Rap é o crime ou o creme?

Entenda em 5 tracks porque o rap é uma máquina de salvar vidas dos jovens pretos e pobres de periferia.

Antes de qualquer coisa: você sabe o que é o hip-hop? Não tenho intenção de ser guardinha, mas para entender a identidade de algo ou alguém, é preciso saber sua história. Conheçamos a genealogia do movimento para, então, podermos começar a falar de rap.

Cena da série The Get Down, que tem como pano de fundo os primórdios da cena hip-hop no Bronx, bairro nova-iorquino onde o movimento se originou.

  1. Gênesis

Gênesis’ é a faixa que abre o álbum Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997 pelo Racionais MC’s.

Muita gente enche a boca para falar que o rap é um tipo de música violenta, que incita a violência. Um exemplo disso é a reação que uma parte do público da Virada Cultural de São Paulo teve ao saber que o Racionais MC’s seria uma das atrações do evento, em 2013. Falavam que rap não é cultura, inclusive. O motivo para toda essa raiva foi o episódio da Virada de 2007 que a Polícia Militar, alegando ter sido atacada, entrou em confronto pesado com espectadores da apresentação, na região da Praça da Sé, com uso de balas de borracha, cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta.

Vídeo de Thiago Benicchio, que fez uma edição da faixa ‘A Praça’, do álbum Cores e Valores, com imagens do ocorrido em 2007.

É bem difícil um evento artístico-cultural sofrer esse tipo de ataque da polícia. Você já ouviu falar de um show frequentado pela elite marcado por violência policial? Eu, não. Por esse acontecimento é possível compreender que não só as músicas tratam de violência, mas o estilo, num todo, está imerso nela. Então rap tem mesmo a ver com violência?, você pode questionar.

Sim, sempre teve – mas não pelos motivos que costumam dizer por aí.

  1. Rap é compromisso, não é viagem

Faixa do álbum homônimo lançado em 2001 por Sabotage, vulgo de Mauro Mateus dos Santos, assassinado em 2003 e ainda hoje considerado um dos MCs mais importantes do rap BR.

O hip-hop nasceu na década de 70, nos guetos dos Estados Unidos, especificamente em bairros habitados por negros e latinos. Era um período marcado por lutas por direitos civis e políticos dos negros e o hip-hop surgiu como uma resposta à violência urbana que as pessoas dessas áreas eram submetidas.

Precedido na década anterior por ataques racistas, torturas e as mortes de grandes líderes negros, como Malcolm X e Martin Luther King, os anos 70 iniciaram-se com força para os Panteras Negras, forte inspirador do hip-hop com seu lema “black power”.

Tess Asplund fazendo o gesto dos Panteras Negras em marcha nazista do Movimento de Resistência Nórdica, na Suécia, em 2016.

 

O termo hip-hop foi usado pela primeira vez por Afrika Bambaataa e, como movimento, agrega o break, grafite, DJ e MC. Bambaataa é DJ, cresceu no Bronx, era ex-líder de uma gangue e buscava criar um novo estilo de vida para os jovens do gueto, que naquela época estava tomado pela violência de gangues, tráfico e consumo de drogas, complexos de inferioridade e conflitos entre afrodescendentes e latinos.

“Quando nós criamos o hip-hop, o fizemos esperando que seria em função da paz, do amor, união e diversão e que as pessoas se afastariam da negatividade que estava contaminando nossas ruas. À medida que a cultura cresce, nós desempenhamos um grande papel na resolução de conflitos”, explicou em entrevista.

Então dá para entender por aí que o hip-hop e o rap estão envolvidos com a violência desde o início e são de fato uma máquina de salvar vidas, por essência. Quando Bambaataa fala de união, é o ato “violentamente pacífico” da quebrada responder ao poder coercitivo de uma sociedade que mata os pretos e pobres de dentro para fora. Primeiro jogando essas pessoas em lugares sem infraestrutura, sem segurança, à margem; depois os reduzindo a tal ponto que não é preciso exercer força contra eles, pois eles mesmos se matam.

Ou, se não se matam, são mortos. “Dizem que somos bandidos, mas quem mata usa farda e exala despreparo e truculência”, diz Funkero em Favela Vive 2, com arremate de BK, “e quem sobe pra me matar é o mesmo que me vende a arma”.

Por isso, desde 97 Edy Rock já avisara: olha quem morre, então veja você quem mata.

  1. Se eu não rimasse, onde eu taria?

Trecho de Froid em ‘Poetas no Topo 2’, cypher lançada pela Pineapple Supply em janeiro de 2017.

“É isso que o rap significa para mim: resgate. O rap me resgatou”, afirmou a MC Bivolt em conversa que tivemos antes de um show seu na Zona Norte de São Paulo. Ela falou um pouco sobre como foi seu primeiro contato com o rap e como era sua vida antigamente – uma mistura de role de quebradinha, loucura e [muito] Corote.

Ficou meio pensativa falando sobre o assunto, disse que não sabia onde estaria hoje em dia se não fosse pelo hip-hop. “Mas quem quer saber de Corote quando tem um som pra gravar?”.

Ela não.

E nem Thaíde. Vocês lembram do Sr. Tempo Bom?

