Enquanto carentes – doentes

É preciso estar presente – não importa aonde nem tampouco por quê!

Mas por outro lado fica complicado ter de saber qual o lugar que se está pisando a todo o momento, e é inevitável que esse fato desencadeie uma série de divagações da ordem do querer. Isso torna a semana, o mês, a vida inteira um grande ciclo de quereres não realizados: nada se faz, mas tudo tem de ser feito.

Não posso afirmar, no entanto, que exista criação; pois são elas crias incipientes que crescem aos poucos, tornam-se relativamente maiores, atingem um ponto de ser relevantezinhas num mar de grandes feitos irrelevantes para, finalmente, limitarem-se a meros riscos de fumo e saudosismo baratos. Ficamos, por fim, todos imersos num modus operandi que rejeita qualquer limite entre o bom senso e o amor próprio.

Enquanto os ratos se roem, os pombos somente observam.

Por mais que doam as costas continuamos inclinados a sermos figurantes de nossas próprias vidas. Sempre é preciso estar fazendo algo, embora muitas vezes para uma finalidade que não é o fim primordial. O fazer necessário, aquilo o que é preciso para viver em bando cordialmente, nos é empurrado goela abaixo; vociferado em caixa alta por qualquer alma que necessite com urgência ser vista ou lembrada e/ou perdigotado à revelia de um mar de virtualismos e ismos e ismos e ismos. ‘’Você precisa disso’’, ‘’Faça isso’’, ‘’Compare e compre’’, ‘’Seja assim, não assado’’, ‘’Você não pode pensar assim’’ etc.

Creio que tal urgência pode ser vista como uma forma menos prazerosa de desfrutar os prazeres do que se vive enquanto se vai vivendo por si só. Ao passo em que perdemos saliva privamos nossos ouvidos – e escutar é preciso – pois assim somos possibilitados a aprender sobre outras tantas coisas e sobre nós mesmos, inclusive.

Descobrir-se é respeitar o tempo de descoberta do outro. Nesse caso, ajudar não é impor.

Viver em função do que querem é complicado, porque ‘’querem’’ implica muita coisa – e gente também é coisa coisificada. Muitos quereres dos outros, separados eles em sua individualidade de ser tudo o que melhor lhes convir a vontade, resulta em nós, tormentos difíceis de serem controlados. Somos muitos nós envolvidos, a ‘’coisa’’ gente.

Às vezes me pego pensando ser escravo de tanta necessidade, que não sei se pertence a mim mesmo ou se pertence a alguém que já fui e acabei me tornando por ocasião da conveniência de ser um ser social, que carece de estar inserido nesse todo que é a vida de um alguém que precise estar, ser, parecer.

Claramente há de se resistir. Mas é tão cansado o modo como o resistir é posto em prática, que a resistência perde força e torna-se um chuveiro quente que pinga gelado.

Resistimos para que seja possível existir e continuar existindo. Entretanto, existem imperativos que surgem não sei de onde, os quais julgam e condenam qualquer outra forma de viver uma verdade que não a sua. É uma influência imposta, por isso, negativa.

É possível viver sem danar o outro por simplesmente haver discordâncias.

Aliás, é saudável que haja tais desencontros, afinal, uma bolha de sabão, quanto maior, mais bela e agregadora de ar ela é. Nesse caso, aumentar nossa bolha social, além de nos garantir mais oxigênio, torna a vida mais colorida e menos monocromática.

Não sucumbir ao tédio que fomenta nossos copos cheios é um exercício fundamental. No entanto, dogmatizar o filho, o amigo, a avó e o fantasma que se soma aos outros inúmeros existentes nesse campo atrofiado do não saber é perpetuar aquilo que fizeram com os nossos lá atrás. Tal ação, que sugere um movimento de repetição involuntária, força-nos a reiterar a tarefa que nos incumbiram no inconsciente coletivo durante os anos de nossa má formação.

O sistema é complexo, mas é igualmente previsível. Enquanto nossas vontades se esvaem em detrimento das vontades alheias a nós, verdades multiplicam-se como amebas e corrompem a empatia que nunca foi amplamente praticada. A condição ideal para essa reprodução consiste em apenas criar o ambiente propício ao feito; assim, nossa lógica pseudo-social cumpre essa função com a maestria de um programa desenvolvido a acondicionar números em redes.

Se antes os fantasmas permeavam apenas nosso imaginário e nos causavam um medo seguro, hoje eles vivem a nossa volta nos dizendo o que fazer, como fazer e por qual motivo devemos – isso mesmo, devemos – fazer.

É triste, mas funcional.

Nasceu em Guarulhos no dia mais frio do ano de 1988. Aprendeu música ainda novo e atualmente leva a vida na flauta. Escreve mais do que ri.

3 Comentários para "Enquanto carentes – doentes"

  1. Fernando, que texto sensacional!
    Não quero defini-lo todo em alguma palavra que possa diminuir o valor… Gostei muito, me fez sentir bastante.
    E vou compartilhar…
    Você será mais um aqui que acompanharei…

    Um grande abraço! ❤

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