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Vestir a música que se escuta pode parecer algo abstrato. Porém, não é de hoje que som e vestimenta coexistem nos mais variados estilos, classes sociais e ambientes. A moda nas favelas, por exemplo, é muito presente e está intimamente atrelada ao estilo musical que embala a vida dos jovens oriundos das periferias.

TEXTO | ISABELLA MARQUES E YURI DINALLI

As irmãs Tasha e Tracie Okereke, referências da moda nas periferias | Foto/Reprodução

A partir das roupas que uma pessoa traja, torna-se possível reconhecer os ambientes que ela frequenta e ter uma noção sobre qual o seu estilo musical preferido, por exemplo. A vestimenta se tornou, ao longo da história da humanidade, algo muito marcante e que vai para além da moda, sendo, de fato, uma identidade. Música e vestuário sempre caminharam juntos, e não é diferente nas periferias, onde a roupa que você usa e a música que escuta são complementares.

A música, para além do entretenimento, desempenha um papel de registrar oralmente os acontecimentos de um tempo; é como a voz de uma geração, de um período. A moda, por sua vez, é pensada e produzida de maneira a conectar-se com o tempo em questão. Logo, ambas caminham lado a lado. Foi assim em 1960, com a ascensão dos Hippies e em 1970, com o movimento Punk. Estes, na verdade, são bons exemplos de “anti-moda” que acabaram, por fim, entrando para os anais da história e virando tendência nas prateleiras das lojas do mundo todo. Em 1980, um fenômeno histórico arrebatou o mundo: a ascensão do HIP-HOP.

Original dos guetos norte-americanos, o RAP, um dos quatro elementos do HIP-HOP, rapidamente se popularizou e ascendeu. Em estreita relação desde sempre, RAP e moda são praticamente indissociáveis, e a primeira parceria que os uniu para sempre foi entre o grupo RUN DMC e a marca Adidas, onde, juntamente com o lançamento do hit “My Adidas”, fora apresentado um modelo de tênis completamente voltado para o público desse estilo.

MODA BRASILEIRA

A moda, de maneira geral, surgiu no século XV nos primórdios do Renascimento Europeu. O significado literal da palavra “moda” se equipara a algo como “costume”. Neste período, vestimenta e classe social eram coisas que andavam alinhadas, sendo que a primeira respeitava integralmente a segunda. No Brasil, a evolução da moda está completamente atrelada ao clima tropical aqui presente. Os europeus que das terras tupiniquins se apossaram, ao longo do processo de colonização tinham o costume de se vestirem da forma mesma que se vestiam lá: casacos de pele, roupas quentes e pesadas, coletes, paletós e japonas. Isso tudo ficava muito bem no frio de Paris, mas não no calor do Rio de Janeiro e da Bahia, por exemplo.

Ao longo do processo de evolução da moda brasileira, a Europa continuou sendo referência, mas as roupas agora eram confeccionadas com adaptações pertinentes ao clima local. Apesar de todas as mudanças, historicamente a moda no Brasil atende a uma elite abastada e economicamente privilegiada, que produz, consome e realiza os seus eventos entre si, havendo raras exceções. A partir das inquietações das classes menos favorecidas com relação a esse “não-lugar” que a moda representa em suas vidas, surgem os movimentos de moda, estilo e vestimenta nas periferias, que se dão tanto de forma espontânea e subjetiva, quanto de maneira pragmática.

MÚSICA E MODA NAS QUEBRADAS

Mc Guimê, um dos precursores do Funk Ostentação | Foto/Reprodução

Nas quebradas do Brasil, principalmente no eixo Rio-São Paulo, começou a ser cunhado, a partir dos anos 90, um estilo de vida baseado na música e na moda, com a popularização do RAP e do FUNK, principalmente. Roupas importadas, óculos de marca, artigos de material esportivo, pares de tênis cada vez mais caros e bonés de valor igualmente elevados começaram a ser comumente vistos nas favelas do Brasil. Eram os primeiros passos do ainda desconhecido “Funk Ostentação”, movimento que só mais tarde, nos anos 2000, ficou reconhecido como sendo o que ele é hoje: um culto ao consumo, migrando, inclusive, para outras esferas da música.

Porém, para além disso, tendo como ponto de vista a reflexão social, o Funk Ostentação age sob a ótica do empoderamento, do favelado que tem dinheiro para pagar caro por suas aquisições. Para o historiador e MC Léo Ohuaz, 30, porém, não é tão somente por aí.

“A favela querer ‘consumir’ é algo fabricado, também. É algo intencional. É onde o prazer vira tirania. A atenção coletiva é direcionada para se consumir determinadas coisas. É uma romantização do consumo”.

