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No momento em que a SOUL ART acertadamente decide montar um Canal no Youtube e veicular seus assuntos também pela comunicação oral, pensei em colocar esse texto justamente para debater os desafios que se colocam, para que tenhamos uma comunicação positiva e justa com os seguidores.

Como primeiro ponto, é importante evitar nostalgias pregadas pela grande mídia:

A democratização e a diversidade de opiniões proporcionada pela internet é uma evolução importante, e as opiniões centralizadas na grande mídia, sob o mito da neutralidade escondem a defesa de elites e grupos de negócios brasileiros, que historicamente causam efeitos nefastos sobre a sociedade brasileira, sobretudo pelo aprofundamento da desigualdade social e a intolerância que ocasionam.

Arte por Gunduz Agayev

O aumento da polarização política e religiosa da sociedade é responsabilidade direta dos meios de comunicação, este concentrado nas mãos de seis famílias e também concentrado nas mãos de grupos religiosos que tem elevado o tom contra a diversidade de gênero e, ao mesmo tempo, tem respaldado o corte de direitos dos trabalhadores, o que mostra que há um vínculo entre as “teorias da prosperidade” e os interesses das elites, colocando pastores como algozes de uma população sobre a qual dizem serem os “intermediários da salvação”. A meritocracia sempre será um discurso que fará sentido apenas para quem já tem patrimônio, o qual se reproduz com muita facilidade sem grande esforço.

Se atualmente as opiniões sem base e as fake news (notícias falsas) representam um desafio inegável à democracia, antes os grandes canais de televisão e o jornalismo dos grandes grupos já se apresentavam como veículos de fake news institucionalizado, em que suas reportagens patrocinadas têm endereço certo e, portanto, não são menos perversos. Ou ainda, aquilo que se omite também representa a tentativa da construção de um pensamento de massa.

Arte por Jean Jullien

Dito isto, uma grande preocupação acerca de youtubers, digital influencers e outras denominações que tem aparecido é sua capacidade de influenciar opiniões, posicionamentos políticos e preconceitos diversos sem nenhuma base de profundidade naquilo que embasaria seus argumentos (em que certamente preconceito não tem nenhum tipo de justificativa plausível).

A filosofia grega definiu a diferença entre doxa e episteme, em que a primeira está relacionada a opiniões sem a necessária validação científica, ao passo que a segunda representa hipóteses que tem de ser demonstradas de maneira analítica.

Sobre esse aspecto, não significa que estes meios de comunicação precisem ter discursos e bases científicas, até por conta de ser um meio que tem por força uma comunicação mais simples e direta que alcance o grande público. Nesse aspecto, um cuidado também deve ser tomado até com os discursos científicos, que muitas vezes carregam vieses e não representam necessariamente uma opinião válida e sem vieses – é possível realizar pensamentos sofisticados e ser intelectual através de senso comum, baseado em uma capacidade de apreensão através do bom senso de uma realidade que nos cerca.

Todavia, um desafio se coloca neste tipo de comunicação é encontrar um meio termo: ao mesmo tempo em que a comunicação tem de ser prazerosa, fácil e divertida, é necessário chamar a atenção dos próprios vieses e citar referências para que as pessoas possam se aprofundar sobre o assunto. Tomando que a comunicação traz impactos duradouros nas opiniões e, por conseqüência, na socialização, na moral, na ética e até na vida econômica das pessoas, é necessário responsabilidade e preparo no material que vai ser veiculado, permitindo às pessoas refletir e, ao mesmo tempo, paradoxalmente ter a chance de se libertar dos próprios vieses que explícita ou implicitamente estamos veiculando com a melhor das intenções.

O que mais assusta nisso tudo é que à medida que a audiência dos digital influencers aumenta, se tornando um meio de vida, as próprias opiniões fazem parte do mercado e podem ser compradas.

Cada vez mais, se estuda as opiniões das pessoas para que “vídeos engraçados” possam representar o seu próprio pensamento e, a partir daí, usar da empatia construída no público o canal para direcionar suas opiniões para comprar produtos. Reparem: neste aspecto, os digital influencers não são tão diferentes dos líderes religiosos, pois passam pela mesma chave da dominação e racionalidade carismática.

Nesse sentido, não é mais possível confiar em opiniões de pessoas que são patrocinadas por grandes marcas e passam a elogiar cosméticos, perfumes, hotéis, música, partidos e movimentos políticos, filmes dentre outros.

O poder do direcionamento das opiniões reside justamente no uso da construção da empatia como ponte para direcionar o consumo das pessoas, em uma era do individualismo, egocêntrica e narcisística em que a pessoa busca na verdade não uma pessoa para admirar por aquilo que você não havia pensado, mas uma pessoa que represente o espelho de sua própria “genialidade” individual sem projeção. São em momentos banais, sutis, das imagens cômicas com base na piada e na brincadeira que o poder de disciplinar as pessoas mais se constrói.

Logo, temos uma grande responsabilidade pela frente: como aliar sustento com honestidade e responsabilidade social na comunicação, pautando inclusive a contracultura que remunera menos? Esse é o desafio colocado – tratar a comunicação a serviço de uma sociedade igualitária, justa, tolerante, entendendo a cultura como um meio que liberta, mas que também pode explorar, manipular e empobrecer.

A construção das opiniões pode levar as pessoas a defender pontos de vista que, sem perceber, as prejudicam mesmas – afinal quem nunca viu notícias sobre neonazistas negros e latinos; negros contra cotas ou ainda classe média com camiseta da seleção brasileira, indo às ruas protestar e ajudar a colocar no governo uma verdadeira quadrilha que, agora, tem tirado de maneira violenta direitos sociais e liberdades individuais? Nesse aspecto, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti expressou em seu desfile de maneira genial essa contradição.

Arte por Peter Ryan

Fiquemos atentos, mas também louvemos a volta da cultura oral e do bate-papo entre grupos não mediados pelas elites midiáticas, ainda que a concentração de tanta informação em meios como Youtube, Facebook, Whats App, Twitter e as opiniões fascistas autoreferenciadas causadas por essas ferramentas possam representar uma ameaça real na democracia no século XXI – mas esse é um assunto para outro texto.

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