Os banquinhos que cabem a cada um de nós

Que mistério pode haver nessas imagens indo e vindo na nossa mente? Que verdades haverá nessas vozes todas nos trazendo o passado? A vida que se teve, de repente, chegando e tornando mudo o presente. Mudo…

“ – Li seu livro. Não sei… o jeito que você escreve, faz parecer tão fácil escrever. Até me deu vontade de escrever também. E de falar… e de…

“- Dizer?”

“ – É. De dizer…”

Fotografia por Mek

Emendou-se nesse diálogo rápido com aquele meu leitor um constrangimento. Uma tentativa de se explicar. Não que ele estivesse desvalorizando meu talento. Não, claro que não. Sabia que era coisa difícil. É preciso talento. Sim, senhor…

Achei graça, então. Talvez porque a gente que tenha nascido para se sentir ensinando tenha muito claro para si próprio que nosso ofício maior é mesmo o de tornar capazes as pessoas. Que lindo seria poder inspirar, de fato, as pessoas a dizerem simplicidades! Quantas almas poderiam “prosear” nos corações de versos que somos?

“Eu não sei escrever bonito…” Quanto equívoco! A Beleza está no gesto, não na forma. Assim como um presente não depende do papel brilhante que o envolve, as palavras só servem para enfeitar: olhares, amores, instantes, amizades… Eternidades. Curioso, entretanto, é que tantos se preocupem em estudar para escrever sobre política e ciência e se julguem capazes de dizer sobre os rios que só correm fora de si.

Não foi a primeira vez que eu ouvia aquilo. Várias outras pessoas já me haviam dito coisas semelhantes. Alguém chegou mesmo a confessar que depois de se haver “blindado” das emoções, a minha presença incômoda obrigava a reconsiderações: “Por se mostrar tão sensível você me faz crer que expor minha sensibilidade não trará problemas…”.

Ah, que linda coisa de se ouvir! É como um piquenique à sombra de uma árvore generosa: a gente dividindo coisas, as pessoas desarmadas, longes desses tempos de ódio… Então minha vulnerabilidade à mostra lembrou-lhe da sua humanidade? Que bela tarefa cumprida!

Depois do texto da semana passada (“Entre a vaidade e a vergonha”) recebi uns depoimentos que me trouxeram muita coragem para continuar… “dizendo”.  Senti-me, então, perdoado, por apresentar minha arte modesta, sem arremedar engajamentos drummondianos… Sou um artista de inclusão, admito! Mas somos todos importantes sendo só o que sabemos ser: alguns dizem; outros nos encorajam a dizer.

Foi ainda nessa semana que o sol bateu na minha mão de um jeito doido e um pardal chegou bem perto só para me dizer, feliz, que era bom voar. O celular anunciou uma mensagem. Era o Luís, uma dessas pessoas que a gente só conhece nessa virtualidade e que, talvez, jamais vejamos pessoalmente.

“Você reparou que eu não puxo conversa… Mas pensei em você agora. Vou te elogiar…” e aquele moço sempre calado seguiu dizendo, dizendo, dizendo… o quanto eu o inspirava a aprender a querer dizer pela vida… Houve uma festa colorida em mim. Houve gratidão. Ouvi Deus e aquilo me trouxe a cena final de “Zorba, o grego”, em que o protagonista caipira desconstrói a fria etiqueta inglesa falando ao amigo: “Você é o homem que eu mais amei na vida!”

Meu pai foi uma linda história aqui da roça. Fez banquinhos de madeira tão bonitinhos que ficaram dentro da gente!… No outro dia, a mulher mais rara que me escolheu, falou assim: “Suas palavras ficam dentro da gente. Como pode?”

“- Vou cumprindo o que me cabe, pai!…”

Fotografia por Mek

A história bonita que quero deixar, tomara, seja contada, um dia, justamente por quem acreditava não saber dizer…

"Um caipira pleno", como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor... à palavra.

18 Comentários para "Os banquinhos que cabem a cada um de nós"

  1. Quantas histórias temos por contar e sem jeito para fazê-las?
    Mas sempre encontramos,de uma forma tímida ou de uma forma espontânea e divertida de contá-las.
    Mas sempre teremos histórias para contar….

  2. Seus textos sempre me encantam. Além de excelente escritor, escreve com uma leveza que inspira, é uma pessoa ímpar! Parabéns

  3. Há tanta sabedoria no que você escreve… Tanto amor… A gente se sente até acolhido pelas palavras (saídas do seu coração grandioso…)!

  4. Meu querido amigo Valtinho, “falar” e pensar com vc sempre são experiências de grande enriquecimento. Gratidão!

    Por favor, volta pro Face, nos permita sua presença mesmo que virtual.

  5. Ah, eu ficaria no banquinho, sentada, lendo e relendo seus textos…
    Isso me faria um bem danado, talvez eu voasse como o passarinho, viajasse em suas palavras, sem me preocupar com o tempo…
    Talvez, no mesmo banquinho, eu marcasse um encontro diário comigo mesma, “proseasse” com meu “eu”…
    Traga os banquinhos pro meu quintal, amigo…
    Bom seria ler você ao vivo né? Rs
    Parabéns!

  6. “Zorba, o grego”, em que o protagonista caipira desconstrói a fria etiqueta inglesa falando ao amigo: “Você é o homem que eu mais amei na vida!”
    Achei que só eu tinha visto esse filme, e só eu tinha me impactado com essa frase. Não estou sozinho! kkkk
    Valter, obrigado por me fazer sentir melhor, mesmo sem estar do meu lado. Sua “arte modesta” fala comigo.

  7. Q lindo caro amigo, seu pai onde quer q esteja está muito feliz em ser pai.bjs .Sou sua fã.

  8. Depois de ler este texto… só me restou inspirar e expirar profundo, só isso!!!!!! 👏👏👏

  9. Depois de ler este texto… só me restou inspirar e expirar profundo, só isso!!!!!! 👏👏👏 meus pensamentos ficaram mudos.

  10. Talvez vc realmente inspire as pessoas a “dizer simplesmente “, mas a beleza está na ótica de quem ouve. Sua sensibilidade consegue enxergar o belo e transformar em textos únicos que só alguém com talento pode fazer. Muitas vezes dizemos a mesma coisa, mas suas palavras estão cheias de poesia. É como se o seu presente, mesmo igual, viesse sempre no embrulho mais bonito.

  11. Valter, acredito que quando volta para casa, cheio da pesquisa do dia, com certeza, seus olhos vão plenos do elefante de Drummond. Parabéns pela simplicidade dos banquinhos de madeira de um empório do meu passado! Obrigado por celebrar a vida com a palavra de um eterno aluno! Viva!

  12. Ainda ontem, expondo aos alunos a hierarquia das necessidades de Maslow e falando sobre o nível mais elevado desta escala, que é a auto-realização, citei como exemplo os escritores, que além da sensibilidade, como matéria-prima essencial no desempenho do seu ofício, requerem uma dose razoável de coragem para expôr as suas memórias e pensamentos e para submeter a sua criação à crítica alheia, muitas vezes equivocada, raivosa e carregada de uma dose de inveja diante de talentos raros e abençoados como este que te foi concedido.

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