Sou escritor, com o mercado editorial em crise, como publicar meu livro?

Vamos fazer um exercício de imaginação: Você escreveu seu livro e o finalizou, apresentou para diversas editoras, mas todas negaram. Você começa a duvidar do próprio trabalho, mas, talvez, a culpa não seja necessariamente do seu livro. Claro que você deve fazer a autocrítica da sua produção, no entanto, não pode esquecer de inserir seu livro na conjuntura econômica do tempo que ele se realiza. Vivemos uma crise econômica desde que a bolha do mercado imobiliário norte americano explodiu, essa bolha, mesmo que você não queria acreditar, afetou todos os setores da economia, inclusive o mercado editorial.

Para entendermos com um pouco mais de detalhes o modo que essa crise afeta o mercado editorial separei algumas notícias e fontes.

Sobre o mercado editorial entre os anos 2013 e 2014, o estadão publicou o seguinte:

“Estimado em R$ 5,4 bilhões, o mercado editorial brasileiro está entrando em recessão. Segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial, feita pela Fipe por encomenda do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) e Câmara Brasileira do Livro (CBL) e anunciada ontem, dia 3, o crescimento real em 2014, ano-base do levantamento, foi negativo: 5,16% menor do que o de 2013.”

Matéria completa do Estadão CLIQUE AQUI

 

Sobre o mercado editorial entre os anos 2015 e 2016, o site Valor Econômico publicou o seguinte:

“O mercado editorial registrou no ano passado um faturamento de R$ 1,56 bilhão, o que representa uma queda nominal de 3,09% quando comparado a 2015. Considerando o volume, a redução foi de 10,8% para 39,4 milhões de exemplares, de acordo com dados da Nielsen, que fez o levantamento a pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).”

Matéria completa do Valor – CLIQUE AQUI

A crise no mercado editorial é necessariamente a diminuição da arrecadação líquida desse setor. O site da Fipe mostra, em seus relatórios, os dados da pesquisa “Produção e Vendas dos Setor Editorial Brasileiro” relativos aos anos de 2010 até 2016. Essa diminuição pode ocorrer por alguns fatores distintos, e afeta de modo distinto diversos setores do mercado editorial, mas de um modo geral as pessoas estão comprando menos livros, ou os livros estão diminuindo seu preço médio. É comum, e na realidade necessário, diminuir o preço de mercadorias em tempos de crise, pois essa é uma maneira de escoar mercadoria. O que se nota, no caso do mercado editorial, ao analisarmos os dados da pesquisa, é que, os livros estão parados nas estantes mesmo com a diminuição de preço médio para alguns gêneros. Notamos que em realidade (entre os anos de 2014 e 2015, por exemplo) o número de exemplares produzidos diminuiu, o número de exemplares vendidos aumentou, mas como os preços caíram então o faturamento do setor diminuiu. Para os outros anos verificamos variações, mas a indicação geral entre os anos de 2006 e 2016 é de diminuição no faturamento do setor, uma diminuição de 12,5% como nos informa o Globo em notícia de 2016:

Sobre todo o período de 2006 até 2016 o site o Globo publicou o seguinte:

“O mercado editorial brasileiro teve uma queda de 12,5% ao longo da última década, considerando a inflação do período. Em 2006, o faturamento do setor foi de R$ 5,98 bilhões (em valores corrigidos). Em 2015, foi de R$ 5,23 bilhões. O recuo foi mais acentuado nas vendas para o mercado (15,3%) do que nas vendas para o governo (2,4%).”

Materia completa do G1 – CLIQUE AQUI

Foi um encolhimento de 750 milhões de reais. São, portanto, 750 milhões, ou fração disso, que não pode ser reinvestido no próprio mercado. Mas como esse valor pode afetar o escritor propriamente dito. Porque esse encolhimento iria impedir a circulação do trabalho de qualquer escritor?

 

Como o encolhimento do mercado editorial pode afetar o Escritor?

Simples: As editoras irão apostar nas publicações que oferecem menor risco. O menor risco é o resultado de uma convergência de fatores. Livros Didáticos, por exemplo, oferecem um risco muito menor do que Poesia, que entra no segmento “Outros” da pesquisa da Fipe, dada sua expressão pífia em termos de números de vendas e arrecadação. Inclusive os únicos segmentos que cresceram no mercado editorial entre 2014 e 1015 foram os setores Didático e Religioso. Todos os outros setores, sem exceção, encolheram.