“Ficamos sabendo que um camarada nosso tinha sido assassinado. O cara tinha sido fuzilado em uma casa junto com os parceiros dele. A gente foi até lá ver e encontramos o cara jogado, só de cuecas, com tiros na cara e em outras partes do corpo. Tinha um outro camarada dele que tinha tentado fugir pela janela e estava lá pendurado, também todo cravado de balas. Nessa hora acho que tomamos consciência de que a gente não precisava acabar daquele jeito. Tínhamos que descobrir uma forma de terminar nossas vidas de uma maneira mais digna. Sacamos que a solução estava na dança, naquela dança que os caras praticavam na rua 24 de Maio”.

É assim que Altair Gonçalves, Thaíde, conta sobre sua entrada no break, que foi o grande precursor do hip-hop no Brasil, nos anos 80, e que promoveu na São Bento (Centro de São Paulo) e adjacências a junção e ascensão de grandes nomes do rap, inclusive dos 4 pretos mais perigosos do Brasil.

 

Edivaldo Pereira Alves, Pedro Paulo Soares Pereira, Kleber Geraldo Lelis Simões e Paulo Eduardo Salvador ou Edy Rock, Mano Brown, KL Jay e Ice Blue – o Racionais MC’s.

 

  1. Faço questão de botar no meu texto que pretos e pretas estão se amando

Verso da música ‘Ponta de Lança (Verso Livre)’, lançada em 2016 por Rincon Sapiência (conhecido também como Manicongo, certo?).

 

Benny Harlem e sua filha Jaxyn Harlem.

 

Entrevistei em 2015 o KL Jay, DJ do Racionais MC’s. Questionei o que seria o “preto tipo A”, expressão que aparece na música Capítulo 4, Versículo 3 e, para ele, tem um significado muito específico, muito presente nas letras de rap, se parar para reparar.

Coruja BC1, de Bauru, cita em Modo F, “minha autoestima é equivalente ao dólar, que até em tempo de crise consegue se manter em alta”. O próprio Rincon toca no tema várias vezes em Ponta de Lança, “vou cantar autoestima que nem Leci”, “aquele orgulho que já foi roubado, na bola de meia vai recuperando”.

Complemento com a explicação de KL Jay:

“o que acaba com os pretos no mundo é a falta de autoestima. Autoestima baixa… Aí cê faz merda pra caralho. Você não gosta de você, você não se veste bem, cê não estuda, não lê, não saber falar inglês, não sabe se comunicar, não sabe chegar nos lugares, não tem dinheiro, não tem educação. Morre fácil. É um alvo fácil”.

Lembra que citei a questão da identidade lá no começo? O professor doutor Kabengele Munanga afirma que a identidade é uma prova que o indivíduo existe. Conhecer a história, a raíz, é extremamente necessário para essa construção identitária e se você destrói a identidade de alguém, você o anula. Nesse ponto, o Poeta Sérgio Vaz traz uma nuance muito importante do rap e hip-hop.

“Foi um grito da periferia. Sou negro, e daí? Sou da periferia, e daí? Uma coisa da autoestima. A molecada que não tinha aprendido quem era Zumbi nos livros escolares, aprendeu através do rap. Descobriram quem era Steve BikoLuís Gama, Luíza Mahin, Malcolm X, Martin Luther King, Harry Belafonte. Foi uma escola. Eu comparo o hip-hop aos Panteras Negras”.

Tommie Smith, em primeiro lugar, e John Carlos, em terceiro, protestaram durante os Jogos de 1968, no México, fazendo o gesto dos Panteras Negras contra a segregação racial nos Estados Unidos. Foram expulsos da equipe após o ato.

 

  1. Daria a vida pela causa pra provar que é compromisso

Verso da música Minhas Razões, de Coruja BC1 e Emanero, lançada em 2013.

Comecei esse texto para mostrar o paradoxo do rap ser uma música violenta, um som do crime, que, veja você, tira pessoas do crime. Acontece que, durante a escrita, leituras, pesquisas, entendi que o hip-hop não é complexo, apenas, mas existe complexidade também no que ele proporciona. É movimento, é cultura, é escola.

É um produto para embelezar, te ensina a ser perigoso andando desarmado, é a devolução do orgulho e a construção da identidade de jovens que crescem e cresceram sem referências de sua própria história. É som de preto, de favelado, do gueto. Muito mais que uma máquina, como eu havia dito, foi e é extremamente humano.

Encerro, então, tendo falado sobre 1000 trutas e 1000 tretas, com um vídeo de KL Jay, em trecho do documentário No Submundo do Verso, falando sobre pessoas que vão até ele dizer que as músicas do Racionais as salvaram. Deixo também o verso de Drik Barbosa, pois, sim, “hip-hop é arte que salva vidas”, e depois disso, eu duvido alguém refutar.

Não sabe falar sobre si na terceira pessoa. Sou da quebrada, sou do mundo e sou minha. Trampo com marketing digital e mídias sociais. Formada em jornalismo, fiz um documentário chamado “No Submundo do Verso”, sobre pessoas com realidades semelhantes às músicas do Racionais MC’s, pra mostrar que o meio acadêmico deve respeito à cultura da periferia. Escrevo. Por ser mulher, resisto. Conto histórias, faço registros. E é só por haver arte que [ainda] existo.

2 Comentários para "Rap é o crime ou o creme?"

  1. Excelente texto, muito bom. Vou guardar para mostrar sempre quando me questionam sobre o rap e a violência.

  2. HOJE APRENDI MAIS UMA COISA IMPORTANTE,FOI MINHA FILHA QUEM ME PASSOU ESSA MATÉRIA! AGORA MEU CONCEITO É OUTRO,OBRIGADA SAN!!!!!!

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