CID Psiquiátricos: Quando o maior transtorno é o preconceito!

“O Grito” de Munch

A psicofobia, que consiste no preconceito em face de pessoas que possuem doenças ou transtornos mentais, infelizmente, mesmo com o advento das informações modernas, ainda se faz muito presente em nossa sociedade.

Antes dos estudos científicos de psicologia e psiquiatria, a sociedade entendia tais doenças e transtornos como bruxarias, ou até mesmo “pactos com o demônio” ou outros meios sobrenaturais que justificassem, de alguma forma, o desarranjo psicológico.

Arte por Ryan Skalish

Apesar do avanço da ciência, o senso comum sobre os transtornos e doenças psicológicas ainda é cotidiano.

O preconceito e o estereótipo vêm, sobretudo, da desinformação. Muitas vezes, nem mesmo a pessoa que está passando pela desordem psíquica tem conhecimento ou acesso aos meios de tratamento. Desta forma, esta acaba sendo associada a causas espirituais, ou ainda, atribui-se culpa a própria pessoa, como se ela não quisesse reagir, o que, em suma, tende a piorar ainda mais o quadro clínico e desorganizar ainda mais o indivíduo.

Sabe-se que os gatilhos para transtornos mentais podem ser tanto de ordem hormonal, como de traumas. Em ambos os casos, o indicado é o diagnóstico correto através da psicoterapia e psiquiatria.

Somente em um momento recente da história ocidental, deu-se tal categoria de “doença mental”. Conceitualmente seria impossível o uso de tal termo antes do século XIX.

Inicialmente, isolava-se o “louco” em um lugar não terapêutico, mas sim repressivo. Apenas na Revolução Francesa passou-se a uma fase mais humanista em relação as doenças mentais.

Conforme ensina Foucault, em sua tese A história da Loucura, nem só os loucos eram mantidos em Hospitais Gerais. O tratamento não tinha tal individualização, sendo confinados aqueles que apresentavam transgressões sexuais (assim considerados doentes venéreos, prostitutas, sodomitas, etc); os acometidos das chamadas “desordens do coração” (acusados de magias, alquimia, feitiçaria e etc.), e os loucos, tendo, assim, tais hospitais, uma população heterogênea.

Arte por Zarina Situmorang

Com isso podemos perceber que a razão, desde antes da epistemologia da palavra “loucura”, já segregava esses chamados “loucos”. Isso porque a razão tende a excluir e deslocar o que ameaça a sua ordem.

Desde a criação do termo loucura até os dias atuais, há uma crescente subordinação da loucura à razão da medicalização.

Com o advento dos hospitais psiquiátricos, é como se entre a Polícia e a Justiça se instaurasse uma terceira ordem, de enclausuramento da loucura como forma de repressão.

Esse enclausuramento não tem como finalidade a recuperação do louco, mas sim a exclusão social dos indivíduos considerados perigosos, como é perigoso tudo o que ataca a ordem de normalidade de um Estado Burguês. A loucura, assim, nada mais seria do que a humanização dos regimes punitivos, trazendo novas técnicas ao controle social.

Recentemente, estamos acompanhando uma discussão sobre saúde mental no governo Temer. As tendências do Governo são de diminuir os leitos em hospitais dia, e aumentar vagas em modelo psiquiátrico manicomial.

(Fonte: http://esquerdadiario.com.br/Coordenador-de-Saude-Mental-de-Temer-defende-retorno-do-modelo-psiquiatrico-manicomial).

No hospital-dia, o paciente recebe tratamento de assistência intermediário, de no máximo 12 horas, e especificamente na saúde mental o paciente recebe atendimento multidisciplinar com atividades desenvolvidas em até 5 dias da semana, com 8 horas diárias.

Conforme visto na reportagem acima citada, o pagamento pelos hospitais dia é realizado ao governo conforme o número de pacientes. Ou seja, na medida em que os pacientes vão melhorando, a tendência é a de que vão conseguindo viver sua vida com maior autonomia, e fiquem cada vez menos dependentes de tais hospitais.

Já, nos leitos manicomiais, os contratos são realizados por mês. Com esse sistema mensal as pessoas tendem a ficar “trancafiadas” em leitos psiquiátricos, por um período muito mais longo de tempo.

Arte por Mazzoldi

Fica a indagação: O que seria mais vantajoso economicamente para o governo: Tratar pessoas, como no modelo atual, ou voltar a trancafiá-las?

A partir do momento que alguém ganha um CID (Sigla para Classificação Internacional de Doenças) de doença psiquiátrica, a vida dessa pessoa vira de cabeça para baixo, e conforme muitos relatos, nunca volta a ser a mesma.

Ela passa a ser objeto dos mais variados tipos de preconceito. Dificuldades com as pessoas que antigamente se relacionavam com ela afetivamente, dificuldades em justificar tal CID em seus empregos, entre outras tantas…

A partir do momento que você ganha um CID psiquiátrico, este é carimbado na sua testa. Por onde você anda você será o “borderline”, o “histriônico”, o “bipolar”… perdendo, dessa forma, sua identidade. É como se toda a sociedade vivesse em uma bolha do “felizes para sempre”, e que quem ousasse questionar algumas coisas específicas do sistema, estivesse fadado a ser trancafiado em hospitais psiquiátricos, e de preferência, de que jogassem a chave fora.

Ocorre que, são poucos os que tem maturidade na sociedade para reconhecer que para além de bruxarias, falta de “força de vontade” ou falta de “Deus no coração” as pessoas que passam por tais transtornos possuem problemas de ordem química, que devem ser tratados com remédios (como um diabético, ou um hipertenso, por exemplo).

Ainda, há aqueles, que dizem “dá na mesma quem toma psicotrópicos ou drogas psicoativas”. Fica aqui o questionamento: Será mesmo? Será que uma pessoa que está com a química cerebral alterada, vai ter o mesmo efeito se tomar uma medicação psiquiátrica, ou, por exemplo, “fumar um”? Para que então perde-se horas e horas de estudo e trabalho sério antes de se usar o carimbo do CID psiquiátrico na testa das pessoas? Seria essa distorção também uma faceta da psicofobia?

Arte por Vincent Van Gogh

Ficam esses e todos os outros questionamentos, para que pensemos juntos em como trazer para a ordem social aqueles que tanto tem as nos dizer, a pensar, e a gritar… Mas que muitas e muitas vezes são abafados, para que a sociedade propositadamente não lhes dê ouvidos.

Termino, então, citando Raul Seixas:

“Enquanto você se esforça pra ser, um sujeito normal e fazer tudo igual;

Eu do meu lado, aprendendo a ser louco, um maluco total, na loucura real;

Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez vou ficar…ficar com certeza maluco beleza”.

Sejamos todos loucos! Sejamos todos livres (de preconceitos, inclusive).

Advogada, feminista, tentando engajar a militância jurídica com o meio social. Atualmente estuda serviço social, e passa mal toda vez que alguém a chama de “assistencialista”. Acredita no serviço social não como uma forma de assistencialismo ou prática individual, mas sim como política pública que concretiza o direito ao acesso público da equidade.

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