Um abrir de mãos

Gosto de mãos. Gosto de sentir as mãos. Gosto de tentar ler as pessoas pelas mãos que se me estendem… Acalmam-me vê-las correndo pelo teclado ou deslizando sobre o papel, desenhando o que eu sinto, dizendo o que meu espírito pede. As mãos, para mim, são palavras.

Não ao acaso, penso, conseguem dizer aos que não nos ouvem de modo convencional. As libras são o signo que sabe dizer quando os outros fracassam…

Fotografia por Mek

Toda vez em que sinto mãos calejadas, eu me curvo, em respeito. Alguém do outro lado há de ter sido ainda mais resiliente do que eu soube ser. Talvez tenha sido mais torturado pelos fantasmas do estresse e da ansiedade do pânico e da grande tristeza que deixa marcas indeléveis no corpo e na alma!…

Sei bem, entretanto, que mãos finas e lisas podem carregar, igualmente, dor e sofrimento. Nem todos os semblantes alegres dizem a verdade, nem todos os olhos brilham felizes. Posso ter visto muitas letras, mas nada sei sobre as mãos daqueles que pousaram seus olhos sobre mim. E lamento por isso, porque a todos esses, por sua generosidade e confiança, eu já lhes beijaria as mãos, demoradamente…

De onde eu estou, não consegui ver as mãos dos que buscar aprender, mas sei que elas se abriram para mim, deixando um rio de desejos e emoções passar… Talvez nenhuma outra expressão linguística seja tão cheia de Poesia quanto a imagem sugerida em “abrir mão”.

Nossas vida são tão cheias só de idas. Tudo vai, tudo flui, tudo segue… e, por ter de escolher, a gente vai “abrindo mão”. Sempre que eu estou tão perto de me despedir, fico  pensando de quantas coisas e pessoas  temos de “abrir mão” até chegar aonde estamos. Prontos para passar por uma ponte que, talvez, tenha de se quebrar, assim que  a atravessarmos…

Você abriu mão de manhãs ensolaradas? Abriu mão de noites quentes ou geladas madrugadas, apagadas que seriam sob os cobertores do descompromisso? Você abriu mão de pessoas que não quiseram te acompanhar, ou não souberam, ou não quiseram?… O consolo desse seu abrir de mãos é que estivemos juntos e abrimos mão de uma realidade lá fora, compensada pelo encontro nosso aqui.

Minhas mãos estiveram abertas também, mas para receber você. E abençoar na mesma medida em que você me abençoava. Por isso, não fez frio aqui. Por isso, houve tantos mistérios por aqui…

Toda vez que temos de nos mudar, temos a esperança de que o recomeço vá nos refazer também. Toda vez que entramos em lugares novos, nossa alma tem o ímpeto de viajar para se reconhecer e se achar na novidade e aí, somos tentados a acreditar que seremos outra pessoa. Que depois de passarmos por tantas provas estaremos prontos para sermos “alguém”.

Nunca conheci alguém que me chegasse sem história. Nunca soube de alguém que fosse uma folha em branco, sem nada para olhar, sem nada para ler. Vi nos olhos e na voz, no sorriso e no pranto um mar de sentimentos e uma legião de outras pessoas, sussurrando carinhos e amores… Uma pessoa é feita de superações e conquistas, fé e desespero, humanidades exatas… e é assim que as pessoas que passam por mim vão se mostrar: inteiras, sem um pedaço sequer faltando.

Somos parte da paisagem, agora, lembranças espalhadas no caminho, parte do tempo que passou. Se vamos nos rever, talvez… mas não mais nesse agora! E isso nem tem mais importância. De certa forma, estaremos sempre juntos, porque, nas linhas de nossas mãos perenes, ficam tatuadas a minha imagem na sua, a sua na minha… mesmo que tenhamos de dizer… “tchau”, com as mãos, cheias de histórias pra levar…

“Um caipira pleno”, como se autodenomina, Valter de Moraes é natural de Biritiba Mirim. Formado em Letras e Pedagogia, dedicou 30 à Educação, lecionando Português e Relações Humanas nas mais diversas realidades do ensino. Atualmente, além de professor no ensino médio e técnico, atua como palestrante, consultor de Língua Portuguesa, escritor e celebrante, ou seja, onde quer que possa exercer e demonstrar seu amor… à palavra.

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