Minhocão ocupado por balanças? Sim! Aconteceu no Festival Baixo Centro, aqui em São Paulo.


O Basurama –  junto ao MUDA_coletivo e ao Sociedade Anônima – foi quem desenvolveu a ideia e produziu a iniciativa. O Basurama é um coletivo que visa transformação social mediante a estratégias lúdicas e participativas por intermédio do lixo.

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As balanças representam o Balançar eu Adoro, parte de um dos projetos do coletivo que visou transformar o Minhocão em um parque de diversões. Além de despertar a atenção de quem passou por ali no dia do Festival Baixo Centro, a intervenção nos deixou curiosos para conhecer e entender as motivações e ações do Basurama.

Para inspirar corações e reciclar pensamentos, entrevistamos o Miguel, coordenador da ramificação do projeto no Brasil.

O lixo não existe_sao paulo

SOUL ART: Lendo sobre o Basurama, encontrei uma declaração interessante sua, que diz:

“O lixo é a expressão cultural de um povo[…]”.

Gostaria que explicasse esta declaração e contasse de que forma o Basurama busca transformar a cultura em que vivemos, mantendo alternativas sustentáveis.

Eres lo que tiras_2007

BASURAMA: Acreditamos verdadeiramente que o lixo é expressão cultural. Uma sociedade se expressa através da sua língua, da sua música, dos objetos que cria, e por que não, através da forma que descarta coisas? Da mesma maneira que na cultura existem fenômenos locais e/ou globais, como a própria questão da produção, no descarte e na gestão dos resíduos acontecem a mesma coisa. Os catadores de materiais recicláveis de Madri não têm nada a ver com os de São Paulo, com os de Delhi ou com os de Miami.

RUS_Lima_2010

Nós pensamos que o conceito do lixo faz parte de um outro conceito geral, que podemos descrever como cultura material. A maneira a qual uma sociedade administra seus recursos, compra em lojas ou supermercados, consome produtos e depois descarta, é apenas mais uma forma de expressão dessa sociedade, através da qual podemos diferenciá-la das outras. Inevitavelmente, a cultura material tem tudo a ver com sustentabilidade. Nós não chegamos na questão da sustentabilidade diretamente, senão através dos valores que nos ensinaram sobre os resíduos. Sabemos que vivemos em uma sociedade de consumo, mas até começarmos a nos relacionar de maneira mais honesta com nossos hábitos de consumo e os nossos resíduos, não conseguiremos enxergar nada.

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Resultados de vários projetos que lidamos com diferentes classes de lixo nos fizeram perceber que lixo não era só o que descartávamos diariamente nas sacolas de supermercado. O lixo, como objeto, não existe.  Esta é uma qualidade negativa que os seres humanos projetam sobre determinadas coisas, não por maldade, mas sim porque quando identificamos determinada coisa como lixo, estamos relacionando a mesma ao caos, que reflete tudo aquilo que não desejamos nem controlamos. Por isso o lixo é um espaço criativo por natureza.

O lixo não existe_são paulo2

SOUL ART:  Conte quando e de que forma o Basurama surgiu e um pouco da sua trajetória com ele.

Autobarrios_Madrid

BASURAMA:  O Basurama nasceu em Madri entre amigos estudantes de arquitetura. Todos nós, integrantes do Basurama, temos muitas referências e interesses distintos, mas compartilhamos do mesmo processo criativo, que tem origem nos resíduos – o que consideramos na verdade como recursos. No começo apanhávamos materiais das caçambas de rua, mas progressivamente descobrimos novos resíduos, que nunca havíamos imaginado o que eram. Quanto mais aprofundávamos em outros tipos de lixo, mais novos tipos de lixo descobríamos. Desde as propagandas que se emitem na TV, até as moradias que são construídas num lugar nas épocas de crescimento econômico, depois abandonadas com a crise.

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Imagina uma cidade como Detroit, que floresceu nos anos 30 com o desenvolvimento das montadoras. A partir da crise da indústria, nos anos 90, a cidade foi de fato abandonada/descartada. Nos últimos anos, os processos acontecem com maior rapidez. Na China, na Angola, na Espanha, se criam cidades inteiras com único fim de investimento. Aí, quando a bolha imobiliária estoura, essas cidades abandonadas e sem moradores, não são outra coisa se não lixo.

