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Terça-feira à noite. A melancolia de ver o Palmeiras bater no fraco Asa de Arapiraca pela televisão, enquanto desço a barra de rolagem do facebook. Na tela do computador, três links me chamam a atenção, postagens do amigo e artista Tom Dias. Três samples, sobre os quais Tom lança o desafio oposto ao que dá nome a esta coluna. Quem rimou sobre essas bases? Se estivesse no programa do apresentador Silvio Santos, qualquer apreciador do rap nacional mataria em duas notas. Eis a primeira música.

Fácil, né? Há algo nesse tambor entre o baixo e os claps que pede um dos versos mais famosos da verdadeira música popular brasileira: “Aqui estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia”. Usada como base pelo DJ Kl Jay em Diário de um Detento, Easin’ In é uma obra do cantor americano de soul Edwin Starr. Você pode achar que nunca ouviu falar dele, mas seu hit War, uma regravação da canção protesto do Temptations contra a Guerra do Vietnã, é um dos maiores clássicos da Motown, sampleada pelo Public Enemy em Bring That Beat Back, e trilha sonora do filme A Hora do Rush, na voz de Jackie Chan.

O outro som postado por Tom vem da Nova Iorque dos anos de 1980. A canção é Hip Dip Skippedabeat, da hip hop funk band Mtume, grupo do percusionista James Mtume, que tocou com Miles Davis de 1971 a 1975. Quem é fã do som de Notorious B.I.G, pode conhecer o Mtume da música Juicy Fruit, sampleada por Biggie em Juicy, hit do álbum Ready to Die, de 1994. Não é preciso ouvir mais de 30 segundos de Hip Dip Skippedabeat para descobrir que ela é a base do hino da noite, Qual Mentira Vou Acreditar, cantada por Edi Rock no disco Sobrevivendo no Inferno. “Tem que saber curtir, tem que saber lidar, em qual mentira vou acreditar?”.

O último som da trilogia já chamava minha atenção para o horário. Trilha sutil, inebriante, trompete carismático. Talvez por isso o nova-iorquino do Queens, Tom Browne tenha batizado o tema como Charisma. Jazzista mais conhecido por Funkin’ For Jamaica, música de 1980 que já flertava com o rap, o trompetista tem em sua carreira dez discos lançados, sendo R`N`Browne (1999) o último. Nas mãos de Kl Jay, Charisma daria o clima para Mano Brown contar a história de Guina (não confundir com suposto missionário que dá testemunhos no youtube), em Tô Ouvindo Alguém me Chamar.

Fim de noite, e novamente a confirmação de que investigar os processos de mestres dos discos, como Kl Jay, pode nos levar pela mão no vasto universo da música. A todos que se interessam por este tipo de pesquisa, fica o convite para os próximos posts desta coluna: há mais mistérios entre os sebos e os toca-discos do rap do que imagina nossa vã filosofia.

kl

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