O morador da cidade de Guarulhos enxerga isso como uma “ditadura das necessidades” onde, num processo de “indução social”, é o capitalismo que “gerencia a vida das pessoas”.

Contudo, as roupas, ao lado da música, sempre cumpriram o seu papel de identificação com um grupo, algo que diz respeito a sentir-se pertencente em algum lugar ou nicho da sociedade. É um fator crucial de afirmação enquanto ser humano. Para o produtor, videomaker e MC Hadee, 28, da zona Norte, “é uma questão de identificação de tribo, tá ligado?”, porque você, assim que bate o olho, “consegue identificar as pessoas pelas roupas que elas usam”. No entanto, ampliando o debate, ele afirma que isso não é exclusividade da periferia, mas sim, algo que “acontece em todos ciclos sociais”. Com roupas importadas ou não, a música que é produzida e consumida nas periferias segue ditando a forma com que os jovens se vestem. Para a DJ, estilista e blogueira Tracie, 22, moradora do Morro do Sapo, na ZN, sua vestimenta é “totalmente música”. Ela completa dizendo que o som que ouve “influencia completamente” a maneira com que ela escolhe suas roupas.

IMPORTAÇÕES E CONTRAPARTIDAS

Santropê Brechó | Foto/Reprodução

Que a moda ostentação que é disseminada nas quebradas gosta de peças importadas não é novidade. Mas o que isso significa se pensarmos no mercado têxtil? Apesar de ser o 5º maior produtor de têxteis do mundo e 4º maior produtor de vestuário, o Brasil é também um dos países que mais importam dos mesmos setores. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), de janeiro a dezembro de 2018, o Brasil importou 1.404.291,842 quilos de produtos têxteis da China, número 1,2 vezes maior que o de 2017 e 1,3 vezes maior que o de 2016. Em contrapartida, exportou para a mesma China, em 2018, apenas 18.052.303 quilos de produtos, número 80 vezes menor ao de importações, da China, no mesmo ano.

Esses milhões de quilos de roupas entram no país sob impostos altíssimos, que podem chegar a 38% do valor original do produto, e vão para as lojas de rua, shoppings, outlets e, claro, para as periferias. Instantaneamente como um efeito resposta, o segmento de artigos usados só tem crescido no Brasil. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de 2007 a 2016, o número das microempresas que comercializam artigos usados foi de modestas 3691 para 14,5 mil, o que representa um crescimento de algo próximo a 400% em 9 anos. São os famosos e cada vez mais queridos, Brechós. Para Jana, do Santropê Brechó, com relação a eles, ainda “há muito preconceito de que é ‘roupa suja, de gente morta’, essas coisas, mas a maioria já entende a importância e o quanto é bacana. Isso tem mudado muito!”

PRODUZINDO MODA NA PERIFERIA

Pensar que a moda na periferia (e na música “de quebrada”) se baseia só em consumismo e ostentação é se equivocar redondamente. Apesar da onda das roupas de valores elevados fazer a cabeça da molecada nas favelas, há quem busque subverter esses valores e se tornar, mais do que consumidor e para além dos brechós também, produtor de moda e conteúdo, mantendo, na maioria das vezes, relações de proximidade com a música.

Foto/Reprodução

As gêmeas Tasha e Tracie Okereke são um grande exemplo disso. Filhas de pai nigeriano e mãe maranhense, elas tiveram a ideia de customizar as roupas que ganhavam das patroas de sua mãe e acabavam montando looks elaborados com preços mais acessíveis. A partir de então, decidiram compartilhar esse conhecimento em um blog que as duas criaram, o “Expensive $hit”. Com vídeos caseiros, as meninas começaram a fazer sucesso em todo o Brasil. Desde o começo elas buscaram reformular o ideal de beleza e tratar a pele preta do ponto de vista de protagonismo, enaltecendo a cultura afro. “Me inspiro em pessoas africanas, cresci com meu pai que é nigeriano”, afirma, convicta, Tracie.

Quando se deram conta, elas estavam palestrando em faculdades, eventos e, principalmente, estreando sua primeira confecção de roupas, a MPIF (Mulheres Pretas Independentes da Favela), apoiadas pela marca Melissa por terem sido ganhadoras, ao lado de Alexandre Heberte e MC Linn da Quebrada, do prêmio Melissa Meio-Fio de 2017. Atualmente, seguem fazendo shows em toda a grande São Paulo como Dj’s e, além de estilistas, blogueira e ativistas periféricas, elas assinam uma coluna de opinião no UOL TAB e produzem conteúdo para seu blog pessoal, o Expensive $hit. Ambos projetos têm o intuito de fornecer conhecimento e identificação em prol da autonomia e da autoestima do jovem favelado.

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