Sarau da Consciência – Um encontro transcendental

 

Agora, neste espaço, dedicarei esta coluna para falarmos sobre cultura.

 
 
Não pretendo defini-la, afinal alguns cientistas sociais já o fizeram, por exemplo, o antropólogo Edward Burnett Tylor considerou como cultura todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano. Ou seja, muito mais do que somos conscientes, a cultura influencia completamente na construção do ser. Assim como os seres influenciam na construção, ou melhor, na movimentação da cultura.
 
 

Promover encontros de artes, compartilhar conhecimentos, dividir dúvidas e crenças, cobrar leis e debater a moral e os costumes. Isso é extremamente fundamental para nos reconhecermos tanto como indivíduos, quanto como coletivo.

Partindo desse princípio, minha proposta é bem simples. Desejo apresentar-lhes exemplos de pessoas que se reúnem em prol da cultura. Portanto, nas próximas semanas, toda terça-feira terá post novo sobre a cultura em movimento. Para além da teoria, só a pratica transforma. 

 

Sarau da Consciência

Local: Concha Acústica – Praça do Carmo – Santo André – SP

Horário: Toda terça-feira às 20h

Ativo e movimentando-se há quase um ano, o Sarau da Consciência nem sempre foi nas ruas. As reuniões iniciais eram no Laboratório Pensados, em Santo André. Porém com o tempo, o próprio movimento pediu mais espaço, e até mesmo mais liberdade. A mudança dos encontros para as ruas foi muito natural e favorável, a Concha Acústica é um palco incrível da cidade de Santo André, e que muitas vezes passa despercebido pelo cidadão comum. Porém não às terças.

Toda terça-feira, a partir das 19h30 já tem pessoas sentadas na arquibancada. Uns conversam, outros leem, sempre há quem traga um instrumento e já faz um aquecimento ali na arquibancada mesmo. São homens, são mulheres, travestis, pretos, brancos, são todos. E todos com a mesma fome: ARTE!

Nada é mais libertador para o ser humano do que a expressão. E quando a expressão se une a consciência universal, trazendo luz ao nosso entendimento, mostrando que de fato, somos todos UM passamos a sentir essa expressão de forma diferenciada. Começamos a enxergar perspectivas que antes não conseguíamos alcançar, mas que agora, através da ARTE de outro alguém, é possível conectar-se aquele sentimento.

Na última terça, antes do carnaval, aconteceu algo extraordinário no Sarau da Consciência. Eu estava lá, de fato estou quase toda semana, e já estava com a intenção de escrever sobre esse encontro. Um jovem tocava violão, cantando uma composição de sua autoria, a coisa mais linda. Quando de repente, uma menina desceu da arquibancada e parou a canção. Alguns minutos de silêncio, ela parecia estar com alguma dificuldade. Pediu desculpa por interromper a música, mas disse que precisava compartilhar algo. Com suas mãos trêmulas e a voz já falhando, disse:

“Eu acabei de receber uma ligação avisando que minha vó morreu. Não sei bem o que fazer, mas precisava dizer isso pra vocês: Valorizem quem te ama, e tá vivo do seu lado, porque a gente nunca sabe o dia de amanhã.”

Por alguns minutos o silêncio tomou conta da Concha, mas em poucos minutos já estavam todos lá embaixo abraçando e chorando junto com ela. Por alguns minutos compartilhamos sua dor. Talvez alguns lembraram de algum ente querido, ou um amigo que se foi. Algumas conheciam sua vó. Outros agradeceram pela vida.

Ela sentou-se, bebeu água, acalmou-se e foi embora, com algumas amigas. O Sarau continuou. Como se um rombo tivesse sido criado entre nós.

Refletimos sobre a morte. Reconhecemos o poder do fim de ciclos. A dor por ter que “deixar ir”. O apego à matéria. A saudade do corpo.

Celebramos com música, fizemos poesia, e exaltamos o que é Eterno. Compartilhamos de uma Única Consciência. Tudo o que existe, da forma que é, faz parte de uma só coisa. E no Todo, nada se perde.

Por cenas como essas, e muitas outras que não caberiam nesse post, gosto de chamar esse sarau de um encontro transcendental. Talvez todos sejam de fato, mas só quem experimenta sabe, e sente.

Fotografias por Mayrê Oliveira – confira o álbum completo clicando nas fotos!

 

Meu nome de batismo é Thaís Aguiar, mas adoro quando me chamam de Tata. Sou cantora, da rua mesmo. A vida faz poesia, e eu escrevo-as. Gosto de inventar coisas. Inventei a AllaCoci, marca de comidas artesanais. A gente faz chocolate e distribui poesia. Às vezes também organizamos uns eventos, só porque gostamos de reunir pessoas.

4 Comentários para "Sarau da Consciência – Um encontro transcendental"

  1. Nossa sem palavras ficou cheio de vida eu amo o sarau e adorei essa matéria ficou perfeita e cheia de energia que nos traz o sarau, arte sem individualismo apenas seres humanos unindo gostos e amor para com os outros. Obrigado por descrever esse encontro que é se tornou muito especial através de suas palavras <3 só agradeço muita luz e boa vida pra nós. mahaulie soul <3

  2. Pingback: Conheça o Rap Expresso, a série que desafia o tempo através da música.

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