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Uma das vantagens de morar em São Paulo é poder explorar todo o cenário da arte urbana nas ruas da cidade. Além das obras expostas em pontos turísticos famosos e cheios de glamour como O Beco do Batman, na região da Vila Madalena, não podemos nos esquecer de olhar para a arte existente nos muros dos bairros periféricos, berço criativo de muitas mentes brilhantes – berço da própria arte de sprays em São Paulo.

Resolvi então, por duas semanas, pesquisar artistas do meu próprio bairro, extremo leste de São Paulo, e não demorou para perceber um traço distinto dos demais. Estamos falando da arte de Anderson Aparecido Pereira de Souza, mais conhecido como Hope, ou Guia (lê-se GU-I-A).

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Grafiteiro e ilustrador, Hope é um artista de grande valor. Conheceu a arte através do pai, que também desenhava, e através da pichação, entre os anos de 1992 e 1993. Da pichação passou para o graffiti com a técnica do throw up. A partir daí, os desafios da vida do artista começaram a surgir:

Gastei meu primeiro salário inteiro em spray. Vish, tomei um pau da minha mãe. Comecei a pintar com barro porque eu não tinha recurso. Hoje em dia você encontra muitas lojas especializadas em arte, lá no centro da cidade, mas, antigamente era uma burocracia. Antes eu riscava com carvão, hoje existem sprays de muitas marcas e não precisa mais nem tirar o ar da lata. Você tira um tracinho fino ali e já era. Eu falo pros cara que ficam reclamando da vida que eles estão reclamando de barriga cheia.”

8940077638_d4a9e4a6eb_oA vida de um artista independente não é nada fácil, ainda mais com as contas chegando e você sem nenhum apoio ou estrutura para dar continuidade ao projeto de viver de sua própria arte:

Isso causa frustração às vezes. Todo artista passa por isso. Minha mulher ainda me entende, ela também é artista. Faz cabelo e produz biscuit de uns desenhos meus. O apoio dela é cinquenta por cento, afinal temos uma família e às vezes nos dá medo. É sempre mais fácil a certeza do salário no final do mês. Mas não dá. Eu nasci pra isso. Tem que ser perseverante. Já fazem vinte anos que eu pinto e as coisas estão acontecendo agora. No começo a gente queria tudo na hora. Pintava e já imaginava que no dia seguinte estaria na galeria, que venderia quadro de cem mil reais, que nada! É tudo a longo prazo. Tudo depende também de onde o artista quer chegar.”

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Enquanto comentava sobre sua participação no programa Manos e Minas (TV Cultura), Hope também falou sobre o apoio da vizinhança e da família:

Ah, no dia que vieram gravar aqui, gente que durante muito tempo me criticou estava lá dizendo ‘sempre vi futuro nesse aí, desde pequeno’, mas eu não ligo. Compartilhei o momento com todo mundo. Faz parte. Já vi muito amigo meu desistir por falta de apoio da família. Minha mãe mesmo, por mais orgulho que sinta, sempre que tem oportunidade me incentiva a procurar um trabalho registrado, porque sempre que o desespero bate a gente pensa em largar tudo e seguir pro caminho mais fácil. Mas daí eu reflito e chego à conclusão de que tem muita coisa que pode sair daqui – aponta pro coração – que pode me levar longe. O lance é você ter coragem, colocar o pé na água pra que o mar se abra na sua frente.”

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Quando perguntado sobre o processo criativo, Hope disse que o barulho das crianças correndo em casa é muito importante. Disse também que observar a vida passeando pelas ruas ajuda a fluir a mente. Além de trabalhar no estúdio com Alex Hornest, é professor de arte e pastor. Questionei o propósito das suas artes e sua mensagem, e ele disse:

No meu trabalho eu procuro contrariar as pessoas. Não é porque eu sou pastor que eu vou desenhar anjinhos e o céu. Se precisar desenhar algo macabro pra fazer refletir, eu desenho. O amor está esfriando e as pessoas não ligam mais. Na correria do dia ninguém mais para pra ouvir, então defendo meu trabalho, tento sempre deixar uma mensagem.”

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Na jornada, o aprendizado que ganhou e ganha na rua, marca a história de Anderson, que fala com gratidão e carinho do período em que participou com os artistas TOTA, EVE 14, SOW , e CREDO, do  coletivo 5 zonas. Hornest, também grande amigo de Hope, foi quem o incentivou à liberdade:

Cronograma certinho demais desvia o desafio. A disciplina é importante, mas não gosto de tudo ali, no lugar. O Hornest sempre me disse: quer jogar tinta? Joga a tinta. Vai deixar escorrer? Deixa escorrer. Quer colocar água? Coloca água. E no fim, esses trabalhos são sempre os melhores. Perdi o medo de fazer trabalhos grandes. Hoje para mim é importante porque quanto maior o muro, maior a chance de explorar o que tem aqui dentro. E tem bastante coisa. Pra você ter noção, tô ficando louco com esse braço aqui engessado, não aguento mais ficar sem desenhar.”

Alimentando os filhotes_Hope 2013_sp

Os trabalhos de Hope têm a assinatura característica com abelhas. Curiosa, perguntei se existia alguma mensagem subliminar por trás, e ele disse:

Sim. Elas representam o coletivo, união, força. A abelha, uma morre pela outra. No momento que ela dá uma ferroada em alguém, ela sabe que ela vai morrer, mas o que eu vejo, é que ela se doou por aquilo.”

Em relação ao desapego com o trabalho:

Na parede eu não me apego. Quando termino, analiso, vejo o que posso melhorar, tiro a foto, faço meu registro, mas é isso. Se precisar apagar, que apague. Quer pintar por cima? Pinta. Fica tranquilo. Me preocupei durante muito tempo com isso, mas hoje não. É claro, é legal ver seu trabalho sempre ali onde você deixou, mas não dá pra criar posse. Muitas pessoas defendem o trabalho, e isso é bacana. Pô, não apaga, é trampo do Hope! Agora, no papel eu guardo. Todo papel que rabisco está lá, guardado.”

Em seguida, conta algumas experiências com o “jato cinza” da Prefeitura, responsável pela remoção das obras de arte das ruas de São Paulo:

Ah, já aconteceu de eu fazer o graffiti num dia e acordar no outro com o jato lá, cobrindo tudo.”

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Hope diz que quando questionou o motivo, sua única resposta foi um pedido de desculpa por educação. Esse tipo de atitude programada revela o quanto a cultura ainda falta ser difundida. É preciso educar as pessoas a apreciarem a arte, a pensarem e refletirem em suas ações. Só então a intolerância cultural cessará e veremos os resultados disso. Mas vitorioso, adicionou no final da entrevista:

Já aconteceu também de contornarem todo o desenho com o jato, e deixar ele lá. O carinha disse ‘Não, não. Não vou apagar nada. É bonito de se ver’. Nessas horas a gente fica feliz. Vê que de alguma forma contribuiu na vida de alguém”.

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Acompanhe os trabalhos de Hope em sua conta no Flickr.

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