Começa frio, a seco, com esse garoto de 17 anos, solitário, problemático, monossilábico, antipático e ríspido morando numa instituição prisional, preste a ser julgada sua saída e parta tanto precisando arranjar um emprego. Mas ele parece não dar a mínima, para ficar ou sair. Se o mundo interno é frio, fora é pior; e o emprego que decide para si é recolher corpos numa funerária. Não se vai dizer que o contato com os mortos o humaniza, nem com os brutos funcionários que o tratam como criminoso. Só esboça humanidade quando uma garota o percebe num vagão de trem, e mais tarde quando recebe o corpo de uma mulher com mesmo sobrenome que o seu, que pode ser sua mãe. Até que decide, numa das saídas, encontra-la por meio de arquivos, e descobrimos que foi abandonado ainda bebê e que viveu desde sempre em instituições, até o crime horrendo que cometeu. Então sim, ele pode encontrar a mãe extremamente jovem e terrível. As cenas da piscina mostra o único dom do garoto: a capacidade de respirar. E de repente, o filme — que nunca esquenta, que nunca chega ao drama histérico na sua contensão e distanciamento — ganha grandeza, e nos solidarizamos com o garoto, entendendo seu vazio existencial, mesmo que a premissa seja o velho clichê: filho busca a mãe que o abandonou para entender o porquê, pois conhecer o princípio é uma forma de buscar um rumo. No meio disso, a silenciosa visita ao cemitério ao túmulo do assassinado, e a meticulosa descrição do crime no tribunal. Irrespiravelmente inspirado.

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