O dia seguinte ao encantamento de meu pai…

O dia seguinte ao passamento de um afeto, do “encantamento” de alguém que amamos é feito de um cansaço cheio de particularidades sempre desconhecidas.  Você acorda na manhã seguinte como se a intensidade de tudo o que se viveu tivesse sido um sonho.

Foi assim que despertei hoje. Como se ontem tivesse sido um sonho. Nem bom, nem mau: um sonho apenas. Bom é viver: mau é não ter consciência… é não saber… “dizer”.

Fotografia por Mek

A verdade é que chega um tempo em que os filhos se acham diferentes demais de seus pais. Meu pai era bom comerciante, além de um comerciante bom. Começou com uma vendinha o “Seu Amadeu”, que se tornou referência no bairro, na cidade…

“ – Ah, mas você é filho do Amadeu?! Conheço muito ele!…” e o sorriso que acompanhava a frase denunciava o peso agradável de se ser filho de alguém tão respeitado.

 Uma vez, ele dissera do orgulho de um senhor que tinha um filho “doutor”… Eu até tentei ser advogado, passei no vestibular, estava tudo certo, mas sentia os alunos me chamando. Teria de deixar uma turma do noturno sem professor… No dia da matrícula desisti, ainda na fila.

Quando o coração do meu pai nos assustou pela primeira vez, o patrimônio de uma vida tão respeitada recaiu sobre mim e foi sob os olhares de todos que minha inépcia para o comércio foi ratificada. Eu envergonharia demais o Seu Amadeu, se levasse à ruína tudo o que havia conquistado. Voltei para as aulas, para os estudos.

Ele foi parando de trabalhar, enquanto eu, no meu tempo, trabalhava sem parar. Os dias correndo, correndo e eu quase sem o ver, mesmo que… tão perto de mim… tão longe de mim.

Ele gostava de carpir (veja isso!…). Quantas vezes, surgia no quintal de minha casa, sempre junto de minha mãe, os dois debaixo daquele o sol que Deus mandava…

“- Viemo carpi um poco…”

“- Mas mãe, neste sol…”

“- Ah, é gostoso…”

“ – Pai?..” Apelava para ele, como se ele tivesse um pouco mais de bom senso e mudasse de ideia. E ele tinha. Seu Amadeu era todo sensato. Por isso, carpia também. E quando cansava, sentava-se à sombra da amaoreira, no banquinho que ele mesmo tinha feito.

“ – Pai, não tá quente demais? Não vai fazer mal?”…

“ – Tá bão, tá bão…”

Os diálogos eram rápidos assim. Eu até me escondia dentro de casa, envergonhado diante de tanta disposição, enquanto eu nem tinha vontade de me levantar do sofá no fim de semana.  Ia anoitecendo, quando via os dois se indo, chapéus na cabeça, enxadas nos ombros e aquele ar de quem fez o que tinha que fazer, de quem se divertiu tirando um pouco do mato do mundo…

“ – Tá bão, tá bão…” Foi o que ele me disse e que mais me marcou nos últimos dias. O mantra aprendido, que mais tem me socorrido quando me lembro de tudo o que ele foi…

No auge de seu sofrimento, sentindo dores lancinantes causadas pelas inúmeras doenças contra as quais lutava, sem acessos nas veias dos braços já tão inchados, tossindo até perder o fôlego…

“ – Tá doendo pai? O Senhor precisa de alguma coisa?”

“ – Não. Eu não preciso de nada.  Tá bão, tá bão…”

“ – … Pai, o senhor é muito valente. Eu… acho que não vou ser tão valente assim…”

Quase sem mais poder. Ele sorriu pra mim nesse dia e conseguiu responder:

“ – Vai, sim. Craro que vai.”

Ele tinha uma Kombi amarela e adorava nadar na praia, gostava de moda de viola, era um contador de causo, nunca desistia de nada… era humano demais e falhava e acertava. E trabalhava e gostava tanto do “sorzinho” da manhã…

E eu sempre me achei tão diferente e me culpei sempre tanto por isso!… Mas nesses últimos dias, ali, diante daquele homem tão simples, tão admiravelmente forte, de repente, senti que tudo, tudo, tudo estava certo, estava como tudo tinha de ser… eu não era o filho comerciante, nem doutor… mas tão orgulhoso de ser o caipira que eu sou, cheio de simplicidade e sensibilidade, um contador de causo também, talvez o único capaz de contar a história dele como se deve…

Estou agora debaixo do “sorzinho” que agora é meu e que deixarei aos meus filhos. O amarelo daquela Kombi envolve tudo e me sinto indo à Aparecida do Norte para agradecer o pai, a mãe, a família que eu tive,… a sabedoria infinita de Deus para conduzir nossa vida… Mas eu sei que meu pai não estará conosco. Talvez na praia, nadando, brincando como o menino que sempre se manteve e com quem eu aprendi a ser como sou.

Quem sabe eu até aprenda a tocar viola um dia…

Talvez não. De qualquer forma, como diria o Seu Amadeu, o meu pai…

“ – Tá bão, tá bão…”

“Um caipira pleno”, como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor… à palavra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *