Carolina Maria de Jesus: Fome, a grande boca do mundo

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Em abril de 1958, o jornalista Audálio Dantas,

ao realizar uma reportagem numa favela que crescia às margens do Rio Pinheiro (a extinta Canindé), deparou-se com a catadora de papel Carolina Maria de Jesus. Surpreendeu-o que uma mulher negra, filha de ex-escravos e mãe solteira de três crianças, cultivasse o hábito de escrever continuamente em cadernos (seus diários) sua difícil rotina de sobrevivência.

Tratada durante toda vida como pária social, era filha ilegítima de um homem casado. Sua mãe foi expulsa por um padre católico da igreja, por ter dois filhos fora do casamento. Talvez por isso, Carolina aprendeu desde sempre a não contar com os “homens”. Temia perder a liberdade de escrever. Por isso, mesmo assediada por homens oportunistas, jamais quis se unir a ninguém. Essa mineira da zona rural estudou até o segundo ano, graças à piedade da esposa de um rico fazendeiro. Aos 23, após a morte da mãe, migrou para São Paulo, onde construiu uma casa de madeira, lata e papelão para sobreviver e criar três filhos.

Quarto de despejo, o livro lançado tendo por base seus vários diários sobre sua experiência traumática de moradora de favela na São Paulo dos anos 60, tornou-se um fenômeno nacional e internacional. Neste “livro-depoimento”, reúnem-se as agruras diárias em busca de alimento (fome é a palavra onipresente quase no relato página a página, só comparável ao verbo “escrever”).

Em Quarto de despejo, a miséria é martelada dia a dia, compondo um doloroso e inacreditável painel de carências extremas, a derrubar qualquer possibilidade de visão idílica e/ou feliz de se viver na favela. Canindé é o inferno de Carolina, que não tolera “os favelados” (com os quais compartilha espaço, mas com quem não sente qualquer proximidade real).

O tom agressivo do narrado sobrepõe-se ao pessimismo, pois Carolina não admite ceder a ele. Seu relato é concreto, toda sua visão de mundo é objetiva e material, calcada na sobrevivência. O que não significa que não lhe escape, um olhar crítico sobre políticos e poderosos do Brasil; sobre a piedade falsa dos padres (para não dizer Igreja); sobre conflitos amorosos. Sabe principalmente o que é ser mulher, negra, miserável numa cidade que parece gritar riquezas nunca acessíveis aos pobres. Em sua “fala” não faltam contradições, mas sempre há espaço para contemplação da natureza e o olhar amoroso sobre filhos; mas que só consegue expressar na materialidade da vestimenta e da comida. Seu amor/paixão pelos livros e pela escrita é o que a singulariza. É da escrita que retira força e resistência. Escrever para ela é testemunhar, é denunciar a realidade. Seus diários são seu instrumento de poder ante os demais favelados, quase todos analfabetos. Seu grito de guerra é: “Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!”

O diário de Carolina Maria de Jesus foi publicado em agosto de 1960. A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana. Sua linguagem é simples e deselegante, retrato de sua pequena instrução, o que não impediu de Quarto de despejo tornar-se um best-seller na América do Norte e na Europa, pela força com que Carolina revela a experiência extrema de miséria. Mas seu sucesso trouxe-lhe problemas imediatos. Foi execrada na favela por vizinhos que a acusaram de “piorá-los” no livro, acusando-a de ter enriquecido sem compartilhar o dinheiro, chamando-a de prostituta negra e lançando pedradas e penicos cheios em Carolina e seus filhos. A raiva resultava da casa de tijolos que ela conseguira comprar num subúrbio, graças aos ganhos iniciais de seus direitos autorais. Seus vizinhos chegaram ao extremo de tentar impedir que seu caminhão de mudança deixasse a favela.

Carolina morreu em 1977, depois de publicar outros diários, um romance, livro de poemas e gravar canções, tudo sem igual repercussão de Quarto de despejo. Consumida como novidade e esquecida, em grande parte, foi a primeira e mais radical expressão de uma mulher pobre da favela. Ela foi a precursora de todos os escritores marginais e, até hoje, imbatível na expressão da força/resistência da mulher periférica.

Em nosso vídeo-homenagem – Carolina Maria de Jesus: fome, a grande boca do mundo – procuramos revelar a força dessa mulher, desta escritora que com escombros de uma palavra escassa, produziu uma obra de impacto onde pletora uma verdade raramente alcançada por “literatos profissionais”. Por isso ele é composto de vozes “não profissionais”, colhidas no centro de São Paulo, passantes que escolhera um trecho de Quarto de despejo e lhe devolveram a voz. São trechos fortes ou comovedores do livro-vida de Carolina, lidos diretamente para câmera, crus, sem ensaios, produção ou maiores aparatos. Por meio dessas múltiplas vozes tomadas do agito e algaravia de São Paulo, cidade que sempre tentou abafar a palavra de Carolina (sem vencê-la), resgatamos a sua história. Neste ano de 2014, ela faria 100 anos. Morta aos 63 anos, ela sobrevive e se revela em cada frase, não só o país, mas a interioridade de quem sabe que a fome e a palavra se saciam pela mesma via.

Olhos operados, pêlos brancos que avançam, troca a noite pelo dia. Virou doutor na USP com 336 págs. sobre o sagrado em Guimarães Rosa. Filho-eterno de sua mãe; de seus irmãos, idem. Não gerou nem conquistou a sonhada independencia financeira. Cultiva amigos muito jovens. Tem amor por livros, filmes, arte. Ensina o assunto e faz filmes. Tem um blog REVIDE para falar de si e um pouco de tudo, como aqui, onde pousa no momento.

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