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Quem nasceu no Brasil não tem dificuldade em associar os anos 1980 com o Paulo Ricardo ostentando um cabelo igual ao da Simone ou com a Ilze Scamparini fazendo o “sinal do diabo, os chifres de Satã”, no primeiro Rock in Rio. Ombreiras, pochetes, pogobol, Evandro Mesquita… É difícil ter outra ideia de anos 1980 simplesmente porque somos bombardeados com essas coisas desde que nascemos. E, graças ao John Hughes, a percepção internacional que se tem dessa época é a de que todo mundo cabulava aulas para cantar Twist and Shout nas ruas de Chicago, como em Curtindo a Vida Adoidado.

Mas, por mais estranho que pareça, os anos 1980 também aconteceram em Portugal. E é disso que trata a série Filhos do Rock, exibida pelo canal RTP. O bizarro de tudo isso é descobrir que, sim, os portugueses também compravam vinis, gravavam fitas K7 e ficavam no telhado tentando fazer o sinal da antena pegar. É tudo familiar. E diferente ao mesmo tempo. O que muda são os cenários, os personagens e, claro, a quantidade significativa de “pá” e “pois” nas frases, bem como a falta de gerúndios.

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A história se passa na virada dos anos 1970 para os 1980 e conta a trajetória de uma banda de rock, em uma época em que não se cantava muito esse tipo de música em português. O locutor de rádio Xavier Bastos é o mentor e, com os outros três gajos do grupo, precisa se desvencilhar dos mal intencionados. As referências a vários artistas portugueses estão lá. Alguns deles, inclusive, são consultores da série.  Mas também tem Ramones, The Doors, AC/DC, Black Sabath. As escadarias da Baixa, a ponte 25 de Abril e as ruas de pedras seculares de Lisboa aparecem no vídeo com uma qualidade cinematográfica. Tudo com um sotaque enigmático que te joga na cara a todo instante que você não sabe absolutamente nada sobre Portugal, ao contrário dos portugueses que conhecem tudo do Brasil através das novelas. Isso não é lenda.

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A banda UHF é uma das primeiras a aparecer na série, não fisicamente, mas em forma de música. É deles o som que a banda fictícia canta com o cabelo ao vento, correndo pela estrada. A UHF está na ativa até hoje, com a barriga um pouco saliente, é verdade, mas foi uma das primeiras bandas a fazer rock cantado em português, logo não é de se estranhar a homenagem. Ao ouvir sua música, dá para pensar que é punk inglês até você identificar um “Agora, tu és um cavalo de corrida” no refrão.

Apesar de aparecer pouco, o pai do rock português também tem lugar na série. As referências de Rui Veloso vão de Lou Reed a Beatles e Bee Gees, mas o resultado do seu trabalho é mais para o blues e Raul Seixas. Aquela história de que “o primeiro disco do Velvet Underground vendeu pouco, mas todos aqueles que compraram montaram uma banda” se aplica ao álbum de estreia do Rui Veloso também, Ar de Rock. O UHF é um exemplo disso. Músicas como Chico Fininho e Rapariguinha do Shopping podem não empolgar pelo nome, mas valem o clique.

O músico Jorge Palma também aparece com frequência. Na série, ele é amigo do locutor Xavier Bastos e é mostrado como um prodígio, capaz de escrever uma letra memorável na mesa de um bar em 10 minutos. Sua carreira começa bem antes dos anos 1980, envolve deserção do exército e exílio, em um tempo em que Portugal ainda era governado pelo maléfico ditador Salazar. Palma é consultor da série e, em uma cena, é possível ver a gravação de um de seus maiores sucessos, Na Terra dos Sonhos.

Com a série, uma nova cena musical é oferecida, além de uma chance de limpar as memórias do Chacrinha atirando bacalhau nas pessoas. Os episódios vão ao ar aos domingos, mas a RTP disponibiliza todos na internet, basta clicar aqui.

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