A literatura, que é o nosso foco nessa discussão, tem perdido espaço nas principais editoras em detrimento de histórias esquemáticas que tem forte apelo perante o público jovem, dois exemplos podem ser as modernas histórias fantásticas na linha de livros como Crepúsculo ou mesmo Harry Potter, embora Harry Potter seja mais complexo por ter se tornado um fenômeno de vendas e devesse estar em uma discussão separada da tendência geral do mercado. Assim como os livros de Paulo Coelho, Harry Potter é um ponto que esta fora da curva, mas por se tratar de uma discussão introdutória não vamos entrar nesse mérito. Setores como auto-ajuda possuem, ainda, saída, mas nenhum desses exemplos são o que podemos chamar de literatura. E isto é uma tendência de um mercado que degenera lentamente. O maior exemplo dessa degeneração e crise foi a falência da Cosac Naif no ano passado, que sequer conseguia pagar os custos das produções dos seus livros até que se viram obrigados a parar de produzir.

Algumas boas editoras continuam a produzir bons livros de literatura, no entanto se mantém editando e publicando livros de literatura que são os chamados clássicos, que, embora não vendam números significativos, vendem sempre e isso consegue mantê-las no mercado. Um bom exemplo pode ser a editora 34. Editoras nesse perfil não apostam em novos escritores nem de prosa e nem de poesia. A poesia tem ainda maior dificuldade de entrar em uma editora desse porte uma vez que algumas tem em seu catálogo de poesias poucos títulos e não estão dispostas a inserir outros, ainda mais se forem novos autores. A editora Leya publica Manoel de Barros e Fernando Pessoa, que são clássicos, Carlos Nejar, Saulo Ramos e Marcelo Yuka, que são autores já de longa estrada, mas não publica nenhum jovem autor. A editora Rocco publica apenas 2 títulos de poesia mas possui vários de histórias infanto-juvenil. A extinta Cosac tinha mais de 10 títulos de poesia de autores contemporâneos e jovens. Claro que isso é uma ação coordenada para garantir que as perdas sejam mínimas em um tempo de crise. As editoras não podem apostar em novos escritores e muito menos em um setor como o de poesia, por exemplo, que tem uma saída bastante pequena mesmo de autores consagrados.

É importante ter em mente que infelizmente o brasileiro tem um baixo ritmo de leitura. De acordo com a divulgada esse ano pelo Instituto Pró-Livro “A leitura é um hábito de 56% da população brasileira.”, já a pesquisa “Retratos da Leitura No Brasil” indica que “44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro”.

Sendo essa a realidade do mercado editorial brasileiro e sendo essa a realidade do consumidor de livros do Brasil, as editoras, como apresentado, tem um recuso limitado para ampliar seu catálogo no que diz respeito a literatura contemporânea pelo fato de que, além do custo da produção do novo material, deverá investir em divulgação desse material para que ele tenha escoamento, o que causará um custo maior. Então, como vivemos um momento de crise, as editoras preferem apostar em clássicos da literatura mesmo que seja estrangeira e que isso gere um custo com bons tradutores, pois a venda é certa, assim como escolherão apostar em gêneros literários populares em determinados segmentos

Esse é o panorama que o escritor vai encontrar e, ainda que ele seja bastante ruim, fora desse mercado existe um público carente de boa literatura. Que mesmo sem saber objetivar porque um bom livro o agrada percebe a diferença entre literatura e livros de rápido consumo e substituição.

 

Quais são as alternativas para publicação?

O escritor contemporâneo tem que jogar com a realidade que lhe cerca. Tendo em vista tudo que foi apresentado ele não pode contar apenas com as editoras, isso não quer dizer que não deva seguir mandando seu material para essas editoras, mas deve apostar em sua autonomia.

