Samba, uma cultura em constante manutenção

Quase um ano depois das comemorações do centenário do primeiro samba registrado, “Pelo telefone”, o ritmo tem sofrido com irreparáveis perdas nos últimos meses.

Um estilo musical? Uma cultura? A representação de um povo? Entenda o samba como quiser, mas não deixe de atentar-se para o fato de que o samba tem, sim, ficado velho.

O homem, na sua incansável busca por datar os acontecimentos, estipulou que o aniversário do samba é comemorado em 02 de dezembro, suposto dia da primeira visita de Ary Barroso à Bahia de todos os Santos. Seu centenário fora celebrado durante o ano de 2016, uma vez que o primeiro “samba” registrado na Biblioteca Nacional tivera sido “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, em 1916.

A partir daí, o samba e o sambista travaram uma intensa e desfavorável peleja, hora com as autoridades, hora com a sociedade, até o seu apogeu, nos idos anos de 60/70/80. Há quem diga que o primeiro grande momento do samba qual ritmo musical fora em 30, mas, aos meus olhos, nada supera a exposição a qual foi submetido em 60/70/80 nos programas de Rádio e TV.

 

Trecho do programa “Festa do samba”, exibido pela Rede Globo no início dos anos 80.

 

O especial “Festa do samba” caracteriza bem esse momento. Apresentado por Osvaldo Sargentelli, o programa reuniu uma constelação de estrelas tais como: Elza Soares, Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Nelson Rufino, Roberto Ribeiro, Benito Di Paula, Jair Rodrigues, João Nogueira e Chico da Silva.

Com a chegada dos anos 90 e posteriormente 2000, o samba foi perdendo espaço para o recém nascido “pagode”. Porém, vale lembrar, o fato ao qual quero chamar atenção é, como disse no início do texto, de que o samba tem ficado velho.

E não é difícil mensurar isso quando pensamos que Zeca Pagodinho, talvez o último nome dessa geração de sambistas a despontar de forma meteórica, está a beira de seus 60 anos.

Do início de 2017 até o momento em questão, já somamos mais de 20 perdas de sambistas relevantes em todo o Brasil, dentre eles: Almir Guineto, Luiz Melodia, Luiz Grande e, na última semana, Wilson das Neves.

Músico, cantor e compositor Wilson das Neves, falecido em 26/08/17.

O fato é que essa geração de artistas, hoje senhoras e senhores de certa idade, está ficando, a cada ano que passa, mais velha. E, aceitemos nós ou não, será cada vez mais comum ver essas personalidades indo embora. O problema disso tudo é que, apesar dos esperançosos comentários a respeito de uma nova geração que está surgindo, a manutenção do samba tem acontecido de forma precária, não conseguindo repor essas peças perdidas.

Posso afirmar sem pestanejo que o samba está em boas mãos, amparado por jovens artistas que o respeitam e o admiram. Porém, a verdade é que não há uma porta midiática aberta para o samba. As mesmas músicas que fizeram a cabeça do povo brasileiro em 60/70/80 são reproduzidas até hoje como se não houvessem pencas de compositores esquecidos nas comunidades.

Como brilhantemente disse Nelson Sargento, 93, “o samba agoniza mas não morre”, pois, sim, alguém sempre há de socorre-lo. O sambista mais novo vai se acotovelando nos botequins para mostrar seu trabalho e cavando buracos inexistentes numa mídia unilateral. Ao passo que o sertanejo domina a indústria fonográfica, é como se nas ruas pudéssemos ouvir um grito dizendo: “Não deixe o samba morrer. Não deixe o samba acabar!”.

Escritor e compositor sob a alcunha de Dentinho Poesia, Yuri Dinalli é um paulistano apaixonado pelas idiossincrasias da terra da garoa e amante escancarado da cultura popular. Estudante de jornalismo, geminiano, roteirista e notívago, é também integrante do Terreiro de Compositores, movimento de sambas autorais que há 6 anos dá voz à música marginal.

2 Comentários para "Samba, uma cultura em constante manutenção"

  1. Correta sua análise Dentinho. Quero apenas fazer uma observação. Creio que as novas gerações precisam entender que ser apenas resistência não basta. Quem quiser se profissionalizar e conquistar mercado precisa pensar no Samba como a cultura de um povo, não apenas entretenimento. Houve um desmonte da indústria fonográfica, provocado pelas novas tecnologias, isso modificou a maneira de produzir e vender música e de uma certa forma os artistas ficaram “órfãos”. É preciso se adaptar. Na cadeia capitalista, o Samba ocupa um lugar desconfortável. São poucos patrocinadores e toda sua produção carece de recursos. É a força da grana que pode trazer melhores condições para o Samba concorrer em igualdade com outros gêneros que estão em evidência numa mídia reservada, onde só entra quem paga ou quem pode dar lucro. O chamado sertanejo universitário é realimentado pela agro indústria. O Carnaval conta com subsídios públicos, contravenção, turismo. E o Samba – intérpretes e compositores – Conta com quem? Pequenos escritórios de produção, parcos recursos próprios, quase sempre de uma forma independente e amadora. A questão é que os novos talentos agora tem que se envolverem diretamente na criação, produção e na venda do seu trabalho, disputando um mercado cada vez mais ampliado e diversificado nos estilos, sob pena de ficar sem visibilidade. Uma constatação para mim: como entretenimento o Samba hoje só tem lugar em bares ou espaços alternativos. Nesses lugares há o sub emprego dos músicos e sambistas e quase sempre a “obrigação” de agradar o público da “casa” executando cover’s. O artista tem que decidir. Viver de forma marginal, buscando abrir fronteiras para divulgar e vender seu trabalho ou aderir ao cruel “sistema” vigente.

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