A BOLHA IMOBILIÁRIA_Sao Paulo_2012

Eu faço parte do coletivo quase desde o início e de 2000 a 2010 trabalhei com o resto do grupo em projetos no mundo inteiro. Especialmente em quase todos os países da América Latina. Aproveitando o começo da crise na Espanha, eu vim para São Paulo, onde já tínhamos trabalhado desde 2007. Então, comecei a implementar no Brasil as tecnologias que temos levado com sucesso em outros lugares. O verdadeiro potencial do Basurama é que transformamos o resíduo em recurso, em qualquer lugar, com uma mudança radical de valores – agregando valor criativo no processo. Acreditamos numa economia de abundância, onde o conhecimento é a chave para melhorar a vida das pessoas. Se pensarmos que nesses resíduos, que nos alagam por todo lado, temos uma fonte de recursos absolutamente abundante e acessível gratuitamente, é fato que nunca na história teríamos uma oportunidade tão boa para mudar radicalmente a realidade.
RUS LIMA_2010
SOUL ART: Atualmente, vocês possuem ou visam projetos em outros países? Existem novas propostas?
BASURAMA: O mesmo ano que nos estabelecemos aqui no Brasil, abrimos também sedes em Boston e em Buenos Aires, pois outros membros do grupo tiveram semelhantes oportunidades nessas cidades. Temos a sede em São Paulo, mas gostaríamos de levar os projetos para todo o país. Temos vários projetos baseados em tecnologias de construção participativa e criação, a partir de materiais descartados, que são encontrados de graça em qualquer cidade, e que permitem construir arquiteturas e equipamentos para transformação do espaço público através de processos de aprendizagem e trabalho colaborativo. Nossa proposta é que essas tecnologias cheguem ao maior número possível de pessoas e comunidades, pois trazem um grande benefício ambiental economizando a quantidade de resíduos, além do benefício social nas comunidades que participam. As possibilidades são várias – desde tecnologias para construção de bolhas infláveis a partir de sacolas plásticas e outros plásticos reciclados, até construção de brinquedos para praças e escolas com pneus descartados e mobília com restos de goma e resíduos. O cardápio é bem amplo.
Plastic Bang!kok_2011
SOUL ART: O trabalho de vocês não se resume às intervenções nas ruas. Vocês trabalham também com o PAN AM. Explique para nós o que é, como ele funciona e de que forma auxilia nos projetos Basurama.
BASURAMA: Nosso trabalho tem duas faces estreitamente relacionadas entre si. De um lado o trabalho de criação e intervenção a partir dos resíduos encontrados. Do outro lado, a pesquisa sobre que é resíduo, que outros tipos de resíduos existem e com os quais poderíamos trabalhar. No percurso dessa pesquisa, encontramos lugares onde o lixo está presente de distintas formas. Esse trabalho de documentação se converteu em 6000km na cartografia fotojornalística colaborativa, em que mostramos várias cidades em várias peças de vídeo.
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O Pan Am é a evolução do projeto no continente americano, uma cartografia de paisagens geradas pela sociedade de consumo no continente. As fotos mostram como são os lugares onde enterramos nossos resíduos, e também lugares onde foram abandonados serviços públicos por razões estratégicas – como o trem no Uruguai, na Argentina, no Brasil. A ideia é que através dessa visão panótica e transfronteriza, o público seja capaz de enxergar como nosso modo de vida gera muitos tipos de resíduos, tanto tangíveis como intangíveis.
Outras fotos mostram tipos de cemitérios que não se vêm facilmente, como o Maior Cemitério de Aviões do Mundo em Tucson (Arizona, EUA) e cemitérios de entulho que viraram parque natural, como o Parque da Costanera Sul em Buenos Aires.
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Uma de minhas fotos favoritas foi tirada nas montanhas rochosas do Canadá. Na frente dessas montanhas incríveis está localizado um centro de gestão, onde existem várias montanhas de materiais separados: de tapete, de madeira e outra de ferro velho. A visão das montanhas naturais contrastadas com as montanhas criadas pelo homem é uma imagem simplesmente fascinante.
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SOUL ART: Pensando na expressão cultural da sociedade moderna, que aspecto dela você reciclaria? De que maneira você clamaria, aos leitores, uma mudança?
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BASURAMA: Para mim, a mudança necessária está relacionada aos nossos valores e nas pessoas que podem nos ensinar o certo – que estão muito perto de nós. Olhemos então para os catadores e as crianças. O catador de resíduos é o trabalhador urbano que mais pode nos ensinar sobre como estamos errando na nossa cultura material, quando compramos e descartamos produtos, por exemplo. Se olharmos com sensibilidade quais são os materiais que essas pessoas recolhem, já saberemos com quais eles conseguem renda, portanto quais deveríamos separar dos orgânicos para facilitar seu trabalho. As crianças também nos oferecem uma valiosa mostra de valores. Os objetos e o mundo que as interessam, são interessantes por suas qualidades, por suas formas e cores, e não por algo tão trivial como o valor de troca.

 

– Se você quiser conhecer mais sobre todo o trabalho do Basurama, estes são os links:
FANPAGE BASURAMA (Internacional).
SITE DO BASURAMA (Com opção de linguagem para o Português)
PAN AM (Cartografia de paisagens)

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