Hoje existem algumas boas alternativas para mostrar seu trabalho, e o ideal é que todas trabalhem juntas. Ter um Blog, Site, página no Facebook, canal no Youtube, conta no Instagram, todas essas ferramentas são indispensável. Por meio desses canais o escritor, e os artistas em geral, podem criar mecanismos para divulgar seu trabalho. Mas tenha em mente uma coisa: Facebook e Youtube não são sites gratuitos. É necessário investimento em anúncios e organização em campanhas onde com o mínimo de dinheiro investido seja possível o máximo de retorno no que diz respeito a divulgação.

Para a produção de um material físico, um livro, o artista pode recorrer direto às gráficas. Ligue para um numero grande de gráficas e veja se fazem livros e quais os formatos e papéis utilizados, você verá que o custo em uma gráfica é muito menor que o sistema que algumas editoras inventaram para ganhar dinheiro em tempos de crise, que é o seguinte: As editoras abrem selos menores com títulos atraentes que passam uma ideia de investimento em novos escritores, você envia seu material e elas dizem que seu material foi selecionado e que você pode publicar com elas. Tudo que você deve fazer é arcar com os custos de produção que ficam acima de dez mil reais. (em realidade você não está arcando apenas com os custos de publicação. Você esta cobrindo os custos e gerando lucro para a editora).

Nessa dinâmica o autor pode comprar uma parte da tiragem (que foi paga por ele) por 50% do preço de capa (que representa uns 60% do custo de produção do material). A editora promete um lançamento em uma livraria de renome, ISBN, registro na biblioteca nacional e seu livro no catálogo de tal livraria de renome. Parece um negócio bom? Claro que não. O autor como pessoa física pode registrar seu livro na biblioteca nacional e gerar seu ISBN. Alguém pode pergunter: “Ah, mas não é bom ter o livro em uma livraria de renome?”. Não necessariamente. O livro estar na livraria de renome não indica que ela (a livraria) trabalhará na divulgação de seu livro. Na pratica ele se converterá em um título perdido entre milhares.

Não caia nessa. Você pagaria pela produção do seu livro, você compraria uma parte do livro que você pagou e ganharia uma tarde de autógrafos e uma divulgação mal feita, isso não é ser escritor, é ser um encomendador de livros que por já estarem pagos não precisam ser vendidos, o autor já os comprou e a editora ainda pode vender de novo. Não é genial? Vender o mesmo material duas vezes? Mas como ela já lucrou com seu material, se não os vender não é problema algum para ela, apenas para o autor.

Se for para trabalhar nessa dinâmica produza seu material de modo independente. Eu produzi meu livro “Eron Nicodemus” de forma totalmente independente e com um valor 5 vezes menor do que as editoras me cobravam para publicar e ainda paguei em 10 vezes – Em tempos de crise as gráficas, e algumas editoras menores, oferecerão descontos e formas de pagamento inimagináveis.

Invista em livros menores se for mais barato e faça tiragens pequenas e mais simples. Gere esse material e venda em eventos, crie eventos literários como Saraus, ou frequente tais eventos e mostre seu trabalho. Há ainda uma outra possibilidade para gerar seu material: os financiamentos coletivos.

Financiamento coletivo nada mais é que um grupo de pessoas comprar um produto que ainda não está pronto. Se você tiver um número de pessoas que acompanha seu processo de produção certamente conseguira, com um pouco de trabalho, sucesso no financiamento da produção de seu material.

Tudo que fizer e produzir mostre nas mídias. Mostre que está produzindo. Faça vídeos simples lendo trechos do seu material, enfim seja criativo, mas acima de tudo crie lentamente o seu público. Você não precisa de milhões de pessoas te seguindo e, muito menos, de milhares de vendas. Você precisa de um número de pessoas que goste do seu trabalho, que acompanhe seu processo de produção (essa é a importância de utilizar os sites e tudo que a internet propicia) e que compre seu material. Procure alternativas para sua produção e esteja presente no máximo de ações possíveis que envolvam seu público.

Bem, depois disso, bom planejamento e bom trabalho.

(Imagens: reprodução web)

Professor de física, músico e poeta. É autor do livro de poesias "Eron Nicodemus" e o disco "Doze Poses". Seu trabalho busca relacionar canção, poesia e fotografia. Além da preocupação com a própria produção estética, acredita ser importantíssimo discutir a arte entendendo-a dentro do desenvolvimento histórico. Aqui se faz um espaço para isso. Bem vindos!

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