Qualquer um que siga as pegadas do rap, do reggae, do blues, do jazz, do funk ou do gospel, chegará à África. Não é preciso ser um grande pesquisador musical para saber disso. Dos cantos tribais e dos tambores nasceram os principais ritmos musicais, espalhados pelo mundo por “um descuido geográfico”, como ironiza Jorge Ben ao tratar da escravização de milhões de africanos durante séculos.

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Curioso é quando a música percorre o caminho de volta, e regressa à Terra Mãe, misturando, somando, criando novos estilos. Quando isso acontece, nascem Fela Kuti, Lucky Dube, Ali Farka Touré, Mulatu Astatke. Acrescente a esta lista um jovem nascido em Gana nos anos 80, que, embora respirasse a música local de seu país, decidiu que seria músico quando ouviu Rakim, KRS-One e Public Enemy. Seu nome é Samuel Bazawule, mais conhecido como Blitz, the Ambassador.

Da cidade de Accra, capital de seu país, Blitz foi tentar a vida nos Estados Unidos, onde estudou administração em Ohio. Seu objetivo ali, entretanto, era a música. Assim que se formou, mudou-se para o Brooklyn, onde montou sua banda, The Embassy Ensemble. Após dois EPs lançados (Soul Rebel e Double Consciousness), Blitz gravou seu primeiro disco, Stereotype (2009), construído sobre rap e jazz, e as experiências de um ganês na América.

Embora seja um ótimo disco, assim como o EP StereoLive, projeto lançado algum tempo depois, Stereotype passa despercebido quando penso na obra de Blitz. E isso se deve ao álbum quase perfeito, Native Sun (2011). Dizer que a obra é uma mistura simétrica do afrobeat e do highlife com o rap seria raso: o segundo disco de Blitz é a mais orgânica expressão de tudo o que rodeou o corpo e a mente do artista. Sua sonoridade é tão ímpar, que se o disco me fosse apresentado como sendo de uma tribo africana que tem o rap como arte ensinada pelos ancestrais, eu acreditaria sem pensar.

“Quando me mudei para a América, eu estava mais preocupado em me adaptar do que me destacar. Após cerca de uma década de vida aqui, percebi que o que realmente me fez ser quem eu sou foi a combinação das minhas raízes africanas e minha casa americana adotiva. A mistura destas duas experiências é o que faz Sun Native tão pessoal como é. Sonoramente, meu único objetivo era criar uma sinergia entre os dois mundos, onde a mistura fosse natural e orgânica.”

Entretanto, quando lançou o disco, Blitz percebeu que o público americano não conhecia claramente o contexto que influenciara a obra. O ganês encontrou então uma solução brilhante: voltar a seu país e gravar um curta com cenários, personagens e situações características do país africano, a fim de oferecer aos seus admiradores do ocidente uma experiência visual que completasse o álbum. Escreveu e co-dirigiu, em parceria com Terence Nance, a história de um menino alimentado por sonhos, que procura por seu pai – de quem só tem uma fotografia.

De Accra para o Brooklyn, do Brooklyn para Accra. Quando ouço dizerem que Blitz é o futuro da música africana, prefiro pensar que há nestes estilos algo que não muda com o tempo.  E que ao notar que tantos ritmos, embora diferentes, se reconhecem como semelhantes na essência, há também algum ponto, ilustrado neste caso pela música, ao qual todos nós podemos voltar e nos reconhecermos como iguais. A vida imita a arte, e a arte imita a vida.

Quanto ao som, Blitz, the Ambassador é mais do que um bom flow, um bom instrumental e uma boa história pra contar. É o rap natural, onde já não se enxerga mais diferença entre a base e as rimas. Sua origem pode ajudar, mas como diz Chuck D, um dos criadores do Public Enemy, na faixa The Oracle, “não é sobre de onde você vem, mas sobre onde você está”. Blitz está em casa: a arte do Embaixador é universal.

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*Entrevista com Blitz: Complex Pop Culture

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