Bestiário (1951) de Julio Cortázar

BESTIÁRIO inaugura a prosa de Julio Cortázar. Traz sete contos. Em Casa tomada, estranhos invasores apavoram um casal de irmãos. Resignados, vão aprisionando-se cômodo a cômodo da casa, até a expulsão final por um inimigo nunca visto: culpa? Incesto? Revolução? Noutra história, o protagonista vomita regularmente coelhinhos que esconde e cria em pânico. Em “Ônibus”, cada passageiro carrega uma flor e ameaça com olhares satânicos a indefesa Clara. Mancuspias enlouquecem lentamente seus tratadores pela exigência ritualística de cuidados. Em Circe, um rapaz relata seu namoro com a sedutora e misteriosa Délia, moça que levou à morte todos seus pretendentes. No conto título, uma garota passa férias numa casa onde todos precisam se adaptar à presença ameaçadora de um tigre feroz. Argentino (acidentalmente belga), Cortázar se autoexilou em Paris. Na infância de menino triste, solitário, doente, tornou-se um gigante, voz cavernosa do ciclope de Ulisses. Dentes ruins, amante do boxe e do jazz, escrita para ele era luta. Nele, insólito e  fantástico se constroem por narradores não-confiáveis (esquizofrênicos?). O absurdo é descrito como kafkianamente natural. Doença, melancolia, desejo e violência explodem nas tramas, de forma poética e enigmática. Escorado no mistério, a normalidade do mundo se faz de ponta cabeça.

Olhos operados, pêlos brancos que avançam, troca a noite pelo dia. Virou doutor na USP com 336 págs. sobre o sagrado em Guimarães Rosa. Filho-eterno de sua mãe; de seus irmãos, idem. Não gerou nem conquistou a sonhada independencia financeira. Cultiva amigos muito jovens. Tem amor por livros, filmes, arte. Ensina o assunto e faz filmes. Tem um blog REVIDE para falar de si e um pouco de tudo, como aqui, onde pousa no momento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *