Ao Pé da Letra #1: Sabotage – Cabeça de Nego

Em 24 de janeiro de 2003, Sabotage foi morto com quatro tiros na Zona Sul de São Paulo. Um gênio do rap brasileiro, até hoje, seus versos inspiram gerações.

No 15º aniversário de sua morte, homenageamos esse artista que tinha o rap como compromisso, com uma análise especial da música Cabeça de Nego, feita pelo professor Edu Arau.

O episódio inaugura a webserie Ao Pé da Letra, produzida pela SOUL ART, que irá trazer diversas análises de letras músicas brasileiras, que vão do MPB ao rap, do samba ao funk.

Tempos, trips e terreiros: “Cabeça de nego”, um samba-rap de Sabotage

Cabeça de Nego (2002), de Sabotage, uma das doze faixas de cd Instituto – Coleção Nacional. É uma canção estranha, um hibrido musical onde rap e samba se entrelaçam num engenhoso fluxo de palavras e imagens, nas quais seu autor lança uma jocosa (e arguta) mirada sobre si, sobre o homem negro da periferia e a realidade social do país. Entremeando em seus versos saudações de terreiro, digressões, pequenas crônicas, “encadeia impressões fragmentadas e difusas que definem um sujeito em constante mudança (“que não para”) e que resiste a toda adversidade, assumindo uma postura de abertura para alegria da existência, insubmissão a dogmas e a determinantes sociais.

Cabeça de Nego inicia com um canto-saudação extraído do iorubá, expressão de agradecimento com que, por vezes, abrem-se os trabalhos/rituais no terreiro de Umbanda, religião de Sabotage:Ieiêeo iê Obá, Olorum modupé, Odá odara iêeee….

O verso evoca dois orixás, começa por Obá, primeira esposa de Xangô, orixá guerreira e justiceira, para então saudar e agradecer Olorum (que é odá, rei), pedindo também a proteção por meio de Odá odara (a face protetora de Exu, que afasta o mal), a tranquilidade e a plenitude também contida na palavra “odara”.

Sabotage era adepto da Umbanda, uma religião espiritual, espiritualizadora e magística cujo maior fundamento é a crença na existência de um deus único, o divino criador Olorum, o grande mistério. Deus principal no panteão iorubá, impulso primeiro do eterno movimento, princípio de tudo e que reside em tudo que criou: mistério do conhecimento.

O nego não para no tempo, não
suas origens vêm de Angola, há um bom tempo
Sabo-Tizuo Brasil, bem Brasil, no Rio, do verdinho, cabeça de nego!
Desfecho conforme vive o vento se mostra
respeito pro povo
um ofenso universo,
Protetor do ouro, que o rei colheu do Orun, ouro do Olorum vem do terreiro….

Nos dois versos que abrem a estrofe, Sabotage refere a si mesmo em terceira pessoa como “nego”. Assinala, assim, o fato de ser um sujeito “inquieto”, sempre em movimento, também um viajante, cujo trânsito São Paulo—Rio de Janeiro será pontuado ao longo da canção. Essa natureza autobiográfica é explicitada no terceiro verso; quando ao nome do autor e intérprete “Sabotage” funde-se por aglutinação à palavra “tizio” (pássaro de plumagens negro-azulado brilhantes), tizio significando (no nordeste) também o sujeito de pele muito escura.

A palavra-valise “Sabotizio” serve para defini-lo como descendente daquele negro que não para no tempo, afro-brasileiro. Assim, “o nego” (Sabotage) expande em sentido. O “nego” passa a equivaler ao homem negro, aludindo ao percurso do negro africano no Brasil, cuja origem (de Angola) se faz presente para além do tempo da escravidão. Deste modo, o verso procura reafirmar ainda mais tais raízes (introduzida pela saudação dos orixás), percebido no encadeamento de rimas/ecos que propõe, na breve sequência de palavras: “Sabo/tizio, Brasil, bem Brasil, no Rio”.

O letrista e crítico literário Francisco Bosco, num ensaio intitulado “Cinema-canção”, elabora uma explicação bastante elucidativa sobre a insistente repetição do nome dos MC’s em seus raps:

Um traço característico da cultura hip-hop: a autoafirmação. Com efeito, desde as tags – as assinaturas estilizadas dos grafiteiros, seus caligrafites -, que marcaram os primórdios do grafite, até a insistente repetição, pelos MC’s de seus próprios nomes nos raps, a autoafirmação é um dos traços distintos do gênero. É certo que há nisso uma relação com a opressão social que está na base do rap: o nome próprio que o MC proclama é seu nome de batismo artístico, nome auto-fundador, nome próprio em sentido próprio, nome que busca um reconhecimento social diante da sociedade que até então lhe negara.

Se a voz do eu-lírico corresponde à do poeta/compositor, Sabotage, mais do que autoafirmação, se insere no corpo da canção para afirmar sua identidade negro-brasileira (opondo-se a Angola do verso anterior) e por ser negro é que ele se faz “bem Brasil” e brasileiro. O Rio (de Janeiro) é espaço de onde ele fala um tanto de si e da experiência desta viagem, de onde parte também considerações sobre brasis passando por São Paulo, pela região sul e nordeste.

O terceiro verso coloca-o, definitivamente no centro da canção, em que surge exposto, a revelar-se sem hipocrisia. Começa por definir-se, com humor e ousadia, um sujeito “do verdinho” – gíria para “maconha”; porém não um tipo banal de verdinho/maconha, pois adjetivado pela expressão “cabeça de nego”, que significa nas favelas paulistas: “maconha de boa qualidade”.

O rap Cabeça de Nego, portanto, representa um mergulho na “boa qualidade” do sujeito Sabotage, como cidadão negro, pensante, mas – subversivamente – apreciador inveterado da cannabis (sua crítica recorrente é à cocaína e seus perigos).

Sabotage jamais escamoteou seu vício, ao contrário, tanto que sempre o explicitou em suas letras de rap, depoimentos e entrevistas, como a última concedida à revista Trip:

Você disse que fuma maconha o dia inteiro. Que efeitos te provoca?

Eu vivo num mundo totalmente isolado. Analiso as coisas antes de fazer as paradas. Fico sentando de cantão, olhando. Então as pessoas falam: “Puta, aquele cara viaja 24 horas na maconha, será que ele pensa o quê? Será que ele não pensa em nada?”. Eles não encararam qual é a minha, mas os filhos que são adolescentes dizem: “O Sabotage é doido, escreve as músicas dele, já não tem mãe nem irmão, perdeu os primos todos assassinados, o tio está preso há 29 anos, o velho Monarca [personagem do livro Estação Carandiru, de Dráuzio Varella, foi retratado no documentário Travessia do Tempo, da jornalista Dorrit Harazim] ”. Conclusão: não tenho muito o que ficar rindo, mas também não tenho muito de ficar “coitadinho sou eu, culpado são vocês”. Então fico aí registrando as coisas e escrevendo, sabe?

Sabotage entendia o consumo da maconha como um instrumento de diversão/dispersão pelas perdas pessoais sofridas, citando a maconha em seus versos sempre em momentos de encontros com amigos/parceiros, como se fosse um modo de congraçamento e identificação com seus pares, com uma “vida bandida” que marcou sua trajetória, sua formação.

(…)

Observa-se neste ponto em “Cabeça de nego” uma mudança rítmica. Com entrada do som de pandeiro, os dois versos finais “soam” mais samba, já que acompanhado de seu instrumento característico. A aliteração do “p” é explorada na estrofe em várias palavras (parada, preta, empapuçado, presta, se pá, pago, palma, pandeiro, para, Porto, tempo, praia), pontuando a passagem do tom recitativo para o ritmo cadenciado do samba, ampliado pela estrofe que condensa o refrão em dois versos construídos com o recurso da repetição/repique: “Porque o nego não para, não para, não para, há um bom tempo/ O nego não para, África vejo o momento.”

A repetição (“porque o nego não para”) reforça a noção de persistência de um grupo étnico-racial que, resistindo historicamente, garante sua continuidade. Mais que isto, neles a “África” se propaga até no presente, nunca estanque já que “não para no tempo”, significado dado para além dos versos, já que a música passa a fundir os ritmos do samba e do rap, criações negras. O concatenar de várias vozes em coro, lembra também que roda é uma experiência de participação coletiva, de um momento compartilhado. Neste sentido, a pergunta endereçada ao ouvinte (Sabe por quê?) é respondida na repetição: “Porque o negro não para…”

(…)

Sabotage elaborava suas letras num método caótico. Escrevia à mão, num caderno de folhas meio soltas. Por não tocar instrumentos, compunha letras sobre melodias e batidas de canções já existentes, normalmente no barraco onde vivia com a mulher e os dois filhos. Suas músicas eram escritas diante de dois aparelhos de som ligados, tendo a frente, um par de televisores (um sintonizado em desenhos animados ou em noticiários; e o outro, em videoclipes de rap ou músicas black antigas). Suas referências musicais eram variadíssimas, de Racionais, passavam por Pixinguinha e Chico Buarque, ou a cantora Sandy, de quem admirava a técnica vocal. Dos norte-americanos, apreciava Nas, Enimem, Jay-Z, Dr. Dre, Snoop Dogg, Notorius B.I.G., Eazy-E, Lauryn Hill, Coolio, Cormega, Foxy Brown, Tupac Shakur — maior nome do rap nos Estados Unidos. Em estúdio, conforme relatado por parceiros e técnicos de som no documentário Sabotage: maestro do Canão, não era raro se confundir com os versos escritos no caderno, improvisando trechos inteiros, o que tornava impossível gravar duas vezes a mesma canção.[4]

A tradição (samba) e o novo (rap); o eu e o mundo; a experiência religiosa e o trâmite político-social; a transgressão/rebeldia ante um sistema injusto, tudo isto “Cabeça de nego” abarca. Arregimentando versos fragmentados, numa estrutura aparentemente não coesa, o rap de Sabotage exprime impressões, a partir da perspectiva de um sujeito negro e periférico, de um Brasil complexo, profundamente desigual, governado por corruptos. A persistência do homem negro, amparado pela força de sua fé ancestral, entretanto, garante continuidade e abertura para a alegria, pelo futebol, pelo canto, pelo gozo da existência; ou na expressão bem humorada de Sabotage: “Periferia sofre em vida, mas tira um lazer”.

SABOTAGE – CABEÇA DE NEGO

Ieiêeo iê Obá, Olorum modupé, Odá odara iêeee….

O nego não para no tempo, não
suas origens vêm de Angola, há um bom tempo
Sabo/tizio Brasil, bem Brasil, no Rio, do verdinho, cabeça de nego!
Desfecho conforme vive o vento se mostra
respeito pro povo
um ofenso universo,
Protetor do ouro, que o rei colheu do Orun, ouro do Olorum vem do terreiro….

O nego não para no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a seco, um dia irá chover
Sabe por quê?

Nego não paga veneno, mas, acredita, se você já sabe, há um bom tempo,
o nego para um bom tempo, seja África, Brasil, brasileiro
maracutaia em toda parte, vejo no governo
tem ACM, Lalau, pra deixar tormento
tem muito tempo, o pobre pagando veneno
Mesa Branca, Aruanda, que canta com fama
que manda a mensagem ao Canão êeeeeeeeeee…

Nego não para no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a seco, um dia irá chover
Sabe por quê?

Ei hey bebê, um bebezin’ Tiriri Lonan, eu vi, um bebezin’ Tiriri Lonan!

Faço o que faço, há um bom tempo, chegado,
eu tô com carro parado, uma preta do lado
empapuçado de mato.
Rica (chegado) chega
presta um cigarro, se pá, não pago besteira
Brasil tô na palma, pandeiro não para
de Porto Alegre à Candelária, bom tempo na praia.

Porque o nego não para, não para, não para, há um bom tempo
O nego não para, África, vejo o momento.

Tipo: Anastácia, Tereza, relembram Mãe Menininha
o Cantois pode crer, cê sempre vai ter vida,
Maracanã lotado, um desacato, por isso já é sábado
tudo o que eu faço é torcer
mais vai ver: a trajetória do Timão vencer
(Periferia sofre em vida, mas tira um lazer)
Quem é o defensor do Orun, vai saber dizer
Quem é o protetor da guerra vai sabe viver, hey…

Nego não para no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a seco, um dia irá chover
Sabe por quê?

Faço o que faço, não quero pedaço
Sou nego véio, chegado, talvez tô com mato,
elaricado, empapuçado, muita sede do lado
chegando sempre vejo um preto, vou mandando o recado:
“Sabote, vejo sim, quero dizer que vim, do Brooklin ressurgi aqui,
reivindiquei estou aqui porque
um novo tempo vai pode dizer que, é,
sobre um passado de um tempo presente”

Moleque de black, descalço, vou chapando o coco, correndo no morro,
Aeroporto vivo vivo, Água Espraiada é assim, é,
o tempo todo Deus está por mim.
Porque eu faço o que faço não mando recado,
E faço o que faço, não mando recado,
(Diz) faço o que faço não mando recado
(Sim) faço o que faço não mando recado.

Nego não para no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia, lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia, segue a seco/sede, um dia irá chover
Sabe por quê?

Olhos operados, pêlos brancos que avançam, troca a noite pelo dia. Virou doutor na USP com 336 págs. sobre o sagrado em Guimarães Rosa. Filho-eterno de sua mãe; de seus irmãos, idem. Não gerou nem conquistou a sonhada independencia financeira. Cultiva amigos muito jovens. Tem amor por livros, filmes, arte. Ensina o assunto e faz filmes. Tem um blog REVIDE para falar de si e um pouco de tudo, como aqui, onde pousa no momento.