Não mais

Há já algum tempo tinha pensado em entrar naquele bar. Era um desses lugares em que as pessoas se encontram nas noites quentes de sexta-feira. Não via muitas pessoas felizes, ainda porque não saberia reconhecer uma expressão tão estranha e complexa.

Mas era um ambiente em que todos falavam bem alto e às vezes riam. As pessoas pareciam conectadas umas nas outras. Seria, ao menos, uma experiência nova, diferente… não, seria mais que isso!

A vontade, a curiosidade, a necessidade o desafiavam por meses. Mas contra tudo, havia o medo, a inexistência  de alguém que o acompanhasse, e a incompetência para se fazer acompanhado lá… Era isso o que mais o incomodava. E o impelia também.

É claro que já tinha ido a outros bares no passado. O que havia sido dos últimos 30 anos? O que fora feito de tanta coisa que sabia fazer, além de nunca frustrar ninguém no trabalho? Ás vezes se perguntava e, quando queria, conseguia fazer de conta que não sabia a resposta…   

Fotografia por Mek

Foi uma mulher que se aproximou primeiro. Uma morena bonita de olhos profundos, mas de um sorriso perdido, sem nenhuma objetividade…

“- Você está sozinho?”

“- Não mais.”

Trabalhou. Muito. Dentro e fora de casa. Estudou… menos do que queria, só o que as prioridades permitiram. Sustentou a casa, cuidou dos pais até que se visse com uma habilidade inútil para cuidar de um mundo que o não incluísse. A casa permanecia impecavelmente limpa – sempre -, mas era assustadoramente grande, apesar de tão pequena.

Apesar dos olhos tristes, era um senhor distinto de riso largo e falso, sempre convencendo todos de uma paz que ele jamais tivera. Uma pessoa rodeada de amigos, mas sem interlocutores. Talvez por isso jamais tivesse se casado ou crido que pudesse ter sido pai de quem quer que fosse. Havia passado fácil em vários concursos e escolheu aquela função no funcionalismo público que melhor pagava e que mais fosse capaz de escondê-lo.

“ – Mas o que um homem tão interessante faz num lugar como este? E sozinho! Ah, é.. não mais, né?”

“ – Talvez estivesse esperando a mulher certa…”

“ – Hum… e será que essa mulher acabou de chegar?”

“ – Não sei. Mas vamos descobrir em pouco tempo, não é mesmo? Posso te pagar uma bebida?”

“ – Claro.”

Extremamente atraente, ele sempre sabia como manejar as palavras. Os diálogos se tornavam envolventes e sedutores. Mas sua exigência para com o mundo havia se tornado grande demais, talvez… Era ele implacável com vulgaridades ou  com a estupidez. Inteligente demais para se reconhecer atraente; bonito demais para saber medir a extensão do seu magnetismo. Um homem perigosamente raro.

Foi o tempo de pegar o copo e se retirar, irritada. Menos com a rejeição do que com o sarcasmo… Sozinho ele pensava: “bom, pelo menos a constatação não me tomou muito tempo…” Sua inteligência, sua cultura afastavam as pessoas, ele sabia. Pagava pra ver até onde chegariam as relações. Desafiava. E sempre ganhava (?)… Mas nem sempre reconhecia, por isso bebia. Em casa, geralmente, sozinho: bêbado, quase deixava de pensar.

“ – Mais um chope e uma cachaça, por favor?”

“ – Ué, e a moça?”

“ – Foi embora.”

“ – Ah…”

Ah, a simpatia no comércio!, pensou. “Um brinde ao farto trabalho dos Coachs da área comercial!”

“ – Posso me sentar aqui?”

Não reparou de imediato no moço que lhe perguntava. Um jovem de uns 28 ou 30. Barba serrada, ligeiramente alto e trabalhado a ferro, fogo e halteres, como desses tantos garotos que – inacreditavelmente  -, gostam, de fato, de academias.

“ – Você está sozinho?

“ – Não mais.

“ – Você vem sempre aqui?”

“ – Só quando você vem.”

Era o suficiente. Porta aberta para a exposição… Um jogo de sorrisos e olhares e uma imensidão de frases em cujas brechas boiavam canoas num mar de… possibilidades.

“ – Mas, vem cá… como é mesmo o seu nome, rapaz?”

“ – Bruno.”

“ – Certo, Bruno. Me diga uma coisa, eu não sou um tanto velho pra você.”

“ – Não, que isso, você tá interão… Além disso, eu gosto de homens mais velhos.”

“ – Ah, é? Sei… E por quê, heim? O que você faz com os homens mais velhos, além de transar com eles?”

Foi como se aquele jovem estivesse diante de uma questão química orgânica. Hesitação e dúvida, mudeza e engasgamentos…

Dispensou mais um programa, na certeza de que a masturbação está entre as maiores descobertas da humanidade, perdendo, quiçá, apenas para o fogo e a roda… Pagou a conta e saiu do bar com toda a zonzeira que merecia. Pegou um táxi, ainda cheio, cheio de pensamentos que não paravam de se construir.

Um dia, um único dia sem pensar… era só o que queria.

Chegando no portão de casa, percebeu que não tinha as chaves: nem do portão, nem de casa, nada. Sentou-se, então, no meio fio. Encostado numa árvore, recebeu a companhia de um vira-latas que lhe reconheceu a alma. Viram juntos o dia amanhecer, a movimentação das pessoas e suas funções, a mesmice da rotina, sem escapismos. Olhando toda aquela agitação tomando corpo, entenderam bem rápido que algumas pessoas só vêm nesta vida para trabalhar.

“Um caipira pleno”, como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor… à palavra.

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