galera gosta disso.”

CRESCENDO PRA TRÁS

Com o tempo, de acordo com o que já fora dito, a Toca, que já era pequena, acabou ficando ainda menor para a quantidade de público que começou a angariar. A partir daí, a coisa foi ficando desenfreada, a vizinhança começou a se incomodar e, cada vez mais, os problemas com a vigilância e o PSIU foram surgindo. “O pessoal reclamava de barulho, vinha a polícia, e eu estava sentindo que aquilo, em algum momento, ia dar ruim”, lembra Victor antes de dizer que, na concepção dele, independentemente de religião, Deus existe, porque, neste contexto, enquanto as dificuldades com relação a vizinhança iam se acirrando, ele conseguiu juntar a quantia necessária para reformar o bar, enquadrando-o nos padrões necessários para continuar funcionando.

“Quando eu consegui fazer a reforma, um mês depois o PSIU baixou aqui.”

Tudo mudou. No projeto, já que o bar agora ficaria com as portas fechadas e as pessoas deveriam se manter dentro dele, não mais na rua, a ideia era tentar expandi-lo, e a única maneira de fazer isso era crescendo pra trás. “Eu tive que colocar uma porta acústica. A cozinha era aqui, onde hoje é o meio da casa, e ali no fundo tinha um depósito largado. Pra onde eu tinha espaço pra crescer o bar? Pro fundo. Onde era a cozinha virou salão, e onde era o depósito virou a cozinha. Foi aproveitar o espaço que tinha”, explica Victor.

De maneira prática, ele nos conta que a mudança se deu, principalmente, para atender às normas da legislação, evidentemente. Estava se arriscando demais mantendo o bar com as portas abertas para a rua e isso poderia ocasionar num problema maior. Aproveita, ainda, para condenar o modelo atual de intervenção do Estado nas casas de show e bares, fazendo com que a corda penda para um lado específico, o dos baristas e produtores culturais. Lamenta o fato e deixa evidente que defende, sim, a implementação de algumas regras, mas que hoje em dia isso está beneficiando apenas um lado, o “mais quadrado”, nas palavras dele.

“Faço até um apelo: Se tiver algum Vereador que tenha a questão da cultura como um norte, que entre em contato com gente como eu, o Falanga da Barbosa, o Thiago da Dona Tati, os músicos, pra gente tentar organizar um movimento pra tornar isso mais democrático.”

Das mudanças na casa, porém, o espaço físico foi o que sofreu menos alterações, no frigir dos ovos. O público, o horário de funcionamento, a programação, praticamente tudo se renovou também. Quando funcionava de portas abertas para a rua, a casa, sem saber, era “regida” pelo Sol, e o público, por sua vez, era inevitavelmente mais diurno. Com a reforma, estando fechada, a Toca perdeu o Sol, ficando, inconscientemente, cada vez mais noturna. “Fui percebendo que, quanto mais tarde a gente fazia, mais gente mobilizava. Um exemplo: Agora eu to abrindo às 20h e fechando às 03h. Ontem, era 21h30 e tinham 6 pessoas na casa. A noite terminou com um público rotativo de mais de 150 pessoas. Eram 3h e eu tava tendo que expulsar a galera”, explica.

Na “nova” Toca da Capivara, além disso tudo, a programação é mensal e se mantém praticamente inalterada, mês a mês. Isso para, num primeiro momento, facilitar a logística do Victor, que atualmente toca a Toca, com o perdão do trocadilho, sozinho, a não ser pelo auxílio dos funcionários. Outro ponto que ele levanta é o da identificação.

“Se é uma banda que toca uma vez a cada quatro meses, não tem o mesmo carinho que um grupo que toca todo santo mês.”

DELÍRIOS DA BAIXA GASTRONOMIA

O famoso Bolinho de Areia

Quando o assunto é comida, os carros-chefe da casa são o Bolinho de Areia (bolinho de carne empanado) e o tradicional Cuscuz Paulista. São os mais pedidos, mas Victor diz que, aos poucos, estão implantando o Dadinho de Tapioca e um tipo de Kafta, o conhecido petisco à base de carne e especiarias. Como opções veganas, a casa traz, além do Cuscuz e do Dadinho de Tapioca, um Bolinho de Feijoada e as Onion Rings, anéis de cebola empanados com farinha e fritos em imersão. A ideia principal dos petiscos é a praticidade, tanto para quem faz, quanto para quem consome.

