Tulipa Ruiz chega a mim como a maior cantora contemporânea do Brasil. Seu timbre particularmente agudo, seus vibratos afinadíssimos, seus erres longe de serem retroflexos (como boa paulistana) e seus inconfundíveis gritos arrebatadores – que só não se assemelham mais aos de Gal Costa, que é uma de suas inspirações como já foi dito publicamente por ela, por uma pequena linha tênue – dão a ela esse merecimento a mim. Sua brincadeira natural com a música, como que quase não a levando a sério, dá o ponto exato do que esperamos da maturação da música brasileira.

Com dois discos gravados, Tulipa agora se consolida com Tudo Tanto (2012), como nome marcado na música brasileira e, ao contrário do que seu primeiro disco diz, um sucesso nada efêmero. Tulipa vem resgatando algo que não se via desde os períodos tropicalistas: a loucura, a esquizofrenia no cantar e no portar-se no palco. E isso é uma das coisas que, a mim, se assemelham com a eterna Maria da Graça, a Gal.1 - DSCF1355

No final dos anos 60, fomos apresentados a um novo modo de fazer música, um novo modo de cantar, de se apresentar, de se fazer um show. Nas apresentações, Caetano Veloso e, sobretudo Gal Costa, gritavam, gemiam, se atiravam ao chão, enlouqueciam de fato. E isso era fantástico – inclusive no sentido literário. Desde então, nunca mais houve quem fizesse algo assim, até que chegou Tulipa Ruiz.1 - DSCF1330

Em sua apresentação no Cine Joia (02/02), Tulipa nos apresentou um show arrebatador. Recinto lotado. Público ensandecido. Palmas que não se acabavam. Efêmera e Tudo Tanto, os dois álbuns da grande cantora, participaram do repertório. Caetano Veloso entrou novamente na lista mas, diferentemente do primeiro show da cantora em que o clássico transcendente Da maior importância (1973) foi tocado, How beautiful, could a bieng be, que originalmente é cantada pelo baiano com a letra de seu filho, Moreno Veloso, foi a escolhida. Além desse, houve um momento particularmente engraçado. Na apresentação dos músicos, Tulipa cantarolou uma velha canção que todos os que viveram como criança nos anos 90 hão de se lembrar. “Que som, que som é esse? Quem sabe o nome dele?”, do Castelo Ratimbum, apresentava cada músico, um de cada vez. Algo tão cômico quanto genial.

A música É abriu o show para coro geral da plateia que parecia não se importar com o ardor das mãos de tanto aplaudir. Seguiram-se os neo-clássicos OK, Quando eu achar, Like this, Desinibida e Cada voz – que, aliás, carrega um de seus melhores gritos-agudos – do último álbum. A bela Do amor, Eu só sei dançar com você e Efêmera do primeiro, também. Mas dificilmente algo irá superar o final de seu show.DSCF1376

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Luzes apagadas. Subsolo. Esquizofrenia. Desespero. De repente, acordes em baixo tom de uma guitarra gemem timidamente fortes. Aparece uma rapariga portando um vestido branco rondando o palco. Começava a ser tocada a sua melhor canção: Víbora. Poucas vezes vi uma apresentação tão boa quanto a de Tulipa nesta canção. Seu drama demasiado a atirava ao chão, cantando, gritando e dizendo que aquele vil rapaz era um equívoco para ela. Nesse momento, a iluminação também teve um importante papel. A loucura desesperada de Tulipa era perfeitamente gingada com o clima baço das luzes. Contudo, para um rapaz deveras exigente dizer que ficou “quase arrepiado” no momento dessa canção quer dizer, no mínimo, que foi excelente. Não é para qualquer um. Ou qualquer uma. E garanto, todos sentiram o mesmo.

Fotos: Victor Bauab

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