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“O filho da empregada, que quer ir mais longe que o filho do patrão”

Assim se define Toddy Ivon – Motion Designer e Film Maker. Toddy produziu e dirigiu diversos clipes para artistas independentes do atual cenário do mundo do rap e da música negra, dentre eles podemos citar nomes como Rashid, Rosana Bronks, Terra Preta, AXL, Carol Conka.

O seu último trabalho foi a direção do clipe Chama os Mulekes do grupo carioca Cone Crew Diretoria que está sendo um estouro e tem tudo para colecionar prêmios na categoria. O vídeo entrou no ar no dia 03 de Abril de 2012 e em apenas 8 dias online ultrapassou a marca de um milhão de visualizações. Existe feedback maior que esse?

Pois é, não teve como. Entramos em contato com Toddy e procuramos saber um pouco mais sobre o seu universo. Com humildade e a experiência de quem vive e atua nesse cenário há anos, Toddy nos contou detalhes da produção, o fenômeno dos malucos doidos da Cone e uma reflexão referente a importância do rap para a sociedade periférica.

Duke Ellington

Nos conte um pouco da sua história, qual a sua formação, como foi o primeiro contato com as artes e como você caiu no universo da produção de clipes e cinema?
Eu nasci em uma família pobre do interior de São Paulo de negros misturados com índios, a minha vida foi tão dificil quanto a maioria dos jovens negros e pobres do Brasil, eu não tenho formação acadêmica, mas trabalhei 13 anos no mercado de computação gráfica atendendo diversas empresas do setor de comunicação e tive boa parte do meu conhecimento extraido dessas empresas. Eu tenho um tio que era fotógrafo da extinta Revista Manchete, ele me deu minha primeira câmera uma Canonet 1961 e me ensinou a fotografar, eu tinha 8 anos de idade nessa época. Esse mesmo tio me apresentou a música negra me dando um Walkmane duas fitas cassetes, uma de Ella Fitzgerald e outra do Duke Ellington, esse foi meu primeiro contato com arte, esse mesmo tio ia muito a Nova Iorque por conta do trabalho e sempre quando voltava me trazia uma novidade de lá, ele me mostrou Michael Jackson, Michael Jordan, Globetrotters e Bill Cosby, ele sempre foi atento a me mostrar em como os negros norte-americanos se expressavam, cair no universo do audiovisual foi apenas consequência.

Canon Canonet 1961 35mm rangefinder

Você produziu clipes para artistas do cenário atual do movimento hiphop. Como é trabalhar com o cenário independente? Ainda mais tratando-se de rap que em sua essência tem uma grande responsabilidade social na formação do caráter das pessoas.
Trabalhar com o pessoal da cena independente é muito importante, tem a ver muito com a minha filosofia de se conquistar o próprio espaço. O mais bacana do cenário independente é que todo mundo é muito sonhador, acredito que isso seja um fator muito importante pra se expressar artisticamente e experimentar mais sem medos e amarras. Gosto de rap porque sou negro, esse é meu motivo principal, mas poderia citar diversos outros motivos pelo qual me envolvi com a cutura Hip Hop, poderia citar o groove, os beats, a performances dos DJs a dança e tal, mas o que me faz inegavelmente abraçar o rap é o viés social que ele tem e a tarefa árdua de tirar as vendas dos olhos das pessoas diariamente. Quando voce fala sobre caráter, você também esta falando sobre coração, já dizia Éça de Queiroz. Eu amo tudo o que vem das ruas e dos guetos. A responsabilidade da formação do caráter das pessoas é de todos, a minha responsabilidade quando estou com uma câmera na mão é de levar boas mensagens para as pessoas que gostam do meu trabalho, mesmo que sem ritmo, mas sempre com poesia.

Como foi desenvolver um trabalho em conjunto com o grupo Cone Crew Diretoria? Na sua visão, o que eles representam para a nova geração que está entrando em contato somente agora com esse tipo de música e cultura?
Cara a Cone é monte de maluco doido que sabe qual é a realidade das favelas pelo Brasil e de fato entendeu a mensagem de igualdade racial dos Racionais MCs, Thaíde e RZO. A Cone tem a tarefa de continuar levando o estandarte do rap nacional, com música boa de reflexão, bem produzida pra galera dançar. Eu particularmente gosto quando eles fazem menção aos ícones do rap que vieram antes deles, acho isso bom pra galera nova saber que ganhamos algumas batalhas, mais ainda não ganhamos a guerra. Os caras tem um monte de show e isso deixou o processo meio lento, fizemos 3 diárias de gravação e rodamos o clipe no Vidigal e no Recreio dos Bandeirantes. O mais bacana foi ver o empenho de cada integrante do grupo dando o seu melhor pra que tudo desse certo, ver a cumplicidade e companheirismo dos caras renovou minhas forças.

Atualmente muitos clipes podem ser considerados e se enquadram na categoria de curta metragens. É uma tendência que está sendo seguida e vem conquistando cada vez mais espaço dentro da música. Levando em conta essa relação Música vs. Cinema, como foi o processo criativo e produção do clipe “Chama os Muleques”?
Todo mundo gosta de cinema, acho que a tendência é essa mesma, os clipes virarem peças da sétima arte. Eu gosto de tudo, poderia citar vários diretores, mas tentamos usar um pouco de nossas lembranças de filmes que já tínhamos assistido e logo vieram a tona thrillers de sucesso que nos ajudaram muito, o lance do clipe é mostrar os caras que se identificam com o movimento da Cone e colocar um pouquinho do que acontece no show também, esse lance da intensidade e tudo o mais, dentro de um pouco de humor e reflexão sobre os caminhos da nova música mundial. O Papatinho foi responsável por algumas referencias e parte do roteiro, ele é muito criativo (eu o considero um nerd), e sempre vinha com boas idéias de texto e tudo o mais. Foi loco trampar com os caras, só maluco doido!

O clipe teve participações de diversos artistas, dentre eles Hélio Bentes (Ponto de Equilíbrio), Mr. Catra, MC Shaw (Shawlin), Tico Santa Cruz (Detonautas), Hyldon, André Ramiro (Ator), As Meninas de Ouro e o padrinho Marcelo D2. Como foi dirigir um roteiro com essa crew de peso?
Foi muito fácil, não por mim, mas pela forma como todos me receberam e me repeitaram, me passaram toda a segurança que eu precisava pra fazer sem falhas. Todo mundo ali era bem humilde e de fácil relacionamento e escutavam o que eu tinha pra dizer, isso só facilitou as coisas. Vou levar esses momentos pro resto da vida.

E para encerrar o mais importante, qual é a principal mensagem que Toddy Ivon quer passar quando finaliza o projeto e lança um clipe?
Eu quero que cada criança negra e pobre quando ouvir de alguém que pode ser alguém na vida, realmente acredite e que esse “ser um alguém” seja apenas uma questão de escolha. O Mano Brown fala num som dele a seguinte parada: “Pergunte pra favela o que ela quer! O papel principal num filme do Steven Spielberg!”. Quero passar que você não deve satisfação a ninguém do que você vai fazer da sua vida e das suas coisas, mas esteja preparado pra assumir a responsabilidade de tudo, da inglória e da glória.

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