Quero a companhia dos artistas

Arte por Stinkfish

“Nietzsche acreditava num tempo em que a arte ocuparia o lugar da ciência e da religião…” quando li isso pela primeira vez, fiquei pensando se o autor de O Anticristo, sem saber, não estivesse  se referindo a esses nossos tempos de agora. Meus parcos conhecimentos de filosofia me impediram de concluir, mas para um bom caipira que sou, as conclusões não me importam tanto. Aqui na roça, a gente vive mesmo é de sentir. De intuir… Quando alguém da cidade, cheio de instrução e intelectualidade nos desmente, então a gente diz…”Ah, então tá.”

Mas esse moço que nos apresentou Zaratustra estava certo demais. O esgotamento das religiões e de toda a sua politicagem nefasta não nos manipula como antes. Já sabemos que a lepra não é um efeito na carne do apodrecimento da alma, já não nos assusta a apresentação de um Cristo que a própria “palavra” não confirma… Nem Ele quis nos “salvar a qualquer custo”. Antes perguntava: “O que queres?” Muito distante dos religiosos de carteirinha que supõem saber desse universo que habita em cada um de nós… tão lindamente… diferente!

E acertou ainda uma vez mais Nietzsche, ao supor que a ciência não daria conta de tudo. Inegáveis os benefícios, as conquistas… mas infelizmente ela não conseguiu se domar a ela própria. A máxima de que “tudo o que não tem explicação ainda terá” não nos levou a um outro lugar que não à vaidade indissoluta, a um descontrole que cega o próprio pesquisador, incapaz de se ver satisfeito com as próprias descobertas, uma vez que cada lacuna traz ainda mais e mais lacunas.

Arte: Os Gêmeos | Fotografia por Paulo Lacerda

Eis que surge a arte! Redentora, lembrando-nos de quem somos, do amontoado de dúvidas somos e do oceano de possibilidades que encerramos. Creio no poder da arte para fazer um religioso fanático a se encontrar com sua prepotência em tudo julgar, sem perdão… nem de si mesmo! Creio no poder da arte conduzindo um cientista fanático ao abismo a que só o ego descontrolado pode nos levar… creio nesse tempo em que “A arte ocupará o lugar da ciência e da religião”.

A água do planeta está acabando. Mas não é a antevisão do apocalipse que nos faz pensar em diminuir o tempo debaixo do chuveiro, nem as verdades inconvenientes com seus números aterradores… Mas a fotografia daquele Tietê em que pescava com meu pai, aquele curta, aquela pintura… aquela poesia. Ah, pode mudar… só ela pode fazer mudar: a Arte. O encontro com a Beleza!

Não acredito na força das ações que não advêm do sentir. Por isso, relativizo o poder do cinza sobre o muro. As tintas do grafite pulsam e pulsarão com força mais do que suficiente para voltar. As mãos coloridas do artista têm vida e reflexão! E despertaram mais da vida em nós. A cor ainda está lá… está  aqui… comigo!

Sopa de letras por: DUEL + GIZ + PF + SU + DET + CHINO

Quero a companhia dos artistas! Preciso deles. Mas, por Deus, todos precisamos! Que de ninguém é melhor estar quando se toma um bom vinho, em torno da fogueira, queimando tudo… Que não há ninguém melhor para nos ensinar a dizer um libertador “NÃO SEI!” a nos lembrar que podemos reaprender uma verdade pós-iluminista: sinto, logo existo.

Nesses dias em que uns tantos querem me salvar; outros, tudo me explicar, tenho me lembrado muito do “Poema em linha reta” do Pessoa e do “Ponto de mutação” do Kapra (Frejot): Estou farto de super-heróis tão mal acabados que não conseguem salvar sua própria alma da culpa por só saberem julgar; intelectuais e estrategistas perfeitos, incapazes de resolver equações familiares…

Preciso da companhia dos artistas para me embriagar da beleza espalhada no mundo, para dividir os arremedos de Deus pelo mundo: a voz da Bethânia, a linha do Rosa, a dor da Cecília… preciso do artista para me lembrar dos preconceitos que me impedem de ver a voz nos alargadores e nas tatuagens, no funk, no rap… para me fazer reconhecer no que ainda não sei ver, a Beleza que há… como um leigo vai aprendendo a ver Bach no Vila Lobos nosso.

“– Espírito artesão, me socorre e me inspira a querer ser igual a essa gente bonita! Deus da Beleza, me engana se for preciso, mas me faz crer só no que desejo: que posso fazer, que sei tentar, que sou… Arte também.”

"Um caipira pleno", como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor... à palavra.

13 Comentários para "Quero a companhia dos artistas"

  1. Parabéns Valter lindo texto do qual vc tb faz parte repartindo à nós sua arte, com suas palavras…

  2. Este é meu amigo irmão. Inspirado. Belíssimo texto que nos leva a reflexão. Deus é a maior expressão da Arte: na delicadeza e beleza das flores, no vai e vem do mar, na perfeição da máquina humana e animal e tantas outras maravilhas que ainda, por nossa ignorância, não conseguimos ver. Não vemos nem a beleza que os artistas produzem. Quem sabe um dia?

  3. Parabéns, Valter. Mais uma vez o texto é prazeroso de se ler! Você é um artista. Me orgulho de ter aprendido tantas coisas com você!! Que esse projeto seja cheio de sucesso porque você merece.

  4. Que delicia de texto. Parabéns Valter ficou excelente! Só pra constar que pirei nesse trecho ” Não acredito na força das ações que não advêm do sentir. Por isso, relativizo o poder do cinza sobre o muro. As tintas do grafite pulsam e pulsarão com força mais do que suficiente para voltar”

  5. Bão de mais sô!!!
    Perfeita análise, adorei a citação do ponto de mutação.
    A arte é mesmo uma corda comprida que resgata a gente neste sertão.
    Parabéns

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