Contos Ilustrados: Fui dormir mais cedo

Fui dormir mais cedo

 

Conto: Gabriel Lima | Ilustração: Filipe Rocha

 

Eu costumava ir mais cedo para a cama, mas confesso que não sei dizer como peguei esse hábito. Só lembro que numa noite tediosa resolvi ir para os lençóis antes do considerado normal – pelo menos para a minha idade – e não parei mais. E lembro que não o fazia para cumprir as oito horas de sono que os especialistas tanto recomendavam. Sinceramente falando, nunca fui tão responsável assim comigo mesma. Como a maioria das pessoas que conheci, eu só me preocupava com a minha saúde quando ela quase já não existia mais e a qualidade do meu sono não era algo com que eu me importasse muito. Aliás, a única exceção da minha rotina desorganizada passou a ser essa: ir deitar todos os dias às 20h15, para que o dia durasse menos. 24 horas eram muita coisa pra mim.

Essa passou a ser a hora ideal para eliminar meus erros, corrigir meu dia e meu passado próximo. Deitada e sem mover sequer um músculo, eu parava o tempo e concertava ali mesmo tudo que o havia me desagradado. Não era sonho, era minha consciência sussurrando o que eu devia ter feito com uma voz tão baixa que nem mesmo o travesseiro mais próximo conseguia ouvir. Algumas noites me relaxavam a ponto d’eu ir dormir sorrindo, mesmo que por poucos segundos. Era bom. Passei fazer e dizer sempre a coisa certa em todas as situações imagináveis. Se na vida real eu cometia algum erro, às 20h16 eu já estava novamente no mesmo cenário, mas dessa vez com a resposta certa na ponta da língua.

Tudo sempre dava certo. Isso também porque eu decidia o que era certo. Reescrevia meus dias várias vezes, sendo ao mesmo tempo a diretora e a protagonista de todas as cenas. Era a melhor parte do meu dia, para ser sincera novamente. Por isso repeti esse ritual por tanto tempo.

Quando nem os antidepressivos faziam efeito, deitar àquela hora funcionava. Ou funcionou, até a hora que as correções tomaram todo meu tempo, inclusive do dia. Comecei a acordar cada vez mais tarde e lembro bem como isso aconteceu. Comecei a errar mais e mais feio para poder aumentar o sabor das correções à noite. Perdi a noção do erro. Errei fora de medida. Medi errado. Repetia-me com as palavras. Palavreava à toa. Até a noite em que percebi que melhor do que dormir para ajustar meus erros, era não acordar mais. Foi quando tomei a decisão. 24 anos eram muita coisa pra mim.

Um redator cabeludo que inspira, expira e aspira ser escritor. E que num dia de 1990, por alguns milésimos de segundo, foi a pessoa mais jovem do mundo. Filho de Pernambuco nascido em São Paulo. Nunca perde uma piada. Sempre esquece a letra da música.

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