Diário de Pedradas: Cassiano – Apresentamos Nosso Cassiano (1973)

Zico nunca ganhou uma Copa do Mundo. Chaplin nunca recebeu um Oscar como ator. Gandhi foi morto por um hindu. Cassiano, um dos maiores cantores que o Brasil já teve, vive hoje no esquecimento. Pai da Soul Music brasileira, ao lado de Tim Maia, o músico paraibano é muito mais do que um Otis Redding abrasileirado. Seu estilo inconfundível de cantar, mais seu grande talento como compositor e arranjador, deram profundidade e lisergia à música negra feita no Brasil. Depois dele nada seria igual.

Cassiano

Ainda citando o Síndico, o mais prestigiado quando falamos de Soul brasileiro, vale lembrar que Cassiano foi o guitarrista do primeiro disco de Tim, e também o autor de sucessos como Primavera e Eu Amo Você. Em entrevista ao Estadão, disse certa vez: “O Tim Maia era o mais próximo de mim, de dialogar sobre música. O resto dizia que eu era um bicho estranho”. Cassiano estava à frente do seu tempo: misturava bossa nova com rhythm and blues, antecipando muitas coisas que Stevie Wonder faria depois.

Da parceria com Tim, veio o contrato com a RCA, e o primeiro disco solo, Imagem e Som, de 1971. Embora seja um bom álbum, sua obra prima viria em 1973, com Apresentamos Nosso Cassiano, lançado pela Odeon. Não só por ser um dos meus três discos preferidos, mas considero o gospel progressivo desta fase do cantor como algo superior até aos tão aclamados registros da fase Racional de seu amigo Sebastião. Passados quase 40 anos desde o lançamento de Apresentamos Nosso Cassiano, ainda não ouvi nada parecido no Brasil.

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Anos mais tarde, Cuban Soul, de 1976, traria os hits Coleção (regravado por Ivete Sangalo) e A Lua e Eu (famoso na voz de um grupo de pagode), conferindo um pouco de reconhecimento ao gênio paraibano. Do mesmo álbum é a canção Onda, que os mais atentos poderão reconhecer na introdução de Da Ponte Pra Cá, música do Racionais. Seu temperamento difícil e seu estilo de vida “doidão” contribuiriam para que Cuban Soul marcasse o início de um grande período de ostracismo na carreira do cantor, sendo seu último disco de inéditas. A única forma de desfazer essa injustiça da vida, é conhecendo e divulgando a obra de Cassiano, uma das mentes mais brilhantes da música brasileira. Pode dar o play que é pedrada!

 

01. O Vale
02. Slogan
03. A Casa de Pedra
04. Chuva de Cristal
05. Melissa
06. Castiçal
07. Me Chame Atenção
08. Calçada
09. Cinzas
10. Cedo ou Tarde

Por destino ou por não ser nenhum craque no futebol, começou a escrever desde cedo. Deitado em um dos gramados do Museu do Ipiranga, conheceu A Tábua de Esmeraldas e o violão de Jorge Ben, encontro que o motivou a imaginar um futuro onde ouviria discos e escreveria sobre eles. Antes de ingressar na faculdade de Jornalismo, foi obrigado a trocar as salas de Ciências Sociais pelas fileiras do Exército Brasileiro. Gosta de sofrer com o Palmeiras, filmes coreanos e os chiados de sua vitrola Polyvox.

1 Comentário para "Diário de Pedradas: Cassiano – Apresentamos Nosso Cassiano (1973)"

  1. cara, muito legal postar qualquer do Cassiano na web, principalmente por fazer parte da história da música brasileira e ser um músico desconhecido de grande parte do público. Muito bom!!

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