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Às 20h e 55min do último dia 31 as portas do Teatro Oficina já estavam abertas. Enquanto passava na bilheteria olhei portão adentro e vislumbrei São Jorge montado em seu cavalo: uma loira alta, seios grandes, completamente nua. Relinchava como uma equina. Logo os portões se fecharam e me dei conta que presenciaria algo forte.

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As peças de José Celso Martinez Corrêa, diretor do Oficina, não são feitas para serem assistidas, mas sentidas, e tentar defini-las seria bobagem. Resta-me descrever minhas sensações e meu aprendizado. O espetáculo é Walmor y Cacilda 64 – Robogolpe, e é a quarta peça do teatro sobre Cacilda Becker. Mas é claro que não fala apenas dos atores Walmor Chagas e Cacilda Becker, abrange grande parte do contexto histórico que os cerca e também retrata a atualidade.

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Aborda, por exemplo, a luta que Cacilda travou contra a ditadura militar brasileira. A atriz é um ícone na defensa da livre expressão em nossos tablados, o que possibilita a louca experiência que José Celso nos proporciona nestes dias. Isto inclui uma crítica às mazelas sociais que nos afligem atualmente, como os excessivos gastos com o mundial de futebol e até uma caricatura do personagem norte americano Robocop. Este representou a influência estrangeira em nosso país, do financiamento à ditadura até o ostensivo policiamento nas manifestações deste ano.

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Sentei-me no limite da arquibancada para sacar o espetáculo por inteiro. Aproveitando-se de minha exposição, o robô empunhou sua arma para mim. Levantei os braços e rapidamente fui defendido por um dos personagens. Ao estilo do diretor alemão Bertolt Brecht, conhecida referência do Teatro Oficina, aqui as questões sociais são tratadas de forma clara e sem rodeios, quase com didatismo, como um convite feito ao público para a conscientização e ação.

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Literalmente, fui convidado por uma das atrizes para participar e assim dancei no palco. Logo toda a plateia tomava o tablado com dança e música. A liberdade ganhou e precisava ser celebrada em grande estilo. Como num ritual do bem, todos nos demos as mãos, dançamos coreografados e cantamos palavras de ordem: “Ser ou não ser? Tupi or not tupi?”.

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José Celso, com sua aura mística e cheiro de talco, comandou a tribo teatro a fora. Estacionamento, rua, teatro de novo. A dança e cantoria não pararam nem por um segundo, saímos e entramos novamente num grande cordão. O teatro tem sua magia e o Oficina é um templo que deve ser respeitado. Muitas pessoas que passavam na rua pararam para ver nosso ritual. Ouvi uma menina cochichar para a amiga: “Estou me sentindo uma ET”. Sim, naquela noite quem estava fora daquela bagunça libertária era o estranho.

 

Walmor y Cacilda 64 – Robogolpe

Temporada: Até 29/06, sempre aos sábados (21h) e domingos (19h)

Local: Teatro Oficina – Rua Jaceguai, 520.

Preços: R$ 40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia-entrada).

Info: (11) 3106-2818

 

Fotos: Felipe Stucchi/R7

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