Nikki S. Lee: a fotógrafa que não fotografa

O que me interessa em fotografia é seu poder de comunicar, para além do factual, uma ideia, uma expressão de pensamento.

Toda fotografia é uma impressão, um recorte, uma visão sobre a realidade; já que esta não cabe no espaço da tela ou do papel.

Grandes fotógrafos podem, contudo, fazer transcender essa limitação espacial fazendo com que a imagem exceda aquilo que é retratado seja uma paisagem, um objeto em si, seja a face da pessoa. Se o que caracteriza a Arte Contemporânea é certa descrença na representação, não é estranho que ela se construa por meio do questionamento desta, tornando por objeto esse próprio problema, refletindo sobre ele, questionando-o com base na própria tradição representativa seus limites.

O trabalho da artista coreana Nikki S. Lee (1970) me interessa particularmente, não apenas por que a fotógrafa dispensa por completo a dimensão técnica e mecânica do aparato fotográfico, mas por que faz da fotografia o registro de uma experiência mais complexa, mostrando a capacidade adaptativa do sujeito contemporâneo.

Vivendo em Nova Iorque desde 1984, a fotografia de Nikki S. Lee é registro e documento de um tempo e de um espaço, mas seu significado real se completa conceitualmente, quando se entende o seu processo de construção, a história do que antecede o clique.

No centro do trabalho de Nikki S. Lee está a questão da identidade. Nikki S. Lee faz “projetos” em que forja para si outras possibilidades de existência. Não se trata apenas de autorretratos, como o faz Cindy Sherman, ainda mais que não é ela que fotografa a si, mas de registro de uma experiência de imersão performática.

A obra de Nikki é organizada em torno de projetos bem definidos nos quais a artista mais que desenvolver um estudo distanciado, procura não apenas se infiltrar, mas assimilar estilos visuais e comportamentais dos grupos sociais que elege: drag queens, lébicas, latinas, strippers, skatistas, rappers e advogados.

Após um estudo prévio, ela se apresenta ao grupo como artista (embora muitos não acreditem nisto, já que ela já se apresenta camaleonicamente “camuflada” e passa a conviver, compartilhar sua rotina e assimilar mais profundamente aspectos físicos e comportamentais do grupo. Neste processo, ela como apaga a si mesma, sua etnia coreana, emagrece, engorda, descolore o cabelo, faz bronzeamento artificial, malha, faz aula de dança ou de skate e, algumas vezes, faz uso de disfarces, por exemplo é necessário parecer mais uma idosa.

Mais que se individualizar, Nikki explora a identidade a partir da incorporação da estética, da linguagem corporal, gestual, comunicativa e gosto artístico que permite se identificar e ser acolhida por um grupo. The Drag Queen Project (1997), The Lesbian Project (1997), The Hispanic Project (1998), The Exotic Dancers Project (2000), The Skateboarders Project (2000), The Hip Hop Project (2001), e Layers (2007) reafirma a existência de códigos que organizam e ordenam identidades, padronizando-as.

Após passar semanas com o grupo, vivendo seu cotidiano, rotina e atividades, sua assimilação a tribo urbana escolhida se realiza quando Nikki S. Lee pede às pessoas do próprio grupo que a fotografem com uma simples câmera automática. As fotos revelam esta incorporação visual e emotiva, pois às fotos sempre apresentam o aspecto de retrato espontâneo de um momento íntimo, pessoal, entretanto, isto não corresponde de fato à realidade, posto que é Nikki quem determina o instante do clique, como que dirigindo o que pretende captar como a essencialidade do grupo por ela assimilado.

Formalmente, o instantâneo precário, com polaroide e câmeras automáticas que trazem data impressa, colaboram para ilusão de pertencimento ao grupo. Ampliadas e postas em grande dimensões, quando expostas em galerias, provocam novo estranhamento. São registros de terceiros, mas trazem a “assinatura” e “estética” determinada pela artista, não só pelo modo como se faz captar nas fotos, mas por estar no controle. Este vai desde a encenação para o clique, como a seleção, edição e recorte daquilo que resultará na obra exposta. O que parece espontâneo, dinâmico, verdadeiro, legítimo, captada de forma despretensiosa por um não-fotógrafo profissional constitui à estética de Nikki S. Lee

Nikki S. Lee mostra uma sociedade de guetos, de grupos e padrões de estranhamento, seus trabalhos mostram as capacidades adaptativas do sujeito contemporâneos, dos grupos étnicos cuja cultura resiste e se remodela dentro de sociedades de valores rígidos e excludentes (pensemos nos EUA, na Coreia) e subculturas específicas, divergentes quanto gênero, idade, religião e classe social. 

Nikki S. Lee não explora somente a diversidade de ser, bota em questão a autenticidade do que a câmera capta, os limites do artista, a questão do eu e da própria identidade. Não é nada pouco para a fotografia. 

Olhos operados, pêlos brancos que avançam, troca a noite pelo dia. Virou doutor na USP com 336 págs. sobre o sagrado em Guimarães Rosa. Filho-eterno de sua mãe; de seus irmãos, idem. Não gerou nem conquistou a sonhada independencia financeira. Cultiva amigos muito jovens. Tem amor por livros, filmes, arte. Ensina o assunto e faz filmes. Tem um blog REVIDE para falar de si e um pouco de tudo, como aqui, onde pousa no momento.

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