Entre a vaidade e a vergonha

 

Fotografia por Mek

Ainda que o “dizer” seja, para mim, uma necessidade assumida, às vezes, silenciar torna-se ainda mais visceral. O poder de que a escrita ou a fala nos reveste, pode nos tornar vaidosos demais e daí para os palanques ou para a autoajuda é um pulo.

Na semana que passou, vi-me diante de um apelo quase que irrecusável: eu tinha de escrever sobre o dia da mulher. E ia esbravejar sobre as odiosas florezinhas e os parabéns quase artificial tão quanto os pêsames. Diria que “sobejavam nas mãos de homens desatentos flores que sempre faltaram nos túmulos daquelas mulheres que queimaram feito o sol…” Diria que o dia da mulher é dia de todos nós, uma vez que as conquistas delas nos tornaram a nós, homens, bem melhores do que fomos e que blá blá blá…

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.”, lembra-me Eclesiastes. Quando a gente fala alto demais, deve ficar atento para ouvir a própria voz. E me ouvindo, foi que me vi como tantos indivíduos boçais que, nos últimos meses, analisaram o país como se fossem mais donos do Brasil do que os outros tantos milhões de brasileiros, sentenciando ao inferno uma corrupção, que não enxergam na própria casa. A mediocridade é de uma cidadania extrema: tudo diz, sem filtro. Foi o medo da mediocridade que me emudeceu.

Senti uma profunda vergonha, então. Felizmente. E me calei. Felizmente! Na “sozinhez” é que nos despimos e nos encontramos. Não sou especialista de nada! Sou um sentidor de pequenas coisas e elas é que me impelem a dizer. Sou um colhedor de detalhes e instantes, de simplicidade e… Poesia.

Centrado em mim, é que abro as portas para a Poesia que chega. O acaso…

Ele vai viajar. Depois de reencontrado por nossa filha, o ex-aluno de minha mulher vai visitar a irmã, minha ex-aluna de tempos idos. Chegou do passado para ser tornar presente de todos nós. Sentou-se à nossa mesa e tomou café com bolo, bem ao estilo da roça. Trouxe-nos sua história: o rock, mais tatuagens, um parentesco esquecido… As coincidências rondando nossas vidas; os encontros bem planejados pelo Insondável… Marco na vida da gente é descobrir que a simplicidade é milagre diário.

A ideia de se despedir de alguém que vai na certeza de voltar parece ridícula. “Ora, a pessoa logo estará aí e…”  (É engraçado como algumas pessoas esperam que a lógica dome as emoções…)  Mas a imagem de alguém partindo sempre nos altera: a poeira apagando rostos na estrada, o azul envolvendo nossos afetos… tudo nuvem se tornando. É mais Beleza que tradução.

Fotografia por Mek

Entre a vaidade e a vergonha, a escolha é fácil demais. A primeira pode durar uma vida inteira e vive da ilusão de se querer parecer mais do que se sabe ser; a segunda surge em alguns momentos e desaparece logo, assim que assumimos ser o que sabemos…

É, não sei dizer de outras coisas. Só do que acontece no meu quintal. De mim só… Se dá vergonha às vezes? Claro que sim. Antes assim…

“Um caipira pleno”, como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor… à palavra.

6 Comentários para "Entre a vaidade e a vergonha"

  1. “Sou um sentidor de pequenas coisas e elas é que me impelem a dizer. Sou um colhedor de detalhes e instantes, de simplicidade e… Poesia.”
    Bem você.

    Gostei muito desse texto, me vi em outros trechos dele.
    Muito bom Valter. 👏👏👏👏

  2. Formidável! Viajei pra dentro de mim…
    No meu silêncio, no meu eu, no meu calar…
    Obrigada, Valtinho!
    Cada palavra sua é significativa para esse mundo de “quem sou eu”.

  3. Já que você tocou nas memórias – roça, café, bolo,… -, saudades dos bate-papos no Leão de Judá. Memórias boas de Edélcio, Seu Farina, Ikeda,…

  4. Não sou muito de ler esses textos na Internet, mas os seus leio sempre que posso!!
    Grande mestre, parabéns pelos ótimoseus textos!!!
    Abs.

  5. Admiro a sua capacidade de trazer à tona, através da magia da palavra, a infindável quantidade de reflexões que povoam o oceano do pensamento.
    Prossiga, meu caro. Você possui um dom raro!
    Um abraço

    Roberto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *