A violência contra a mulher se divide em ciclos

O que os últimos casos de violência contra a mulher na maior emissora de televisão do país têm em comum com os ciclos da violência doméstica.

Este ciclo consiste, basicamente, em três fases, sendo a primeira de ameaças verbais, a segunda marcada pela explosão da violência física e a terceira fase, comumente chamada de “lua de mel”, onde o agressor promete que irá mudar, e nunca mais voltará a cometer o abuso. Geralmente as vítimas acreditam nas palavras do agressor e voltam a sofrer violência.

Nos últimos tempos, tivemos o desprazer de acompanhar todos os ciclos pelo Pay-Per-View. Na famosa “Casa Mais Vigiada do País”, em canal aberto, bem diante dos nossos olhos… lá estavam expostos os ciclos da violência. A delegacia da mulher interveio quando o casal se encontrava na chamada “fase de lua de mel”, com cenas como a que ele chorava no colo dela após uma briga que havia causado revolta nas redes sociais, e deixado marcas roxas no corpo da moça.

Quando buscamos uma identificação social para a violência, principalmente no âmbito da violência doméstica, percebe-se que quantitativamente as mulheres são as principais vítimas. Nesse caso, devido à cultura opressora que as mulheres vêm sofrendo ao longo dos séculos, o gênero é o fator diferencial da violência.

Ao se auto classificarem como “machos” muitos homens passam a criar inúmeras regras sociais a serem seguidas pelas mulheres, e à medida que estas se recusam a viver sobre opressão, estão muitas vezes fadadas à violência.

Ainda, citando a famosa rede do “plim-plim”, visualizamos um ato recente de assédio que em razão de pressão do movimento feminista, cada vez com mais apoio da internet, resultou na inquietude, e na cobrança de uma reação por parte da emissora.

Mas, diante dos últimos fatos, todos aplaudem a tal emissora, como se não fosse a pressão social, mas sim como se tratar mulheres com igualdade e punir os agressores tivesse sido sua ideia. Não será de se espantar que com o assunto em pauta ganhando cada vez mais repercussão, a mídia utilize do feminismo como se este tivesse sido criação dela, como se nunca tivesse tido e aturado tantos papéis, ainda constantes, com atitudes machistas.

Outro caso que podemos usar como exemplo, coincidentemente, todos ocorridos no mesmo mês, é do Cantor Victor, da dupla sertaneja Victor e Léo.

O cantor nacionalmente conhecido foi acusado de agredir sua esposa, grávida, inclusive com testemunhas da agressão. Na mesma hora, a emissora decidiu tirar o cantor da apresentação de um programa de auditório, e manter apenas seu irmão (na foto), que em todas as oportunidades de falar saiu em defesa do agressor. Nesse caso, a rede de televisão também buscou palmas e confete por ter feito nada além do que sua obrigação: afastar um potencial agressor da mídia, para que se tomem as medidas policiais e judiciais cabíveis.

Em muitas das telenovelas, a mulher ainda é vista e tratada de uma forma que, por si só, é uma forma de violência.

Não se fala, aqui, que não seja importante a discussão sobre violência e feminismo na tevê. As correntes feministas sempre reagiram à e hostilidade masculina, e a medida que o tema é maximizado e explorado, os problemas de gênero ganham maior visibilidade, lembrando sempre que os direitos das mulheres também são direitos humanos.

Mas tão importante quanto a discussão, é se aprofundar a raiz do problema, e não usar da violência contra a mulher como um ciclo de audiência.

Do ciclo de audiência: Na primeira fase há o erro crasso e até mesmo escroto de personagens, sejam eles reais ou fictícios. Na segunda fase, há muitas hashtags, com o apoio da mesma mídia que criou o problema. Na terceira fase, a de “lua de mel”, há o pedido de desculpas sinceras com as juras de que isso não será mais permitido em rede nacional.

Fiquemos, então, aguardando o próximo tapa na cara.

Advogada, feminista, tentando engajar a militância jurídica com o meio social. Atualmente estuda serviço social, e passa mal toda vez que alguém a chama de "assistencialista". Acredita no serviço social não como uma forma de assistencialismo ou prática individual, mas sim como política pública que concretiza o direito ao acesso público da equidade.

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