“O lance dos petiscos foi inconsciente, veio muito de frequentar A Juriti e Luiz Nozoie, e claro, da praticidade, tanto pra gente fazer, quanto pra quem consome. Tem que ser uma coisa pra comer de pé’, conta.

Em se tratando do bolinho, que é de fato uma preciosidade, a suculência e maciez de dentro, em contraposição com a perfeita crocancia que se encontra do lado de fora vão muito além de simples tentativa e erro. A receita original vem de Paranapiacaba. Victor conta que ia pra lá com frequência e, numa dessas idas, parou num boteco de beira de estrada para comer alguma coisa. Por lá, experimentou o tal do bolinho e de cara adorou.

Questionou o pessoal do bar sobre quem era o autor, e eles disseram que a receita era de um senhor que morava no bairro Capelinha, uma espécie de periferia na região do Riacho Grande, a caminho de Paranapiacaba. Ele conseguiu o telefone do tal senhor e foi procurá-lo. Conta que encontrou o autor da receita num “butecão pé sujo, onde tinha um cara de cabelo branco, vermelho de cachaça, jogando caça níquel e tomando uma dose de conhaque”. Este era o Senhor Alemão, o detentor das medidas perfeitas do tal delicioso bolinho.

“Ficamos muito amigos. Foi amor à primeira vista”

Victor nos disse que durante um bom tempo ia, aos finais de semana, encontrar o Alemão pra prosear e comprar os bolinhos, mas depois de algum tempo, em virtude dele assumir um bar na região, o dono da Toca fez um acordo com o senhor e acabou comprando a receita, que hoje é executada com maestria por sua mãe. Os Anéis de Cebola, por sua vez, apesar de não ser um petisco inovador e cheio de história, são muito bem executados, temperados na medida e fritos na temperatura ideal, fazendo com que a cebola caramelize perfeitamente por dentro e o empanado fique dourado e crocante por fora. Vale a pedida, obviamente.

Se o assunto é bebida, claro, não podemos deixar de falar da cerveja estupidamente gelada que é vendida na Toca da Capivara. São diversos rótulos, dos mais comuns aos puro maltes, artesanais etc. Também se pode degustar uma deliciosa cachaça, pois são vastas as opções. Obviamente o que chama a atenção são os galões de 20 litros da cachaça Galeão de Umburana e Mel e Umburana e do preparado de Cachaça de Cambuci que ficam postados no balcão. Todas, inclusive, muito boas, cada qual à sua maneira. A de Cambuci, que é feita a partir do fruto de mesmo nome, é produzida pelo próprio Victor.

Já que o assunto é drinque, a queridinha da casa é a Caipirinha. Servida nas versões cachaça, saquê ou vodca, sempre com frutas da época, a receita é de autoria de Daniel Perez, primeiro e ex-sócio de Victor Balint na Toca da Capivara. Vale ressaltar a perfeita harmonia entre a acidez do limão, o amargor da cachaça e o adocicado do açúcar, que faz deste drinque uma excelente opção para quem aprecia o bom e velho sabor da verdadeira e genuinamente brasileira caipirinha, sem firulas ou adereços indesejados.

“A caipirinha é um dos drinques mais pedidos. Totalmente mérito do Dani, o antigo sócio. Ele aprendeu a fazer essa caipirinha de uma forma muito boa, daí passou os padrões pro pessoal e assim é até hoje.”

E nessa pegada, a Toca da Capivara funciona de Quarta à Sábado, das 20h às 02h. Às quartas, a entrada é gratuita, nos demais dias, honestos R$09,00 liberam o acesso do público. Localizada na Rua Major Diogo, 865, no Bairro da Bela Vista, e prestes a completar 04 anos de idade, esse é mais um dos #BaresDaCidade que caiu no gosto da massa e abriga, antes de mais nada, um pedaço da cultura popular brasileira, da baixa gastronomia e dos encontros que só as quatro quinas de uma mesa podem possibilitar.

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